
Oposição na Indonésia
02/04/2025
Por Marcelo Santos
Imagine a seguinte cena: um templo lotado, ocupado por 300 pessoas, e o culto sendo conduzido por avatares gerados por inteligência artificial (IA). Projetados em uma tela, eles conduzem a celebração como se fossem pastores, obreiros e músicos, guiando a congregação por 45 minutos. Durante esse tempo, cantam, oram, recitam Salmos, dão testemunhos de fé e concedem a bênção final. [Do editor: avatares são representações digitais de uma pessoa em um ambiente virtual, como jogos, fóruns e redes sociais, podendo ser também um personagem ou uma imagem que o usuário escolhe para se identificar no mundo virtual]

Foto: Arquivo pessoal
Parece uma cena futurística de filme hollywoodiano, mas a descrição retrata um evento real ocorrido em 9 de junho de 2023, na Igreja de St. Paul, em Fürth, na Alemanha. O experimento reuniu, na plateia, líderes cristãos e estudiosos para uma experiência imersiva. O teólogo e artista Jonas Simmerlein, idealizador da iniciativa, revelou que 98% da produção da reunião se deu com ajuda da IA. Ele relatou que a intenção não foi substituir líderes religiosos por inteligência artificial, e sim utilizá-la como um instrumento auxiliar no trabalho cotidiano das congregações. Na ocasião, Simmerlein afirmou que a IA pode oferecer inspiração para sermões e permitir que pastores dediquem mais tempo a aconselhamentos espirituais individualizados.

Foto: Reprodução / Universität Wien
No Brasil, não há registros de cultos realizados por meio da inteligência artificial. No entanto, o debate acerca desse tema tem crescido exponencialmente; em especial, sobre o uso da IA na preparação de sermões e na elaboração de conteúdos para mídias sociais. Não por acaso, essa inovação levanta questões éticas em relação à autoria, ao teor da mensagem e ao papel desempenhado pelo líder religioso.
Para a jornalista Elis Amâncio, especialista em Marketing Digital e Mídias Sociais e mestranda em Estudos de Linguagens (CEFET-MG), é necessário buscar discernimento e ter propósito e responsabilidade na hora de usar qualquer IA. “É preciso priorizar a ética, garantindo que as ferramentas sejam usadas para glorificar a Deus e servir às pessoas, nunca para manipulação.” De acordo com a estudiosa, os critérios para utilizar essas tecnologias devem contemplar: o respeito à privacidade dos dados dos indivíduos, das igrejas e dos ministérios, incluindo o tratamento e o cuidado na manipulação de fotografias ou vídeos produzidos dentro dos templos, a fim de evitar que ganhem um significado diferente do original; a transparência das informações ou estratégias geradas por inteligência artificial e o compromisso de preservar a mensagem central do Evangelho. “Ela deve ser enxergada como ferramenta auxiliar para o dia a dia, e não como substituta da interação entre pessoas ou da direção do Espírito Santo.”

Foto: Reprodução / YouTube / KTLA 5
Na opinião de Elis, as IAs devem ser vistas como aliadas na otimização de tarefas repetidas e automatizadas – algo que não pode ocupar o lugar da leitura da Palavra, da oração e da comunhão com o Senhor, ações que não são “automatizáveis”. “No ensino, por exemplo, a inteligência artificial pode ajudar a organizar conteúdos, pesquisar literatura, servir como chave bíblica ou sugerir métodos criativos, mas a interpretação da Bíblia e o cuidado pastoral exigem a orientação de Deus, algo que nenhuma máquina consegue replicar”, opina a acadêmica, autora dos livros Mídias sociais na igreja, Comunicando o reino e Redes sociales para la iglesia. “A interação saudável está no uso da IA como ferramenta, mantendo a constante busca do Espírito Santo em todas as ações ministeriais.” [No final desta reportagem, leia o quadro O que é inteligência artificial?]

Foto: Arquivo pessoal
Importância da ética – No último trimestre de 2024, uma das salas da Primeira Igreja Batista em Santo André (SP), no Grande ABC, ficou lotada para a palestra ministrada pelo Pr. Arthur Lupion, diretor da Teach Beyond, do Uruguai, organização missionária que forma profissionais e líderes. Graduado em Administração de Empresas, mestre em Teologia pelo Seminário Palavra da Vida e doutor em Liderança pelo Seminário Teológico de Dallas (EUA), Lupion pesquisa o uso da inteligência generativa – uma tecnologia que se espelha nas redes neurais profundas [modelos de aprendizagem automática que imitam a forma como o cérebro processa informações] para criar novos conteúdos a partir de dados, como texto, áudio ou imagem, no contexto das igrejas. “A IA é alimentada por uma ampla variedade de informações com base nos dados fornecidos a ela. Assim sendo, a qualidade e a origem dessas informações dependem das fontes utilizadas. Muitas vezes, elas não são claramente identificadas, o que pode comprometer a confiabilidade do conteúdo gerado.”
O pastor pontua que a inteligência artificial trabalha a partir de uma visão de mundo inerente ao material recebido. “No caso de conteúdos cristãos, tudo o que ensinamos reflete a nossa cosmovisão [visão de mundo]. Não existe neutralidade em qualquer forma de ensino”, esclarece. Em contrapartida, pontua o teólogo, se uma IA é abastecida com material que apresenta uma perspectiva ateísta, agnóstica ou de outra visão não cristã, ela pode produzir respostas ou informações firmadas nesses paradigmas. “Isso pode influenciar negativamente quem utilizar esses dados, especialmente no contexto de pregação ou ensino.”

Foto: Arquivo pessoal
O ministro batista cita o exemplo da Coreia do Sul, país asiático de 51,7 milhões de habitantes, que tem experimentado uma crescente integração entre religião e tecnologia, popularizando a IA em serviços religiosos. “O impacto dessa realidade na fé pode ser positivo ou negativo”, garante Lupion, ressaltando que, em um primeiro momento, muitas pessoas passaram a utilizar a inteligência artificial de maneira inadequada, gerando muitas controvérsias. “Durante a pandemia, por exemplo, uma reportagem mencionou que cerca de 20% a 30% dos pastores na Coreia do Sul estariam pregando mensagens elaboradas com o auxílio de IA”, aponta Lupion, destacando que a notícia era falsa.
Segundo uma reportagem publicada pela Revista Exame, aproximadamente 20% dos pastores já recorreram ao ChatGPT para elaborar sermões no Brasil, e seis em cada dez líderes religiosos consideram a ferramenta útil. Esse cenário evidencia a expansão das IAs no meio religioso, impulsionada por empresas como a sul-coreana Awake, quem tem liderado essa transformação com o chatbot teológico Meadow (conhecido como Ask Jesus), conquistando milhares de usuários desde março de 2023. Essa tecnologia fornece respostas automatizadas em janelas de conversações e é alimentada pela inovação da OpenAI, sob a supervisão de um comitê de pastores que garante a precisão teológica. Tal modernização tem atraído pessoas até de países majoritariamente muçulmanos, como o Paquistão, e de cristãos do Brasil, dos Estados Unidos e de vários países da Europa.

Foto: Arquivo pessoal
Outro avanço é a plataforma de áudio Biblely.ai, da startup sul-coreana Voiselah. Utilizando a Vibly, uma tecnologia de aprendizagem profunda da vida real por meio de IA, ela fornece uma variedade de serviços com voz virtual natural, como a Bíblia falada, leituras bíblicas com base em situações diversas, versículos diários, marcadores de áudio, podcasts narrados por celebridades e sermões. Além disso, os usuários podem acessar planos de leitura do Livro Sagrado e devocionais. O aplicativo é destinado tanto a igrejas, permitindo produções personalizadas, quanto a indivíduos, criando versões em áudio das Escrituras com vozes simuladas de pastores. Durante a pandemia de covid-19, quando os serviços religiosos presenciais foram interrompidos, a demanda pela Biblely.ai cresceu significativamente. De acordo com o jornal estadunidense Financial Times, muitos membros acreditaram que os próprios líderes haviam gravado aquelas mensagens, portanto, desconheciam que se tratava de produções artificiais. “São dados expressivos. O tema merece reflexão e cuidado ao considerar os impactos na autenticidade e na mensagem transmitida”, reforça Artur Lupion.
Missão da igreja – Na opinião doPr. Michel Augusto, da Igreja Batista Reformada de Brasília (DF), a elaboração de uma pregação requer sensibilidade pastoral e compreensão profunda das Escrituras Sagradas, aspectos que não podem ser substituídos por ferramentas de IA. “Preparar o sermão é uma tarefa artesanal que envolve prática pastoral. Não tem como produzir uma mensagem com recursos somente de exegese sem conhecer o estado das ovelhas”, afirma.

Foto: Arquivo pessoal
Para o jornalista Moisés Sbardelotto, especialista em fé e cultura digital, as comunidades religiosas precisam embutir aspectos do contexto cultural local no ambiente digital, a fim de cumprir a tarefa de evangelização. “A Igreja é chamada a fazer o anúncio do Evangelho nesse cenário como parte da sua missão”, defende ele, que é professor da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG) e autor dos livros E o Verbo se fez rede: religiosidades em reconstrução no ambiente digital e Comunicar a fé: por quê? Para quê? Com quem?. Mestre e doutor em Comunicação, Sbardelotto afirma que a igreja deve utilizar a inteligência artificial com um propósito missionário e ético, sem se limitar à praticidade tecnológica. “No ambiente digital, a Igreja precisa ter uma presença que anuncie sua mensagem e cumpra a sua missão”, diz o jornalista, ressaltando que é necessário manter um diálogo sincero com a sociedade, construindo um “pertencimento” real nas comunidades digitais.
O Pr. Elvis Xavier, da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Londres, Inglaterra, concorda com Sbardelotto e defende a utilização positiva da tecnologia. Há alguns meses pregando no Centro da capital inglesa, Xavier usa a IA para otimizar o tempo e expandir a disseminação da Palavra. “Esse auxílio pode ser uma grande bênção, especialmente para os pastores como eu, que precisam criar vídeos em uma língua e, instantaneamente, adicionar legendas em outro idioma. Isso facilita a comunicação e a propagação da Palavra”, avalia, enfatizando que, quando usada de modo ético e com propósito, a IA pode ser um dispositivo poderoso no cumprimento da missão cristã. “Se utilizada corretamente, a tecnologia será útil para alcançar o que a Bíblia ensina sobre anunciar a Palavra por todas as nações”, avalia, acrescentando que o cumprimento do Ide é uma ordenança de Cristo (Mc 16.15). “Isso é um passo a mais para que a vinda de Jesus se concretize, permitindo que todos conheçam o Evangelho”, salienta o ministro, o qual acredita que a inteligência artificial representa uma peça moderna que pode, inclusive, acelerar a evangelização, alinhando-se ao mandato bíblico de que toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai (Fp 2.11), antes do retorno do Salvador.
O QUE É INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL (IA)?
A inteligência artificial (IA) é uma área da Ciência da Computação dedicada ao desenvolvimento de sistemas que realizam tarefas que normalmente exigiriam inteligência humana, como aprendizado, tomada de decisões e resolução de problemas. Esses sistemas utilizam algoritmos para analisar dados, reconhecer padrões e oferecer respostas ou ações com base em informações aprendidas.

Essa tecnologia pode ser classificada em quatro tipos, mas apenas os dois primeiros já são uma realidade, são eles:
– IA Reativa: a forma mais básica do sistema, projetado para responder a estímulos específicos com base em regras predefinidas.
– IA com Memória Limitada: detém capacidade de aprendizado e adaptação fundamentados em dados recentes, uso de memória de curto prazo para melhorar respostas e desempenho, aplicação em ambientes dinâmicos no qual o contexto recente é relevante e uso de experiências passadas para informar decisões futuras.
– IA com Teoria da Mente: área em desenvolvimento que visa criar sistemas que possam entender e simular emoções, crenças, intenções e pensamentos humanos.
– IA Autoconsciente: estágio hipotético no qual os sistemas de IA possuiriam uma consciência semelhante à humana.
Uma das vertentes mais inovadoras da IA é a inteligência generativa, que cria novos conteúdos a partir de entradas de dados – textos, áudios ou imagens. Esses sistemas aprendem padrões em grandes conjuntos de dados e geram resultados, como imagens digitais, respostas a perguntas e até composições musicais. Os exemplos mais conhecidos desse modelo são o ChatGPT, que cria textos a partir de comandos, e o DALL-E, que gera imagens com base em descrições textuais. (Marcelo Santos com informações de OpenAI, IBM, Canal Tech e Eduvem).