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LIVRAMENTO DA ANGÚSTIA
15/04/2026
Por Victor Rodrigues
Definido biblicamente como a décima parte dos bens ou da renda oferecida a Deus, o dízimo é uma prática com raízes profundas na história do povo de Israel e adotada pelos cristãos desde o início da Igreja. Segundo teólogos e líderes religiosos, significa mais do que uma simples contribuição financeira: envolve princípios espirituais e a obediência ao mandamento divino que atravessa gerações. Sua primeira referência nas Escrituras Sagradas aparece em Gênesis 14.18-20, quando Abraão, após vencer uma batalha contra Quedorlaomer e seus reis aliados para resgatar o sobrinho Ló, entrega o dízimo a Melquisedeque, rei de Salém e sacerdote do Altíssimo. Pastores interpretam o gesto, ocorrido cerca de quatro séculos antes da instituição da Lei mosaica, como o reconhecimento de que a vitória e a provisão vieram do Senhor.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Em outra passagem da Bíblia, Jacó, então em fuga de Berseba rumo a Harã, na Mesopotâmia, e temendo a ameaça de morte feita por seu irmão Esaú, após a questão da primogenitura, viveu uma marcante experiência espiritual. Na ocasião, ele fez um voto ao Senhor. Prometeu que, caso fosse guardado e conduzido em segurança, entregaria o dízimo de tudo o que recebesse (Gn 28.10-22). Estudiosos da Palavra entendem a atitude de Jacó como expressão de gratidão a Deus e dependência dEle.
Nos dias de hoje, em meio aos desafios econômicos contemporâneos e às discussões sobre o atual papel da Igreja, cada vez mais cristãos têm refletido sobre o significado do dízimo, destacando tratar-se de uma prática essencial que precisa ser consciente, responsável e alinhada aos valores do Evangelho. Na visão do Pr. Wagner Escatamburgo, da Assembleia de Deus – Ministério Vale das Virtudes, em Jardim Trianon, na cidade de Taboão da Serra (SP), o dízimo é um princípio bíblico voltado à conservação da casa de Deus e tem raízes tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. “Conforme descrito em Levítico 27.30-34, as finalidades são bem definidas: a manutenção do culto, o sustento dos levitas e a assistência social”, recorda-se ele, esclarecendo que Jesus reconhece a legitimidade dessa prática (Mt 23.23; Lc 11.42) e chama a atenção à fidelidade ao Senhor. “O dízimo é um ato consciente, voluntário e espiritual”, argumenta o ministro assembleiano, lembrando que, a partir da Nova Aliança, a devolução do dízimo ao Pai ganha outra perspectiva, a da disposição do coração, evidenciada pela busca da comunhão na Igreja primitiva:

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e fazendas e repartiam com todos, segundo cada um tinha necessidade. E, perseverando unânimes todos os dias no templo e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar(At 2.44-47).

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Na opinião do Pr. Mãnu Mezabarba, da Primeira Igreja Batista no Itaim Paulista, zona leste de São Paulo (SP), o dízimo não deve ser compreendido como meio de salvação nem como um imposto de cunho legalista, mas como um ato de adoração e gratidão. “O equilíbrio entre liberdade e responsabilidade se mostra na compreensão de que a liberdade em Cristo não representa permissão para agir com negligência; ao contrário, impulsiona para o serviço voluntário e generoso”, ensina ele, citando o texto de Gálatas 5.13 e acrescentando que o crente em Jesus, liberto da condenação da Lei, é impulsionado pelo Espírito Santo a assumir a responsabilidade de sustentar a igreja local não por constrangimento, mas, sim, como uma decisão espontânea e sincera, conforme ensinou o apóstolo Paulo aos Coríntios: Cada um contribua segundo propôs no seu coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama ao que dá com alegria(2 Co 9.7). “O foco da vida cristã deve estar no contentamento e na busca prioritária pelo Reino de Deus e pela Sua justiça (Mt 6.33), confiando que Ele é o Pastor e o Provedor que suprirá cada necessidade.”

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
O Pr. André Luiz de Carvalho, da Igreja Batista Nova Jerusalém, em Jardim Guadalajara, na cidade de Vila Velha (ES), afirma que o dízimo é um princípio espiritual, enraizado nas Escrituras, e não uma lei obrigatória imposta pela Igreja. À luz da tradição batista, ele lembra que essa contribuição – a qual serve para manter a comunidade cristã – não é requisito para a salvação, já que a Bíblia revela que crer em Jesus como Senhor e Salvador (At 16.30,31) é o que conduz a pessoa à eternidade ao lado do Pai. O ministro batista destaca, entretanto, que a devolução dos 10% recebidos é uma resposta de fé ao amor do Altíssimo, um ato de obediência e honra ao Senhor e de reconhecimento da soberania divina em todas as áreas da vida do crente. “A liberdade cristã não significa ausência de compromisso, e sim maturidade para contribuir com a missão da Igreja a partir dos recursos confiados por Deus, sempre de maneira racional”, prega Carvalho.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Bênçãos extravagantes – O Pr. Fernando Ferreira de Albuquerque, líder estadual da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) no Paraná, define o dízimo como um tripé sustentado pelo estímulo à generosidade, pelo privilégio de cooperar com a obra de Deus e pela fidelidade do Senhor em abençoar o Seu povo. Na avaliação do pregador, a devolução de 10% do que se ganha fortalece a participação na missão evangelística da Igreja e contribui para o crescimento espiritual do cristão. “A fé de quem é dizimista é colocada à prova e, por isso, é desenvolvida”, garante Albuquerque, acrescentando que a melhor maneira de incentivar essa prática é ensinar aquilo que está registrado no Livro Santo. Além disso, o ministro lembra que a experiência pessoal com o Todo-Poderoso aprofunda o significado espiritual do dízimo. “A Bíblia nos convida a experimentar a bondade do Senhor, conforme diz o Salmo 34.8 (Provai e vede que o Senhoré bom; bem-aventurado o homem que nele confia) e Malaquias 3.10 (Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim, diz o Senhordos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós uma bênção tal, que dela vos advenha a maior abastança)”, ensina Albuquerque. [Leia, abaixo, o quadro Obediência a Deus]
OBEDIÊNCIA A DEUS

A prática do dízimo surge na Antiga Aliança e continua na Nova Aliança. Como um ato de dependência do Senhor, gratidão e fidelidade a Ele, o crente devolve ao Todo-Poderoso 10% de todo recurso confiado pelo Altíssimo porque sabe que é apenas mordomo, e não dono do seu dinheiro. No livro Perguntas e respostas sobre o dízimo (Graça Editorial), o Missionário R. R. Soares lembra as palavras de Jesus registradas pelo evangelista Mateus sobre a observância dessa contribuição:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer essas coisas e não omitir aquelas (Mt 23.23).
O autor esclarece que o dízimo pertence ao Senhor e deve ser entregue à casa do tesouro, ou seja, à Igreja, onde o servo de Jesus é alimentado espiritualmente. O dízimo é um dos assuntos mais importantes da vida do cristão. Pode-se afirmar que, se o filho de Deus não for dizimista, jamais prosperará, pois, ao deixar de entregar o dízimo, ele não somente está desobedecendo ao Senhor, mas também se abrindo para as operações do diabo em sua vida, escreve R. R. Soares, citando o texto de Malaquias 3.9: Com maldição sois amaldiçoados, porque me roubais a mim, vós, toda a nação.
Outro ponto destacado na obra é que Deus chama de roubo o ato de reter o dízimo, conforme escrito em Malaquias 3.8 (Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas): Fazendo isso, o homem não está roubando somente o dinheiro – a exemplo daquele que deixa de pagar o imposto ao governo –, mas tirando também a oportunidade de Deus abençoá-lo financeiramente; de mostrar-se como Pai e Pastor, Aquele que não deixa que coisa alguma falte aos Seus, conforme diz o Salmo 23.1, e repreender o devorador que consome o que pertence ao homem.
O Missionário lembra, entretanto, que não basta ser dizimista para prosperar, uma vez que tudo aquilo que o cristão recebe do Senhor é pela fé. A prosperidade, como qualquer outra bênção, é recebida por meio de um ato espiritual, que consiste em tomar posse da bênção. Por isso, R. R. Soares faz uma recomendação fundamental: Após ter dado o dízimo, ore, determinando a sua bênção; declare o que Deus afirma a seu respeito e confesse que a bênção é sua. Toda vez que estiver orando, mencione as promessas de Deus diante dEle (não porque o Senhor Se esqueça, mas porque fará um bem tremendo a você). (Colaborou Patrícia Scott com informações de Graça Editorial)
Para o Pr. Diógenes Souza, da Igreja da Graça no Centro de Caçapava (SP), o dízimo deve ser entendido como uma contribuição voluntária, marcada pela liberalidade e pelo amor ao Senhor. Por isso, sua entrega na igreja não está associada a qualquer tipo de barganha, mas ao compromisso consciente de fé. “O dízimo não pode ser visto como obrigação pesada, mas como parte da dedicação ao Reino dos Céus”, prega Souza, citando as palavras de Jesus em Mateus 11.30 (Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve) e explicando que, quando o cristão compreende esse princípio, passa a contribuir com alegria. “Desse modo, ele percebe que se trata de um investimento na obra de Deus”, afirma o ministro, deixando claro que o homem não pode receber coisa alguma se não lhe for dada do Céu. “Nossas bênçãos, primeiro, são espirituais antes de serem físicas e materiais”, garante o pastor. “Os 10% nunca fazem falta, pois os 90% restantes rendem mais do que os 100%.”

Foto: Arquivo pessoal
O entendimento de Diógenes Souza é confirmado pela experiência do casal de empresários Orlando Rodrigues de Souza, 66 anos, e Salma Hada de Souza, 61, membros da sede estadual da Igreja da Graça no Paraná, em Curitiba (PR). Os dois relatam que, há 25 anos, contribuem de maneira ininterrupta com a obra divina e têm desfrutado de bênçãos tanto pessoais quanto familiares. “O dízimo é sinal de comunhão com o Criador e confiança nEle. Mesmo nos momentos mais difíceis, nunca pensamos em deixar de dar o dízimo ou em negociar com o Criador. Pelo contrário, nessas ocasiões, o coração ardia ainda mais em fidelidade”, testemunha Orlando, garantindo que, se tivessem negligenciado esse compromisso, não teriam superado uma grande dificuldade financeira. “O Senhor fez muito além do que poderíamos imaginar”, declara o empresário, aproveitando a oportunidade da entrevista à Graça/Show da Fé para aconselhar o cristão a sempre aplicar os ensinamentos bíblicos, independentemente das circunstâncias, e deixar um recado: “Seja intencional diante de Deus, peça ajuda ao Espírito Santo e procure um pastor para esclarecer suas dúvidas”.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Relato semelhante foi compartilhado pela vendedora autônoma Miryan Figueiredo, 60 anos, integrante da IIGD no Centro de Caçapava (SP). Convertida ao Evangelho desde 1980, ela afirma que sempre entregou o dízimo, mas aprofundou sua compreensão sobre o princípio bíblico de “fazer prova” de Deus – como ensinado pelo profeta Malaquias (Ml 3.10) – a partir de 2016. Após participar do Curso Fé, programa de ensino bíblico desenvolvido pelo Missionário R. R. Soares e publicado pela Graça Editorial, Miryan passou a enxergar a provisão divina de modo mais concreto, mesmo diante de dificuldades financeiras. “Com o conhecimento adquirido, aprendi a viver a fé de maneira prática, e, atualmente, colho os frutos dessa fidelidade”, testemunha, garantindo que, assim como Orlando e Salma, cumpre seu compromisso cristão, sabendo que esse gesto mensal auxilia no sustento da igreja e no fortalecimento a obra do Senhor.



