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De que maneira as congregações evangélicas estão contribuindo para preservar o meio ambiente

Foto: Caitlin – Gerada com IA / Adobe Stock

Por Victor Rodrigues

Eventos climáticos extremos têm se tornado cada vez mais frequentes no Brasil e em diversas regiões do planeta. Os noticiários nacionais e internacionais vêm mostrando, recorrentemente, episódios de seca severa, enchentes de grandes proporções, incêndios florestais devastadores e fortes nevascas, que refletem um cenário ambiental preocupante. De acordo com relatórios de cientistas e instituições ambientais citados pela Organização das Nações Unidas (ONU), as transformações observadas no clima global ocorrem em ritmo e escala considerados inéditos na História recente.

O engenheiro florestal Carlos Vicente, coordenador nacional da IRI Brasil, faz um apelo para que mais comunidades cristãs se unam na defesa da natureza e auxiliem nos esforços globais contra o desmatamento ilegal
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Os estudos mostram que a ação humana tem papel determinante nesse processo de desarranjo climático. Estimativas científicas indicam que a temperatura média do planeta subiu 1,1 °C em comparação aos níveis registrados antes da primeira Revolução Industrial (1760-1840) e da segunda Revolução Industrial (1870-1914). Esse aumento é atribuído pelos pesquisadores às emissões de gases de efeito estufa provenientes da queima de combustíveis fósseis, do desmatamento e de atividades agropecuárias. Segundo eles, como consequência, há a intensificação de fenômenos climáticos severos, como a elevação do nível dos oceanos e o acelerado derretimento das calotas polares. Os especialistas alertam que, caso o aquecimento global ultrapasse 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, os impactos podem ser ainda mais graves para os ecossistemas e para a humanidade: aumento de crises alimentares, falta de água e danos significativos à biodiversidade são alguns exemplos.

Diante desse quadro, teólogos e pastores têm debatido quais atitudes as igrejas evangélicas e os crentes em Jesus podem tomar para minimizar esses problemas e, dessa forma, cumprir com excelência o primeiro mandamento ecológico da Bíblia: E tomou o Senhor Deus o homem e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar (Gn 2.15). Para os estudiosos da Palavra, à luz desse fragmento da Escritura, o cuidado ambiental do mundo – a casa comum da humanidade – é, portanto, uma expressão de fé e de obediência à vontade do Criador. Eles lembram as palavras do apóstolo Paulo em sua carta aos Romanos: Porque a ardente expectação da criatura espera a manifestação dos filhos de Deus. Porque a criação ficou sujeita à vaidade, não por sua vontade, mas por causa do que a sujeitou, na esperança de que também a mesma criatura será libertada da servidão da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação geme e está juntamente com dores de parto até agora (Rm 8.19-22).

Foto: Fifthplanet / Adobe Stock

Inspirada por esses e outros versículos bíblicos, a reportagem de Graça/Show da Fé foi a campo ouvir especialistas em meio ambiente, teólogos e ministros do Evangelho para saber o que a Igreja está fazendo para cumprir a ordenança divina e, assim, ajudar na preservação da vida e na proteção daquilo que Deus criou.

O teólogo Gutierres Siqueira alerta: “As Escrituras oferecem princípios sólidos que confrontam tanto a exploração predatória quanto o consumismo desenfreado”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

“Obras ecológicas” – Um desses movimentos em favor da defesa da natureza vem da Iniciativa Inter-Religiosa pelas Florestas Tropicais no Brasil (IRI Brasil), que, desde 2022, tem apoiado comunidades religiosas, especialmente cristãs, apresentando resultados positivos. Segundo o engenheiro florestal Carlos Vicente, coordenador nacional da instituição, as igrejas, movidas pela solidariedade e pela compaixão, têm se tornado parceiras estratégicas em ações de cuidado, prevenção e resposta às crises ambientais. “As parcerias são fundamentais diante de desafios que ninguém enfrenta sozinho, conforme diz a Bíblia: Melhor é serem dois do que um (Ec 4.9)”, atesta ele, fazendo um apelo para que mais comunidades cristãs se unam em torno da causa e auxiliem nos esforços globais contra o desmatamento ilegal.

Foto: 24Novembers / Adobe Stock

Com MBA em Gestão de Recursos Naturais, Carlos destaca a importância da participação evangélica para reduzir os efeitos da crise ambiental mediante práticas simples que provocam um impacto coletivo significativo. “Evitar desperdícios dealimentos, cuidar dos recursos hídricos, apoiar a preservação e o reflorestamento, participar de mutirões e ações ambientais, ensinar o cuidado ambiental à luz da Palavra, construir parcerias em defesa da vida e organizar respostas a crises climáticas são algumas formas de obediência a Deus e de amor ao próximo.” Membro da Primeira Igreja Batista de Brasília (DF), o engenheiro acredita que, nos dias atuais, há uma abertura crescente para o tema nas congregações, especialmente quando as lideranças reconhecem que a crise ambiental afeta diretamente a vida das pessoas. “É a poluição das águas e do ar, os desequilíbrios climáticos, o calor extremo, os ciclones que destroem cidades inteiras e as secas prolongadas, as quais  geram pobreza, sofrimento e deslocamentos forçados. Em outras palavras, produzem doenças, miséria, dor, desesperança, inflação e até violência”, observa o especialista.

O Pr. João Carlos Marins relata: “O uso consciente da água e da energia, a separação e destinação adequada de resíduos e a adoção de energia solar fazem parte do meu dia a dia”
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

Para o teólogo Gutierres Siqueira, o mandato criacional descrito em Gênesis 1.26 (Domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra) não autoriza o uso destrutivo da natureza; pelo contrário, responsabiliza os cristãos pelo cuidado do meio ambiente. “As Escrituras oferecem princípios sólidos que confrontam tanto a exploração predatória quanto o consumismo desenfreado”, alerta Siqueira, o qual declara que os crentes não devem rejeitar as descobertas ecológicas pelo fato de terem origem secular, e sim resgatar uma visão de mundo bíblica. Para que isso seja possível, ele sugere às igrejas ações concretas, como conectar sustentabilidade a valores já consolidados, entre eles administração financeira, cuidado com os mais necessitados, simplicidade e legado para os filhos.

O Pr. Gilmey Meyreles prega: “Em decorrência do pecado, a depravação humana afetou toda a criação, mas podemos ser intencionais em meio a esse cenário”
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

Além disso, Siqueira acredita que cabe aos líderes evangélicos incentivar práticas de consumo consciente, eficiência energética, inovação tecnológica e empreendedorismo verde, e, ao mesmo tempo, dialogar com especialistas e coordenar ações distintamente cristãs. Na opinião dele, os seguidores de Cristo deveriam estar na vanguarda do debate ambiental, porque, de fato, a criação revela a grandeza do Senhor e foi confiada aos cuidados humanos. Outro ponto realçado pelo estudioso é o compromisso com as próximas gerações, o zelo pelo planeta e o conceito de mordomia, que estabelece limites éticos no uso dos recursos naturais. “O ano sabático e o jubileu (Lv 25) previam descanso para a terra, enquanto a Lei mosaica proibia a destruição desnecessária, até mesmo em contextos de guerra (Dt 20.19,20)”, cita o teólogo, acrescentando o texto de Provérbios 12.10, o qual enfatiza o cuidado com os animais.

O Pr. Carlos José de Amorim avalia: “Falar sobre sustentabilidade não afeta a missão da Igreja quando o tema permanece fundamentado na Palavra”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Por sua vez, o Pr. João Carlos Marins, especialista em Responsabilidade Social, lembra que tudo deve ser feito para a glória de Deus (Cl 3.23), incluindo o cuidado ambiental. Considerando o que está registrado em Tiago 2.17 (Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma), ele sublinha que atitudes cotidianas – como a redução de desperdícios, a manutenção adequada de veículos e o incentivo a fontes de energia renováveis – são “obras ecológicas” e, portanto, evidências práticas da fé cristã. “O uso consciente da água e da energia, a separação e destinação adequada de resíduos e a adoção de energia solar fazem parte do meu dia a dia”, relata Marins, que produz conteúdos de conscientização ambiental à luz da Palavra de Deus. “Muitos cristãos exercem papéis relevantes na sociedade mais por comprometimento pessoal do que por incentivo direto das igrejas locais”, pondera, complementando que as comunidades de fé podem se envolver de maneira mais efetiva, inclusive como geradoras de trabalho e renda, por meio de iniciativas, como coleta e reciclagem de materiais.

O Pr. Pablo Mailahn esclarece que “zelar pela criação é uma maneira de adorar o Criador” e reforça a ideia de que o cuidado ambiental faz parte do legado deixado para as próximas gerações
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Ação intencional – O Pr. Gilmey Meyreles, líder da Primeira Igreja Batista em Porto de Santana, em Cariacica (ES), lembra que fé, ética cristã e empenho ambiental são fundamentos do Evangelho. “Um ensino teológico mais sistemático sobre mordomia e cuidado com a criação contribui para formar uma consciência ecológica mais sólida entre os cristãos”, garante o ministro batista, que está à frente do projeto social Viver Cariacica. Segundo ele, a iniciativa já plantou mais de 120 árvores e vem promovendo ações educativas simples, como o descarte correto do lixo, a redução do uso de descartáveis e o combate ao desperdício de alimentos, especialmente em comunidades onde há mais vulnerabilidade social. “Em decorrência do pecado, a depravação humana afetou toda a criação, mas podemos ser intencionais em meio a esse cenário”, prega Meyreles, referindo-se a ações que podem ser colocadas em prática visando à preservação e à restauração ambiental.

Seguindo essa mesma linha de raciocínio, o Pr. Carlos José de Amorim, da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) no Centro, em Caldas Novas (GO), frisa que orientar as pessoas é um papel a ser desempenhado continuamente pelas igrejas evangélicas. Para ele, práticas, como mutirões comunitários, cuidado com espaços públicos e orientação ambiental fazem parte de uma fé viva. “Falar sobre sustentabilidade não afeta a missão da Igreja quando o tema permanece fundamentado na Palavra”, avalia o pastor, acrescentando que o cuidado com a terra é fruto de uma vida transformada, à semelhança de Cristo, marcada pela ordem, pelo zelo e pela responsabilidade. O líder cita o evento ocorrido em Jericó, quando Deus, por intermédio de Eliseu, curou águas amargas e restaurou a terra (2 Rs 2.19-22), ensinando o povo a conservar o que havia recebido. Amorim lembra que, anteriormente, a cidade enfrentava uma crise ecológica e social devido à água ruim que causava doenças, mortes e esterilidade do solo.

Foto:Yury Kirillov / Adobe Stock

Por sua vez, o Pr. Pablo Mailahn, da Igreja da Graça no Centro, em Schroeder (SC), esclarece que “zelar pela criação é uma maneira de adorar o Criador” e reforça a ideia de que o cuidado ambiental faz parte do legado deixado para as próximas gerações, seguindo, assim, o princípio bíblico transmitido pelo rei Salomão em Provérbios 3.27 (NVT): Não deixe de fazer o bem àqueles que precisarem, sempre que isso estiver ao seu alcance. O ministro faz menção às experiências recentes de atuação voluntária em ações de ajuda humanitária durante as enchentes no Rio Grande do Sul (RS), deixando claro que ser sustentável também se expressa em solidariedade concreta. “Quando a igreja ensina e vive esses valores, os membros compreendem que sustentabilidade não é apenas uma pauta social, mas também uma ação espiritual”, opina o pastor, concluindo: “Economizar água, cuidar do meio ambiente e respeitar a natureza devem ser práticas ambientais realizadas para a glória de Deus.”


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