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Pastor fala de seu trabalho de consultoria evangélica para a teledramaturgia da TV Globo

Foto: Arquivo pessoal

Por Marcelo Santos

Pastor, músico, teólogo e consultor, César Belieny, 53 anos, conhecido como Pr. Cesinha, ocupa atualmente um lugar singular no cenário cultural brasileiro. Nascido em Belford Roxo (RJ), na Baixada Fluminense, ele construiu, ao longo de mais de três décadas, uma trajetória que articula música, fé e reflexão bíblica. Essa combinação fez dele uma referência inédita no audiovisual nacional, particularmente por ter se tornado o primeiro pastor contratado pela TV Globo para construir a narrativa de personagens evangélicos em novelas e séries. “A emissora reconheceu que, até então, o segmento era, muitas vezes, retratado de maneira caricata, sem cuidado em mostrar suas múltiplas facetas. Fui contratado justamente para inserir coerência teológica e simbólica.”

Com uma formação marcada pelo trânsito entre o universo da música e o ministério pastoral, Cesinha possui uma leitura do cristianismo conectada à cultura, à arte e às questões sociais. Essa perspectiva está registrada em quatro produções globais para as quais  prestou consultoria: Vai na fé (2023), Renascer (2024), Dona de mim (2025/2026) e Três graças (2025/2026). Todas essas obras representaram os crentes de modo menos caricatural, mais humano, plural e coerente com os valores do Evangelho. Paralelamente às novelas, Belieny atuou como consultor de personagens na série Emergência 53, que trata dos dramas e das rotinas intensas dos profissionais do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU 192), uma das principais apostas da plataforma Globoplay para 2026.

Após 18 anos de atuação na Igreja Vineyard, que, posteriormente, tornou-se Betânia Barra, na zona sudoeste do Rio de Janeiro (RJ), Cesinha iniciou uma nova etapa de sua caminhada com a criação do movimento MAR (Missão, Arte e Reino), que ele chama de “um ajuntamento orgânico” nas casas.

Nesta entrevista à Graça/Show da Fé, Belieny fala sobre fé, arte e os desafios de seu trabalho na Globo.

Como o senhor se tornou consultor religioso no audiovisual?

Fui educado no contexto batista, mas fiquei, aproximadamente, doze anos afastado da fé, imerso na música secular. A partir do meu reencontro espiritual, criei o projeto Convergência, entendendo a arte como um espaço de diálogo com a cidade e com a pluralidade. Mais tarde, encontrei a Igreja Vineyard e ali percebi minha vocação pastoral, tendo sido ordenado em 2017. Com a pandemia da covid-19, entrei em crise, pois sentia que meu ministério pastoral e minha arte estavam restritos ao universo evangélico. Naquele momento, recebi um telefonema de uma pesquisadora da TV Globo, pedindo que conversasse com a autora Rosane Svartman, a qual desejava entender a diversidade da música evangélica para a novela Vai na fé. Passei a ajudar nos diálogos, na Teologia e na música e, depois, fui convidado para ser o consultor religioso.

De que maneira podemos conciliar arte e fidelidade à fé cristã?

A arte é algo de Deus. Se não promove transformação humana é porque sofreu apropriação indevida. O inimigo não cria nada, apenas se apropria. Fé não é espiritualizar o material, mas materializar o espiritual. O Verbo se fez carne (Jo 1.14). A arte é essa materialização do invisível e, por isso, a ferramenta poderosa de expressão da fé.

Como equilibrar a fé com a pressão de agradar ao público?

Não tenho compromisso de agradar ao público, mas com os valores do Reino. Jesus foi crucificado e não era unanimidade. Minha teologia, que chamo de abbalogia, não estuda Deus como objeto, mas como o Abba, o Pai. Investigo um modo de ser humano revelado em Cristo, o que orienta toda a minha consultoria. Quando questionam meu trabalho, faço como o apóstolo Paulo: apresento o Evangelho que estou pregando (Gl 2.2). Se não houver nada a ser refutado, peço apenas a destra da comunhão e que me abençoe em oração (Gl 2.9).

Quais dificuldades o senhor já enfrentou nessa nova carreira?

A principal foi encontrar um norteamento teológico abrangente em um contexto profundamente polarizado. A TV Globo não é uma emissora gospel; ela retrata a pluralidade da sociedade. O desafio era representar o universo evangélico com fidelidade, sem reduzir ou excluir. Assim, compreendi a importância de trabalhar a partir dos valores de Jesus, que chamo de “teologia do Reino de Deus” – uma “nova sociedade” na qual a vontade do Senhor se manifesta em justiça, amor e coexistência. Aprendi muito de maneira empírica. Como dizia o pastor e teólogo britânico John Stott (1921-2011): No essencial, unidade; no não essencial, flexibilidade; em todas as coisas, amor. Esse se tornou meu princípio de atuação.

Dos projetos em que trabalhou, quais destacaria?

A novela Vai na fé, dentro de uma lógica que chamo de “descaricaturização”, teve um êxito enorme e me colocou em um lugar muito positivo junto à direção da emissora. Na sequência, veio Renascer, uma releitura da novela de 1993, de Bruno Luperi, neto do autor Benedito Ruy Barbosa. Nessa nova versão, houve um trabalho que envolveu um diálogo inter-religioso.

O senhor tem alguma curiosidade dos bastidores para compartilhar?

Na novela Três graças, enquanto cantávamos a música A casa é sua, do Ministério Casa, fomos tomados por uma experiência espiritual. Atores, figurantes e parte da equipe se emocionaram. O diretor da cena admitiu ter percebido algo diferente e contou que uma editora que se diz ateia chorou. Em Vai na fé, vivi outra situação ao escrever a mensagem da Pra. Dagmar, interpretada por Heloísa Jorge. Naquele dia, ao abrir o Instagram, deparei-me com uma imagem do pastor batista e ativista político norte-americano Martin Luther King Jr. (1929-1968). Aquela foto me levou a iniciar o texto com reflexões sobre fé, justiça e esperança. Fui acompanhar a gravação e ouvi um contrarregra comentar, emocionado: A mensagem de hoje está incrível. Percebi como a palavra, quando comunicada com verdade, atravessa os bastidores e alcança pessoas que não imaginamos.

César Belieny
Pastor, músico e teólogo

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