O mal que a IA pode fazer

21/09/2026

O mal que a IA pode fazer

21/09/2026

Mães (e pastoras) encontram na fé e na rede de apoio caminhos para vivenciar uma maternidade mais leve

Foto: Arte de Gemini AI

Por Victor Rodrigues

De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 40% das mães estão inseridas ativamente no mercado de trabalho do país. Estas, dizem os especialistas, vivenciam jornadas duplas (ou até triplas), já que precisam cumprir suas obrigações profissionais e atender às demandas dos filhos e da casa. Para dar conta dessa rotina, não faltam comprometimento, dedicação, sacrifício e preparo emocional tanto para as que trabalham fora como para aquelas que optaram por cuidar do lar, testemunham pediatras e psicólogos.

A Pra. Dayane Vilela com o marido, Leandro Burger, e os filhos, Sarah, Larah e Mathias: “Nem todo dia a casa estará organizada ou a gestão será perfeita, e está tudo bem”
Foto: Arquivo pessoal

Na Bíblia, são muitos os exemplos de mães que se sacrificaram para dar o melhor a seus filhos. Foi o caso de Maria, a mãe de Jesus, que deixou um legado profundo de obediência a Deus, cumprindo o propósito divino (Lc 1.38,46-56; Lc 2.39-52). Quem também se destacou foi Joquebede, esposa de Anrão e mãe de Arão, Moisés e Miriã (Êx 6.20; Nm 26.59). Ela viveu em um período de opressão no Egito, quando o Faraó ordenou a morte de todos os meninos hebreus (Êx 1.15-22). Porém, mesmo diante daquele cenário, Joquebede demonstrou coragem e fé ao esconder Moisés por três meses e, posteriormente, ao colocá-lo em uma arca de juncos no rio Nilo, confiando que Deus cuidaria dele (Êx 2.2-10). Atualmente, milhares de mães crentes em Jesus se dedicam ao lar, ao trabalho e aos filhos. Algumas delas, que estão nos púlpitos e ministram a Palavra do Senhor, foram ouvidas por Graça/Show da Fé e relataram nesta reportagem como conseguem conciliar o serviço da maternidade e o chamado ao pastorado.

A Pra. Rose Fialho afirma que a maternidade não foi feita para ser vivida sozinha, mas em comunidade, com apoio e amor
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Pressão silenciosa – Para a Pra. Dayane Vilela, 43 anos, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Terra Vermelha, na cidade de Vila Velha (ES), a obra ministerial e sua missão materna são formas de adoração ao Senhor. Casada com o gerente de produção Leandro Burger, 42, e mãe de Sarah, 15, Larah, 11, e Mathias, 4, ela frisa que, muitas vezes, cria-se a imagem da “mãe super-heroína”, que nunca se cansa e está sempre sorrindo. No entanto, Dayane aponta que há uma pressão silenciosa no meio cristão para que as mães sejam perfeitas em todas as áreas: casa impecável, filhos ideais e ministério ativo. A líder lembra, porém, que mães são seres humanos e que admitir cansaço não é falta de fé. “Nem todo dia a casa estará organizada ou a gestão será perfeita, e está tudo bem. É necessário reconhecer a dependência da graça de Deus no cotidiano. Jesus disse: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei (Mt 11.28). Isso é um bálsamo. A Bíblia mostra que o descanso também é um mandamento”, afirma a ministra, destacando que ter uma maternidade tranquila é aceitar que haverá “dias de pausa”. “Quando deixamos de tentar impressionar as pessoas e focamos em agradar a Deus, cuidando bem de nós mesmas e dos nossos filhos, o fardo fica muito mais leve.”

A psiquiatra cristã Luisa Baptista alerta: “É necessário avaliar os sintomas depressivos e ansiosos pela duração, intensidade, pelo prejuízo funcional e impacto na vida da mulher. A demora em reconhecê-los pode prolongar o sofrimento e agravar o quadro”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Indagada sobre os desafios de ser mãe, a Pra. Rose Fialho, 56 anos, coordenadora executiva da CBN Mulher Nacional, afirma que a maternidade não foi feita para ser vivida sozinha, mas em comunidade, com apoio e amor. Professora aposentada e mãe de José Antônio, 38, e Mariana, 32, ela ressalta que um dos maiores obstáculos ao longo da vida foi conciliar os estudos, o trabalho e as responsabilidades diárias com a maternidade ainda na juventude. “Durante muitos anos, precisei deixar meus filhos aos cuidados da minha mãe para poder estudar e trabalhar. Foram cerca de oito anos vivendo essa dinâmica, entre o Ensino Médio e a faculdade. Foi uma decisão difícil, mas necessária. A Palavra nos lembra que existem fases e processos. Conforme está escrito em Eclesiastes 3.1: Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu.” [Do editor: CBN Mulher Nacional é o departamento oficial da Convenção Batista Nacional (CBN) voltado para a integração, evangelização e discipulado feminino.]

Foto: Arte de ChatGPT sobre foto de Konstantin Yuganov / Adobe Stock

Na opinião de Rose, quando o casal compartilha responsabilidades, o peso deixa de recair apenas sobre a mulher. “A rede de apoio é fundamental na maternidade. No meu caso, foi decisiva. A Bíblia nos orienta a viver em comunhão: Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo (Gl 6.2). As Escrituras também ensinam sobre o cuidado entre mulheres: As mulheres idosas, semelhantemente, que sejam sérias no seu viver, como convém a santas, não caluniadoras, não dadas a muito vinho, mestras no bem, para que ensinem as mulheres novas a serem prudentes, a amarem seus maridos, a amarem seus filhos(Tt 2.3,4). Ter alguém que nos ajude, mesmo que em pequenas coisas do dia a dia, faz toda a diferença”, afirma a pastora.

Por sua vez, a psiquiatra cristã Luisa Baptista chama a atenção para um fato importante: desde o início da maternidade, ocorrem adaptações intensas no corpo da mulher, as quais incluem mudanças na rotina, no sono, na identidade e nas relações sociais. “O momento ideal para buscar ajuda profissional é quando o cansaço deixa de ser apenas ‘o normal da fase’ e passa a comprometer o funcionamento emocional diário”, explica. Ela acrescenta que a mãe precisa estar atenta a indícios como tristeza persistente, sensação frequente de vazio, irritabilidade excessiva, choro constante sem causa clara, ansiedade intensa, percepção contínua de sobrecarga e autocrítica severa. “É necessário avaliar os sintomas depressivos e ansiosos pela duração, intensidade, pelo prejuízo funcional e impacto na vida da mulher. A demora em reconhecê-los pode prolongar o sofrimento e agravar o quadro”, alerta a profissional, deixando claro que as mães não precisam enfrentar tudo sozinhas. “Sofrimento emocional merece cuidado, não julgamento. Regular o sono e a alimentação e garantir momentos mínimos de autocuidado não é luxo, mas parte do tratamento. Se surgirem culpa excessiva, desesperança ou sensação de fracasso constante, esses sinais merecem atenção clínica. O isolamento pode piorar casos de depressão e ansiedade. Cuidar da saúde mental da mãe é tratar também da saúde emocional da família inteira.”

A Pra. Marilza Lima com o marido, o Pr. Ednilson Lima, e os filhos (Vinícius e Gabrielli) diz que a maior dor de uma mulher cristã é ver os filhos se afastarem dos caminhos do Senhor
Foto: Arquivo pessoal

Legado geracional – De acordo com a Pra. Marilza Lima, 57 anos, coordenadora do ministério Mulheres que Vencem (MQV) do estado do Rio de Janeiro, a maior dor de uma mulher cristã é ver os filhos se afastarem dos caminhos do Senhor. Segundo ela, muitas mães enfrentam essa realidade, mas, diante de decisões erradas dos filhos, é necessário confiá-los aos cuidados do Altíssimo e compreender que, na fase adulta, eles precisam aprender com os próprios erros e acertos. Embora reconheça ser um processo doloroso, a líder destaca a importância de manter a paz no coração, tal como ensina o apóstolo Paulo: E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus(Fp 4.7).

Casada com o Pr. Ednilson Lima, 57, líder regional da Igreja da Graça em Bangu, na zona oeste carioca, e mãe do jornalista Vinícius, 34, e da diretora de produção Gabrielli, 31, a pastora enfatiza que é preciso cuidar da vida espiritual na maternidade e incentivar o apoio mútuo entre mulheres na igreja, especialmente em momentos difíceis. Aproveitando a oportunidade da entrevista à nossa reportagem, ela manda um recado às mães: “Creia que o Senhor está cuidando de você. Confie nEle e dependa dEle. Saiba que Deus não está alheio às suas dores e batalhas. Tenha a Palavra como sua estratégia e declare as bênçãos sobre a vida de seus filhos!”.

A Pra. Eliane Clarindo diz que conciliar a rotina espiritual, profissional e materna é, de fato, desafiador diante da velocidade do cotidiano, mas reforça que é fundamental permanecer firme nos princípios bíblicos
Foto: Arte de Gemini AI sobre foto de arquivo pessoal – modificada por IA

Para a Pra. Eliane Clarindo, 45 anos, líder da IIGD na Comunidade Nova Almeida, na cidade de Serra (ES), conciliar a rotina espiritual, profissional e materna é, de fato, desafiador diante da velocidade do cotidiano. Ela relata que a Bíblia é seu principal alicerce, a base que a ajudou a criar o filho, que é participante ativo das atividades da pastora e do ministério da Igreja. “O que tem sustentado a minha vida em momentos de cansaço é ler sempre a Palavra de Deus, manter uma rotina de oração e entoar louvores diariamente. Isso tem renovado a minha fé”, afirma.

Foto: Jadon Bester – peopleimages / Adobe Stock

Na opinião da ministra, a pressão que existe na sociedade – inclusive na igreja –, a qual exige perfeição das mães, pode gerar desequilíbrios na dinâmica familiar e, em alguns casos, até uma inversão de papéis na relação com os filhos. Segundo Eliane, nos dias atuais, ensinar valores cristãos pode fazer as mães serem vistas como “antiquadas”. Entretanto, ela reforça ser fundamental permanecer firme nos princípios bíblicos. “Entendemos que não daremos conta de tudo, e está tudo bem. Deus deu a cada mulher os talentos segundo a sua capacidade. O importante é fazer todas as coisas com o coração fito nEle, buscando agradar ao Criador e seguindo o que Paulo ensinou aos Colossenses: E, tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como ao Senhor e não aos homens(Cl 3.23)”, observa a líder, acrescentando que, para trilhar esse caminho de maneira equilibrada, as mães cristãs devem manter a fé, buscar apoio coletivo e reconhecer que a imperfeição faz parte dessa jornada.

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