
Líderes evangélicos ressaltam a importância de honrar os impostos ao apontar o exemplo de Jesus, que cumpriu as exigências legais de Sua época
12/06/2026
Por Victor Rodrigues
A música gospel brasileira apresenta ampla diversidade: abrange desde o estilo congregacional até gêneros como rock, pagode, rap, funk e forró. Mas, de vez em quando, algumas canções causam estranhamento, como foi o caso de Auê – a fé ganhou, do Coletivo Candiero, que dividiu opiniões e provocou acalorados debates. Isso porque o grupo nordestino, criado em 2019, rompeu com padrões tradicionais da música cristã ao inserir ritmos como ciranda, samba e sonoridades nordestinas, além de letras pouco comuns no meio evangélico. Auê – uma representação da parábola da grande ceia, narrada por Jesus em Lucas 14.15-24 – foi escrita a partir do contato missionário do grupo com povos originários brasileiros, os quais usam a expressão auê com o significado de festa. Nas redes sociais, a discussão em torno da canção levantou vários questionamentos de diferentes segmentos da Igreja Evangélica sobre os limites da arte cristã.

Foto: Arquivo Graça / Solmar Garcia – modificada por IA
Para analisar a repercussão daquela discussão e avaliar a música evangélica brasileira à luz das Escrituras Sagradas, a reportagem de Graça/Show da Fé buscou opiniões de especialistas e pastores. Entre eles, o cantor Fernandes Lima, de vasta trajetória no meio gospel e intérprete de sucessos como Foi pro beleléu, O remédio é Jesus, Cadê minha Rosinha? e Esse Deus é tremendo, todos lançados pela Graça Music. Um dos pioneiros no Brasil a combinar música nordestina, forró e adoração, ele acredita que a música cristã deve incentivar a fé, uma vida pautada na Palavra e a salvação em Cristo. De acordo com o artista, textos bíblicos como o Salmo 150 remetem ao louvor a Deus com uso de diferentes instrumentos – trombetas, harpas e flautas –, sugerindo, dessa forma, elementos rítmicos e musicais. “No contexto congregacional, tudo deve ser analisado. A partir do momento que algo contraria a Santa Escritura, cria-se mais afastamento do que interesse pelo Evangelho”, opina Fernandes Lima, alertando para o perigo das heresias camufladas de mensagem musical. “Música é arte, e a grande diferença está na motivação do indivíduo e na mensagem que ele deseja transmitir”, afirma o cantor, deixando claro que os compositores precisam estar abertos à inspiração do Espírito Santo e devem sempre preservar a mensagem cristocêntrica.

O Pr. Renato Marinoni, especialista em louvor e adoração pelo Centro de Treinamento Ministerial do Diante do Trono e pelo Integrity Worship Institute, pontua que a inclusão de novos estilos no cenário gospel é gradual e atravessa algumas fases: resistência, tolerância e assimilação. Ele esclarece que, no caso brasileiro, há forte herança no gosto cultural dos missionários europeus e norte-americanos, o que moldou a estética congregacional por anos. “Surge um problema quando a contextualização musical suaviza o escândalo da cruz, relativiza o pecado ou substitui a centralidade de Cristo por experiências meramente emocionais ou identitárias”, avalia Marinoni, que é mestre em Teologia Sistemática.
Segundo ele, existe o risco de se confundir tradição cultural com ortodoxia. “Nem tudo o que é antigo, por si só, reflete com mais fidelidade o Evangelho. Da mesma forma, nem toda novidade implica distorção ou perda da essência da Palavra. Para saber discernir, é necessário haver teologia sólida, liderança madura e abertura para possíveis correções”, ensina Renato, acrescentando que a repercussão nacional em torno de Auê está mais próxima de uma visão teológica sobre cultura do que um debate musical. “Para alguns, abraçar elementos culturais brasileiros representa maturidade e contextualização. Para outros, soa como concessão perigosa”, observa ele, argumentando, entretanto, que, se bem fundamentada teologicamente, a essência nacional fortalece a identidade evangélica, tornando-a menos dependente de importações culturais e mais enraizada na realidade do povo. “O desafio é unir fidelidade bíblica e brasilidade com responsabilidade, beleza e verdade”, afirma o pastor.

Foto: Arquivo pessoal
Para o Prof. Joêzer Mendonça, doutor em Música pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e docente da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), a definição de música cristã está relacionada a dois contextos de criação: aquela que é composta para o canto cristão e utilização nos cultos ou aquelas escritas para atividades religiosas cristãs. O estudioso lembra, por exemplo, que, no século 19, os cristãos norte-americanos lançaram mão de estilos populares para louvar a Deus. Porém, ele ressalta que, no Brasil, toda mudança estética do repertório gospel sempre foi recebida com resistência a estilos estrangeiros, como o rock e o reggae, e a estilos brasileiros, como o pagode e o forró. “Mas o sertanejo, presente na música pentecostal das décadas de 1960 e 1970, encontrou menor resistência”, recorda-se Mendonça, sublinhando que a influência de repertório estrangeiro ao longo das décadas foi tão grande a ponto de consolidar a percepção equivocada de que ritmos da cultura brasileira não se alinhariam à proposta cristã.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Sonoridade criativa – No entendimento do músico Lucas Augusto, os modelos musicais internacionais podem influenciar arranjos, estrutura de composição e dinâmica congregacional, mas o fundamento do que é cantado deve estar alinhado à Palavra de Deus. “O mercado gospel brasileiro, historicamente, tende a se inclinar para tendências já consolidadas”, admite. No entanto, em sua visão, existe uma nova geração que busca integrar identidade cultural à musicalidade gospel. “A brasilidade não precisa competir com a estética global. Pode trazer autenticidade e novas possibilidades criativas”, enfatiza o vocalista do grupo One Service, fundamentado no gênero musical norte-americano worship, caracterizado por uma adoração intimista, envolta por uma estrutura musical pop rock simples e letras bíblicas. “Quando interpretado por brasileiros, o worship ganha uma nova identidade. O nosso idioma, a nossa forma de frasear, a intensidade emocional e a maneira como conduzimos a adoração transformam essa referência em algo próprio”, argumenta Lucas, para quem a discordância em torno da música Auê prova que “ainda estamos aprendendo a dialogar sobre cultura, linguagem e expressão artística dentro da igreja”.

Foto: Divulgação / Agência Romani

Na opinião do produtor musical e arranjador Lucas Dias, há uma crescente demanda por músicas gospel conectadas à identidade cultural do país. Segundo ele, um dos principais indicativos disso é a expansão do streaming e das redes sociais, que reúnem um público jovem em busca de uma fé expressa em linguagem, ritmos e estética mais próximos da realidade nacional. “O cenário atual aponta justamente para uma convivência que dialoga com o mundo sem deixar de soar brasileiro”, sublinha o especialista, deixando claro que há uma mudança no perfil do consumidor de música gospel de hoje: mais jovem, digital e aberto à diversidade musical. “O público deseja receber conteúdo espiritual, mas espera que a música o conecte à sua realidade”, afirma Lucas, admitindo que canções como Auê podem influenciar as tendências da música evangélica do Brasil nos próximos anos. “Essas discussões costumam abrir espaço para inovação porque sinalizam o interesse por novas sonoridades e identidades brasileiras dentro do gospel”, atesta Dias, membro da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) no Méier, zona norte do Rio de Janeiro (RJ). “Esse debate é um processo natural de amadurecimento do mercado. A produção musical tende para o equilíbrio entre identidade cultural, excelência sonora e clareza espiritual.”

Foto: Arquivo pessoal
Já o Pr. Ramon Torres, líder da Igreja Batista Memorial no bairro Parque Piauí, em Timon (PI), frisa que os elementos da cultura brasileira presentes na música gospel contemporânea são resultado de um processo natural somado ao crescimento acelerado da Igreja Evangélica no país. Mas ele concorda que a influência estrangeira se refletiu na musicalidade brasileira. “Temos movimentos musicais que quebraram barreiras em termos de brasilidade, mas eles nunca se estenderam a todas as igrejas”, comenta ele, criador e moderador da página Música Cristã no Brasil no Instagram. “O grupo Vencedores por Cristo [pioneiro na produção musical cristã no país] teve um papel importante no meio mais tradicional. Já o forró, que é basicamente o estilo dos ‘corinhos de fogo’ pentecostais, revela um universo diferente dentro do país”, exemplifica o ministro.

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Para o Pr. Judiclay Santos, mestre em Teologia e titular da Igreja Batista do Jardim Botânico (IBJB), na zona sul do Rio de Janeiro (RJ), a música cristã, especialmente quando destinada ao canto congregacional, possui uma dimensão formativa: ensina, reforça convicções e molda a fé da comunidade. “O equilíbrio, portanto, não está em restringir a criatividade, mas em fundamentá-la. Quanto mais sólida for a teologia do compositor, mais segura e saudável será a sua liberdade artística”, explica. Indagado sobre a discussão em torno da música Auê, ele asseverou que é fundamental tomar cuidado com a contextualização musical. “Auê foi lançada dentro de um contexto cultural e religioso concreto. Nele, certos termos, imagens e estéticas possuem significados, historicamente associados a práticas religiosas específicas”, analisa Santos, chamando a atenção para um sério problema: quando a comunicação não é totalmente clara, corre-se o risco de enfraquecer a centralidade da mensagem ou abrir espaço para interpretações sincréticas. “Ainda que os autores garantam que a música não foi composta para uso no culto público, isso não elimina a responsabilidade teológica”, observa o pastor batista, enfatizando que compositores cristãos não são inspirados conforme os autores bíblicos. “Suas obras são falíveis e, portanto, devem ser avaliadas à luz das Escrituras. A liberdade criativa é real, mas não autônoma: está subordinada à Verdade revelada, a Palavra de Deus”, conclui.



