Especialistas analisam limites entre identidade cultural e fidelidade bíblica no gospel brasileiro

13/06/2026

Especialistas analisam limites entre identidade cultural e fidelidade bíblica no gospel brasileiro

13/06/2026

Atletas cristãos revelam como a comunhão com Deus alinhada à disciplina espiritual proporciona equilíbrio mental e emocional

Foto: Arte sobre fotos de KatrinaQQ / Gerada com IA / Adobe Stock e Divulgação / SBB

Por Flávia Fernandes

Pesquisas na área da Psicologia do Esporte apontam que a dimensão espiritual pode exercer um papel decisivo no desempenho de atletas de alto nível. Mais do que uma prática pessoal, a fé é frequentemente utilizada como recurso mental que contribui para melhoria de resultados, fortalecimento da resistência emocional e manutenção do equilíbrio psicológico em ambientes altamente competitivos. Para muitos esportistas, a disciplina espiritual atua como uma estratégia de enfrentamento, conhecida como coping, diante de situações de pressão intensa. [Do editor: coping é um mecanismo de enfrentamento ou esforço para regular o estado emocional durante eventos estressantes]

A atleta Ana Cláudia Borges Campos, na época da passagem da tocha dos Jogos Olímpicos 2016, disputados no Rio de Janeiro
Foto: Divulgação / Rio2016 / Andre Mourao

Esses estudos mostram que, em momentos de ansiedade pré-competição, por exemplo, práticas como oração e leitura bíblica ajudam a desacelerar a mente, aumentando a concentração durante uma prova ou partida. Os pesquisadores indicam ainda que o chamado enfrentamento religioso positivo tem impacto significativo na forma como atletas lidam com adversidades. Segundo esses estudiosos, ao recorrer à fé em busca de sentido, força e conforto, muitos conseguem atravessar períodos críticos — como lesões, derrotas ou quedas de rendimento — com maior estabilidade emocional. Além disso, essa conexão espiritual contribui para preservar o equilíbrio interno, que é um aspecto essencial para quem submete o corpo e a mente a níveis extremos de exigência. De acordo com os profissionais que estudam a área esportiva, ao oferecer um senso de propósito e suporte emocional, a fé pode funcionar como um fator de proteção contra o esgotamento físico e mental e, assim, ajudar a prevenir quadros como fadiga crônica e burnout [distúrbio emocional crônico resultante de estresse no trabalho não gerenciado].

Hoje com 50 anos, Ana Cláudia Borges Campos, atleta master de remo olímpico, teve uma carreira marcada por títulos brasileiros, sul-americanos e mundiais na categoria de remadores com idade a partir de 27 anos. Professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), ela começa cedo a treinar: às 5h. “São até duas horas e meia na água. Depois, faço meu devocional e sigo para o trabalho”, relata, admitindo que a maturidade lhe trouxe novos desafios. “Competir com atletas mais jovens exige adaptação constante, já que o corpo responde de maneira diferente. Então, requer maior preparo físico”, pondera Ana Cláudia, frisando que a fé no Senhor não elimina o esforço, mas redefine o sentido da caminhada. “Há dias em que a dor é intensa, e a comparação com o desempenho anterior tenta me desanimar. Nesses momentos, lembro que minha identidade não está no cronômetro, mas em Cristo”, testemunha, ressaltando que aprendeu a celebrar processos, não apenas resultados. “Treinar já é uma vitória. Estar ativa, saudável e com propósito é resposta de oração”, acredita a atleta master, que congrega na Assembleia de Deus Bethel no bairro Santa Lúcia, em Vitória (ES).

Foto: Valeo5 / Gerada com IA / Adobe Stock

Ana Cláudia também enfrentou barreiras raciais e sociais no remo, um esporte tradicionalmente caro e elitizado. No início, percebeu os olhares preconceituosos, mas, por meio de sua fé, venceu aqueles obstáculos. “Já naquela época, eu tinha convicção do meu valor em Deus”, observa ela, acrescentando que a garagem dos barcos se tornou espaço de testemunho, inclusive com momentos de oração antes das competições. “Algumas colegas se aproximaram da fé ao verem que eu competia com seriedade e gratidão, independentemente do resultado”, comenta a atleta, assinalando que cada prova já é motivo de agradecimento. “Vencendo ou perdendo, glorifico o Criador”, sublinha a remadora, que compara o ritmo das remadas à caminhada espiritual. “A fé me ensina constância. Remar exige cadência, disciplina e resistência, e a vida cristã também é assim”, frisa ela, citando Calebe, que, aos 85 anos, após décadas de espera fiel, declarou manter a mesma força que tinha aos 40 anos em Gilgal, quando recebeu a promessa de ganhar Hebrom (Js 14.6-14). “Ele não abriu mão da herança, permaneceu confiante e foi honrado. Esse exemplo me move”, atesta.

O ex-jogador de futsal Vagner Caetano Pereira assegura: “Entendi que o futebol era uma ponte para algo maior. Antes das partidas, sempre deixava uma palavra sobre coragem e confiança em Deus”
Foto: Arquivo pessoal

O ex-jogador de futsal Vagner Caetano Pereira, hoje com 45 anos, competiu em alto nível e deixou saudade. Ele teve passagens por clubes, como os russos Dynamo Moskva (2006-2016), Smolensk e KPRF Moskva, além de times brasileiros, como Carlos Barbosa e São Paulo. Vagner, que defendeu a Seleção Russa de Futsal durante oito anos, afirma que sua conversão, ocorrida em 2006, marcou uma mudança decisiva em sua trajetória internacional. “Entendi que o futebol era uma ponte para algo maior. Antes das partidas, sempre deixava uma palavra sobre coragem e confiança em Deus”, assegura o ex-jogador, conhecido como Pula, que jogou pela Rússia na Copa do Mundo de Futsal de 2008, disputada no Brasil.

Segundo ele, manter-se firme no Evangelho morando longe do território brasileiro exigiu, de fato, muita convicção. “Foi a fé que me sustentou nos momentos de maior pressão, especialmente em finais e decisões contratuais”, recorda-se o ex-atleta, reconhecendo que, à época, o medo de errar era constante. No entanto, afirma que encontrava, em suas orações, as respostas do Altíssimo. Fora das quadras desde 2022, Vagner, que é membro da Igreja Batista Atitude Alphaville, em Barueri (SP), agora percorre comunidades cristãs e escolas compartilhando sua experiência de vida. “As pessoas observam nosso comportamento antes de ouvir o que falamos”, lembra-se ele, acrescentando que guardar coerência entre discurso e prática é essencial. “Sempre busquei viver o que prego. O futsal me deu visibilidade, e a fé, direção.”

Rener Alves, idealizador dos Jogos Evangélicos do Rio Grande do Norte (JOERN), maior evento esportivo cristão do Nordeste, esclarece que as competições funcionam também como espaços de comunhão e observa: “A rivalidade termina no apito final; depois dele, permanece a unidade”
Foto: Arquivo pessoal

Constante superação – Idealizador dos Jogos Evangélicos do Rio Grande do Norte (JOERN), maior evento esportivo cristão do Nordeste, Rener Alves esclarece que as competições funcionam também como espaços de comunhão. “A rivalidade termina no apito final; depois dele, permanece a unidade”, observa. Ele revela ainda que o diferencial do JOERN está na atmosfera: “Atletas oram juntos antes das partidas. Já vimos adversários ajudando quem se lesionou, mesmo em jogo decisivo”, lembra-se Alves, referindo-se ao evento, que reúne mais de mil atletas de diferentes denominações que competem em cinco modalidades: futebol society (fut 7), vôlei de praia 4 x 4 (misto), futsal, basquete 3 x 3 e judô kids (para crianças). “Manter um encontro desse porte, com seus desafios logísticos e financeiros, exige parcerias, voluntariado e planejamento”, expõe ele, membro da Igreja O Brasil para Cristo em Jardim Planalto, na cidade de Arujá (SP).

Preleção antes de disputa de jogo de futebol society no JOERN
Foto: Divulgação
Apresentação de jogadores de vôlei de praia 4 x 4 misto no JOERN
Foto: Divulgação

Apesar das dificuldades, Rener enxerga o projeto como um chamado. “Não é apenas competição, mas discipulado coletivo”, enfatiza Rener, mencionando que muitos jovens encontram, no esporte, o ambiente seguro para desenvolver dons e fortalecer valores. “Quando alguém perde e reage com equilíbrio está pregando, do mesmo modo aquele que, ao vencer, mantém a humildade. Assim, o esporte amplia a visibilidade da fé vivida de maneira coerente, e o espaço de competição se transforma em púlpito quando as atitudes dos atletas refletem o Evangelho”, analisa.

O Pr. Natanael Avelino da Silva sustenta que a fé vem antes de qualquer preparação física, ou da rotina competitiva: “Não começo o dia na quadra, mas no secreto com o Senhor, em oração. Se tenho disciplina para treinar, preciso ser disciplinado também para buscar a Deus”
Foto: Reprodução / Instagram

O Pr. Natanael Avelino da Silva, 38 anos, atual campeão de vôlei de praia dos JOERN, faz coro com Rener e sustenta que a fé vem antes de qualquer preparação física, ou da rotina competitiva. “Não começo o dia na quadra, mas no secreto com o Senhor, em oração. Se tenho disciplina para treinar, preciso ser disciplinado também para buscar a Deus”, ressalta o ministro, que é tenente-coronel do Corpo de Bombeiros. Para ele, a base do seu rendimento está na vida devocional. “A organização espiritual evita decisões impulsivas”, opina Natanael, autor do devocional Eu li na Bíblia. Em sua opinião, o crente em Jesus não precisa provar nada para as pessoas. Mas, ao falar com a reportagem de Graça/Show da Fé, aproveitou a oportunidade para enviar um recado aos jovens atletas. “A vitória não compensa uma vida desajustada. O caráter precisa acompanhar o talento. O maior campeonato é o espiritual, porque troféus ficam na estante. No entanto, a fé define a eternidade”, ensina, com base em sua própria experiência de vida no esporte.

Foto: PROMA / Adobe Stock

Além de ter sido submetido a algumas cirurgias, Natanael recebeu um diagnóstico de burnout que quase comprometeu sua vida familiar e ministerial devido ao profundo esgotamento. “Fiz terapia, usei medicação e intensifiquei a atividade física. Minha esposa foi instrumento de Deus na minha restauração”, conta ele, pastor da Igreja Batista Filadélfia em Lagoa Seca, na cidade de Natal (RN). “Na época, eu acreditava que devia ser capaz de resolver tudo. O corpo reagiu, e Deus me ensinou que descansar também é obediência”, confidencia o ministro batista, que retornou às quadras de areia gradualmente, com acompanhamento médico e espiritual. “Cada treino passou a ser vivido com gratidão. Não era mais sobre performance, mas sobre equilíbrio”, relata, pontuando que o esporte é importante na manutenção da sua saúde emocional e mental. “A prática regular me dá clareza, reduz minha ansiedade e fortalece a minha disciplina.”

O sensei Moacyr Ramos da Hora Junior, que começou a praticar artes marciais ainda criança, quando teve de enfrentar a morte de sua mãe, recorda-se: “Meu pai assumiu todas as responsabilidades em casa, e as artes marciais se tornaram meu alicerce, minha referência emocional”
Foto: Arquivo pessoal

Inspirado pelo filme Karatê kid (1984), que conta a história de um jovem lutador que deseja aprender caratê e, para isso, convence um experiente mestre a lhe dar aulas, o sensei Moacyr Ramos da Hora Junior, 48 anos, começou a praticar artes marciais ainda criança, quando teve de enfrentar um momento extremamente doloroso: a morte de sua mãe, quando ele tinha apenas dez anos. Segundo Moacyr, o esporte foi decisivo para lidar com aquela tristeza. “Meu pai assumiu todas as responsabilidades em casa, e as artes marciais se tornaram meu alicerce, minha referência emocional”, recorda-se, admitindo, porém, que sua trajetória de vida só foi transformada quando ele se converteu a Cristo, 12 anos após a perda materna. “Estava completamente apaixonado por Jesus e precisava retribuir o que havia recebido”, relata Junior, que é pastor da Assembleia de Deus Bethel, em Santa Lúcia, Vitória (ES), atuante no departamento de missões da denominação e fundador do projeto social Ubabalo Fight, no bairro da Penha, região em vulnerabilidade social da capital capixaba.

Foto: Microgen / Adobe Stock

Moacyr Junior explica que Ubabalo significa Graça de Deus em isiXhosa – língua bantu da África Meridional que vem a ser o segundo idioma oficial mais falado na África do Sul, só ficando atrás do Zulu, e um dos idiomas oficiais do Zimbábue. De acordo com ele, a iniciativa combina ensino de artes marciais e de princípios bíblicos com o intuito de promover tanto o desenvolvimento esportivo quanto a formação espiritual. “Muitos jovens chegam ao projeto com condutas agressivas, desconfianças e marcas de conflitos familiares. O tatame se torna um espaço de restauração. A disciplina não é imposta: vem do exemplo. Cair é inevitável, mas levantar-se é uma escolha”, explica o sensei, o qual informa que seu programa ultrapassou fronteiras: já teve treinamentos de atletas no Japão e serve de apoio à missão da igreja na Indonésia. “Lá, o jiu-jítsu é utilizado como ponte de relacionamento com crianças muçulmanas. Ou seja, o esporte chega a lugares onde, muitas vezes, o discurso religioso não alcança”, conclui.


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