
Atletas cristãos revelam como a comunhão com Deus alinhada à disciplina espiritual proporciona equilíbrio mental e emocional
14/06/2026
Por Victor Rodrigues
Mais de 388 milhões de cristãos, em todo o mundo, enfrentam níveis elevados de perseguição por causa da fé em Jesus, segundo a Lista Mundial da Perseguição (LMP) 2026, divulgada pela Missão Portas Abertas. O levantamento da agência missionária, que compila dados de liberdade religiosa de mais de 70 países, indica que esse é o maior contingente populacional de perseguidos já registrado desde 1993, quando começou o monitoramento global. Na última listagem de Portas Abertas, a Coreia do Norte aparece como a nação mais difícil para um cristão viver, seguida de Somália, Iêmen, Sudão, Eritreia, Síria, Nigéria, Paquistão, Líbia e Irã.

Foto: Divulgação / Missão Portas Abertas
No entanto, assim como a LMP, o relatório do Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Estados Unidos aponta a Nigéria – localizada na África Subsaariana [parte do continente africano situada ao sul do Deserto do Saara, sendo constituída por 48 nações] – como o país com o maior índice de assassinatos de seguidores de Cristo. Dos 4.849 mortos por sua fé em Jesus, entre 1º de outubro de 2024 e 30 de setembro de 2025, data de fechamento da apuração da organização missionária, a Nigéria concentrou mais de 70% (3.490 pessoas) dos homicídios. Os ataques na Nigéria, segundo fontes locais, são atribuídos a grupos extremistas islâmicos e milícias armadas que atuam em diversas regiões daquela nação da África Ocidental, a qual passa por uma de suas piores crises socioeconômicas e de segurança em décadas.
Hostilidade sistemática – Especialistas afirmam que, diante da escalada de casos de violência contra cristãos em todas as regiões do planeta, cresce a necessidade de adoção de medidas internacionais contra esses crimes. Para Marco Cruz, secretário-geral da Missão Portas Abertas Brasil e América Latina, o aumento da perseguição em todo o mundo é resultado de uma combinação de fatores geopolíticos e religiosos. Ele esclarece que a perseguição aos cristãos se manifesta de maneiras distintas, como na Coreia do Norte, na Eritreia e no Irã, que reprimem práticas contrárias à ideologia governamental oficial. Já na Nigéria, há disputas por terras e acessos a recursos naturais, polarização religiosa entre o Norte muçulmano e o Sul cristão e a fragilidade estatal nigeriana associada à corrupção. “Milícias Fulani e o Boko Haram promovem ataques sistemáticos contra comunidades inteiras, resultando em milhares de mortes, sem contar as dimensões políticas e econômicas dos massacres”, explica.

Foto: Arte de Gemini AI sobre foto de Divulgação
De modo geral, avalia Marco Cruz, grupos extremistas da África, como Al-Shabaab e células ligadas ao Estado Islâmico, aproveitam a debilidade institucional de diversos países para expandir e impor sua ideologia, sem mencionar que conflitos étnicos – muitas vezes, associados à identidade religiosa – intensificam rivalidades históricas e ampliam a violência. “Além disso, a instabilidade política em algumas nações, como Sudão, Mali e Burkina Faso, cria ambientes propícios para hostilidade, enquanto a radicalização ideológica transforma a fé cristã em alvo de criminalização e de hostilidade sistemática”, acrescenta o secretário-geral de Portas Abertas, para quem a Igreja Evangélica brasileira pode (e deve) exercer papel fundamental nesse cenário global. “Espiritualmente, é possível mobilizar comunidades em oração e conscientizar sobre a realidade dos cristãos perseguidos e, financeiramente, contribuir para projetos que oferecem ajuda emergencial”, sugere.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Na opinião do Pr. Luiz Renato Maia, presidente da Missão em Apoio à Igreja Sofredora (MAIS), a violência contra comunidades cristãs é histórica nas regiões fechadas ao Evangelho e, biblicamente, profética. Mas ele enfatiza que, no caso da Nigéria, a crise é profunda e estrutural, pois lá milhares de cristãos são mortos em ataques perpetrados por milícias fortemente armadas e por grupos terroristas jihadistas. “A raiz do problema é a junção de fatores que incluem identidade étnica e vínculos políticos”, elucida Maia, sublinhando que, em território nigeriano, a religião não está condicionada apenas à fé pessoal, pois engloba um contexto mais abrangente. “Quando uma milícia ataca um vilarejo cristão, pode haver motivação econômica ou territorial. Entretanto, o discurso de cunho religioso legitima a intolerância e a falta de responsabilização dos governantes, o que gera um ciclo contínuo de violência”, observa o pastor, que chama atenção para a postura da Igreja brasileira diante de tal realidade. “Falta mais interesse em ajudar do que informações disponíveis. Na era globalizada, as notícias chegam quase em tempo real, e isso deveria despertar maior engajamento e solidariedade”, avalia o pastor, indicando qual deveria ser a atitude das comunidades cristãs brasileiras. “Nosso objetivo deve ser não apenas apoiar financeiramente nossos irmãos, mas também os ajudar a continuar exercendo seu ministério como Igreja.”

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Ao ser indagado por nossa redação sobre o tema, o pesquisador Igor Sabino, doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), argumentou que o cenário da África merece ser olhado com bastante cuidado por se tratar de um continente complexo, marcado por múltiplas causas que contribuem para a ocorrência de conflitos violentos. “O caso da Nigéria é o mais alarmante por ser o país onde mais cristãos foram mortos nos últimos anos. Somente em 2025, milhares morreram”, observa, acrescentando que o grupo radical islâmico Boko Haram – contrário ao atual governante nigeriano, o presidente islamita Bola Tinubu – deseja transformar a nação em uma teocracia islâmica. “Ao mesmo tempo, há também disputas territoriais menores entre pastores de rebanhos muçulmanos e moradores cristãos, e alguns atores locais se aproveitam das tensões religiosas já existentes para obter ganhos materiais”, atesta Igor.

Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA
Chamado à missão – Em meio às perseguições, há milhares de missionários lutando para levar a Palavra de Deus. É o que faz o Pr. Clarismundo Oliveira, envolvido em projetos missionários na África Subsaariana há 16 anos. Enviado pela Igreja Batista Filadélfia, na Consolação, Vitória (ES), em parceria com a Missão Antioquia, ele passou 12 anos em Moçambique, organizando igrejas, treinando líderes e liderando um ministério esportivo como estratégia evangelística. Segundo Oliveira, a perseguição religiosa em solo moçambicano está em ascensão, especialmente na província de Cabo Delgado, onde grupos terroristas têm promovido ataques a vilas. “No Norte de Moçambique, os irmãos precisaram fugir das zonas de conflito para a cidade de Pemba, mas continuam firmes na fé, mesmo em meio à violência e às provações”, relata o ministro batista, que administra, há quatro anos, uma escola para 361 crianças na cidade de Kitwe, na Zâmbia, país africano situado ao Sul do continente, com o objetivo de unir o Evangelho à educação.

Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA
Por sua vez, a empresária e missionária Penha Arraz, que vive no Quênia, país do Leste da África, revela que os principais desafios vivenciados pelos cristãos na região envolvem intolerância religiosa, pressões sociais e ameaças à liberdade de fé. De acordo com ela, entre o povo Turkana [comunidade nômade, criadora de gado, camelo, cabra e ovelha, que habita o Noroeste queniano], mulheres e crianças cristãs enfrentam mais vulnerabilidades ligadas a fatores sociais do que devido à perseguição e violência religiosa. “Por exemplo, as mulheres vivem em uma realidade marcada por forte tradição cultural, casamento precoce, restrição à educação e grande responsabilidade doméstica”, pontua Penha, destacando que as crianças sofrem de insegurança alimentar e falta de acesso à educação. Assim, segundo ela, seu trabalho missionário inclui, além da proclamação do Evangelho, suporte humanitário oferecido pelo projeto Amor sem Fronteiras. Elaborada, coordenada e mantida por Penha, essa iniciativa já formou 70 mulheres em cursos profissionalizantes desde 2021 e teve participação ativa na abertura de seis poços de água na região. “Se um enfrenta dor, alcança todos. Mas, quando um se fortalece, esse vigor também se espalha entre todos”, comenta a missionária, membro da Assembleia de Deus Nova Vida, em Itapoã, em Vila Velha (ES).

Na visão do Pr. Idelvan Anunciação, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) no Centro de Corumbá (MS), o Brasil desfruta de uma conjuntura distinta, marcada pela liberdade de manifestação religiosa, algo que deve motivar os cristãos brasileiros a estar atentos ao que acontece além de suas fronteiras. Para ele, esses cristãos precisam se informar sobre o assunto, interceder pelos cristãos perseguidos e dar visibilidade a essa causa. “Na primeira carta aos Coríntios [1 Coríntios 12.26], o apóstolo Paulo ensina que há uma responsabilidade mútua entre os membros do Corpo: se um sofre, todos sofrem com ele; se um é honrado, todos se alegram. Esse princípio se estende a toda a Igreja de Cristo ao redor do mundo”, prega.

Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA
Da mesma forma, o Pr. Daniel Miranda, líder da Igreja da Graça em Raimundo Melo, na cidade de Rio Branco (AC), reconhece que o Brasil oferece condições favoráveis para a vivência da fé e prega que essa liberdade religiosa não deve gerar acomodação, mas compromisso de fé com aqueles que enfrentam oposição em outras partes do mundo, por meio da oração e de suporte financeiro às missões. “A proclamação do Evangelho sempre enfrentou resistência. Desde os tempos dos apóstolos, muitos foram presos ou mortos de maneira brutal, em uma tentativa das autoridades de silenciar a Igreja”, frisa Miranda, lembrando, no entanto, que a mensagem de Cristo permanece inabalável, conforme prometido pelo próprio Senhor Jesus em Mateus 24.35: O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar. “Culturas e ideologias mudam, mas a Palavra de Deus continua, e nenhuma perseguição é capaz de detê-la”, conclui Miranda.



