Cérebro de grávida
12/04/2026
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Fenômeno emergente: Nos últimos anos, Cuba vivencia o crescimento do Evangelho apesar da perseguição religiosa do regime governamental

Foto: IA sobre imagem do Facebook da Liga Evangélica de Cuba

Por Marcelo Santos

Atualmente, o crescimento dos evangélicos na República de Cuba é um dos fenômenos sociais mais marcantes dessa ilha caribenha, localizada na América Central, de 11 milhões de habitantes. Embora o governo de Havana não divulgue, desde 1953, quaisquer estatísticas referentes a cultos religiosos, diferentes estudos têm ajudado a traçar um retrato atual. Levantamentos do Conselho de Igrejas de Cuba, relatórios de organizações cristãs internacionais e reportagens de veículos de comunicação, como World (EUA) e Evangelical Focus (Espanha), são unânimes ao apontar a mesma tendência: o país caribenho teria hoje algo entre 800 mil e 1 milhão de crentes – número que indicaria aumento de 11 a 14 vezes em relação aos anos de 1990, quando os evangélicos totalizavam 70 mil pessoas.

Esse crescimento numérico vem sendo acompanhado pela imprensa internacional. A BBC News Brasil, por exemplo, postou na web, em meados de 2025, a reportagem Como Cuba, que já foi país ‘ateu’, agora vê crescimento de evangélicos, do jornalista Vinícius Pereira. A matéria revela o avanço de igrejas domésticas e de grupos pentecostais em bairros populares nos últimos cinco anos. Depois da pandemia, a crise levou muito mais pessoas a se aproximarem da fé e das igrejas, afirmou o entrevistado Eliecer Portal, teólogo batista que trabalha como guia turístico no interior do país. O meio acadêmico de Cuba também reconhece essa mudança religiosa. O estudo Evangélicos cubanos: una poderosa fuerza social en el primer cuarto del siglo XXI (Evangélicos cubanos: uma poderosa força social no primeiro quarto do século 21), publicado na plataforma de pensadores cubanos Memoria Cívica, descreve os crentes como uma das forças da sociedade mais ativas da Cuba contemporânea, presentes em cidades, povoados e zonas rurais, com grande poder de mobilização e influência. Segundo diversos especialistas, a ascensão das igrejas evangélicas cubanas não é resultado apenas da influência dos cristãos estrangeiros, particularmente dos Estados Unidos, mas deve-se também à liberdade de comunicação gerada pelas redes sociais.

Restrições e vigilância – Vários observadores lembram que, no passado, a sociedade cubana não era assim tão estranha à religiosidade. Colonizada por espanhóis, Cuba tem vasta herança católica romana, com milhares de igrejas e praças com nomes de santos espalhadas pelas cidades. Religiões de matriz africana, levadas pelos escravizados, também estão presentes no país há séculos. Após a Revolução de 1959, liderada por Fidel Castro (1926-2016), Ernesto Che Guevara (1928-1967) e Camilo Cienfuegos (1932-1959), a ilha se aproximou do modelo socialista da antiga União Soviética e se tornou um Estado ateu. A religião foi marginalizada, e muitos servos do Senhor enfrentaram discriminação no Ensino Superior e no mercado de trabalho. Igrejas continuaram atuantes, mas com recursos limitados e espaços reduzidos. Ainda no tempo da Guerra Fria (1947-1991), quando as tensões geopolíticas entre o Ocidente, sob liderança dos EUA, e o bloco soviético ameaçavam destruir o mundo pelo poder das bombas nucleares, era promulgada a Constituição de 1976, a qual previa que o país seria um Estado laico, sem religião predominante e oficial, e fundamentado na concepção materialista científica do Universo.

O secretário-geral da Portas Abertas Brasil, Marco Cruz, diz que há relatos de crentes que perderam empregos ou benefícios sociais governamentais por assumirem a fé cristã
Foto: Divulgação / Missão Portas Abertas

No papel, a nova Carta Magna, aprovada em 2019, alterou esse entendimento. Em seu artigo 15, o regime de Havana reconhece, respeita e garante a liberdade religiosa, reforça que o Estado é laico e reafirma sua separação das instituições religiosas e das associações fraternais, que possuem iguais direitos e deveres. No entanto, apesar dessa garantia constitucional, Cuba aparece em 24º lugar na edição de 2026 da Lista Mundial da Perseguição (LMP), elaborada pela Missão Portas Abertas, agência missionária que elenca os 50 países mais perigosos para os seguidores de Jesus viverem. No ano anterior, a nação ocupava a 22ª posição. De acordo com a organização, que monitora a situação da Igreja Perseguida, aqueles que se manifestam contra o regime cubano – incluindo líderes e ativistas cristãos – podem ser presos, difamados ou assediados moralmente, além de sofrer, em alguns casos, violência física ou restrições ao direito de ir e vir. Segundo a Portas Abertas, a fim de conter a influência da Igreja, as autoridades cubanas negam o registro de novos locais de culto, forçando muitos crentes a se reunirem em casas, de maneira “ilegal” (conforme a ótica daquele governo), aumentando o risco de atos de intolerância. A instituição relata ainda que as atividades das congregações de fé – especialmente as que beneficiam comunidades locais – são vigiadas e vistas como ameaças aos interesses do Estado, e os sermões pregados são frequentemente monitorados. 

Foto: Kmiragaya / Adobe Stock

Mesmo em meio ao atual cenário caótico do país, com apagões que duram até 20 horas, escassez de alimentos, migração em massa e a maior crise econômica das últimas três décadas, a Igreja resiste em Cuba. Pesquisadores revelam que boa parte desse crescimento ocorre fora dos templos tradicionais: em casas, porões, quintais e salas improvisadas, onde fé e solidariedade andam juntas. Há anos acompanhando esse panorama, o secretário-geral da Portas Abertas Brasil e diretor de desenvolvimento da organização na América Latina, Marco Cruz, pontua que, apesar de todas as pressões do regime cubano, o cristianismo avança com força. “Pastores e líderes continuam alcançando pessoas que não podem se reunir livremente”, observa ele, acrescentando que muitas igrejas domésticas “quando descobertas, têm os cultos interrompidos e os líderes levados para interrogatório. Há lugares em que os próprios vizinhos denunciam”.

A diretora jurídica da CSW, Anna Lee Stangl, afirmou: A negação sistemática da liberdade de religião ou crença nas prisões de Cuba ocorre em um contexto mais amplo de graves violações de direitos humanos e profunda crise econômica
Foto: Arquivo pessoal

Cruz diz também que há relatos de crentes que perderam empregos ou benefícios sociais governamentais por assumirem a fé cristã. Existe ainda o controle estatal sobre quem compra Bíblias. “Ao adquirir um exemplar da Escritura, é preciso preencher um cadastro e, depois disso, não é raro a pessoa receber visita de autoridades”, compartilha o secretário, assinalando que a Missão Portas Abertas atua em Cuba distribuindo o Livro Santo, fazendo treinamento bíblico e dando apoio a famílias pastorais e a projetos de subsistência na nação.

Intimidação estatal – O Observatório Cubano de Direitos Humanos, organização não governamental sediada em Madri (Espanha), denunciou recentemente que houve mais de 870 violações da liberdade religiosa na ilha caribenha no ano passado. Diferentes instituições e organismos internacionais têm alertado para essa realidade, como é o caso da Christian Solidarity Worldwide (CSW), organização britânica com sede em Surrey, região metropolitana de Londres. Dedicada à defesa da liberdade de religião ou de crença, ela divulgou, em meados de 2025, o relatório No Respite: The Systematic Suppression of Freedom of Religion or Belief in Cuba (Sem Trégua: A Supressão Sistemática da Liberdade de Religião ou Crença em Cuba, em tradução livre), no qual registra 624 ataques à liberdade religiosa e 1.898 violações de direitos somente em 2024, incluindo vigilância sobre igrejas, aplicação de multas, interrupção de cultos e pressão direta sobre pastores. Um líder cristão, mesmo tendo sido ameaçado pelas autoridades cubanas, afirmou à CSW: Continuarei servindo a Deus, e a igreja continuará ajudando os mais necessitados. Um segundo colega de ministério, após sofrer intimidação estatal, desabafou: Talvez nunca mais possamos abrir outra congregação.

A pastora batista Daylíns Rufín Pardo testemunha: “O Espírito Santo tem Seus caminhos, e eu sou fruto da ação dEle”
Foto: Marcelo Santos

Outro levantamento da CSW, divulgado em outubro de 2025, mostra que a repressão ao evangelismo em Cuba também se estende ao sistema prisional. O documento, elaborado com base em entrevistas com 181 detentos, aponta que os presos são impedidos de receber visitas religiosas, manter uma Bíblia na cela e, em alguns casos, de orar individualmente. A organização frisa que, desse modo, o regime de Havana viola as Regras de Mandela, um conjunto de normas da Organização das Nações Unidas (ONU) que determina padrões mínimos para o tratamento de pessoas privadas de liberdade, como o respeito à prática religiosa, à dignidade e à integridade física e moral. Ao comentar o teor dos depoimentos concedidos pelos detentos, a diretora jurídica da CSW, Anna Lee Stangl, afirmou: A negação sistemática da liberdade de religião ou crença nas prisões de Cuba ocorre em um contexto mais amplo de graves violações de direitos humanos e profunda crise econômica. Ela enfatiza que a instituição segue apelando à comunidade internacional para que ocorra a libertação dos presos políticos em Cuba e, ao mesmo tempo, permanece lutando pelo cumprimento das Regras de Mandela e por reformas que ponham fim à escalada de violações naquele país insular.

Clima ideológico – A pastora batista, biblista, professora de Teologia e referência cubana em debates sobre fé, justiça social e gênero Daylíns Rufín Pardo, 51 anos, atendeu à reportagem de Graça/Show da Fé durante um seminário internacional realizado em setembro no Rio de Janeiro (RJ). Nascida em 1975, no auge da consolidação do Estado cubano, ela se recorda que, em sua casa, os valores da Revolução Cubana, como igualdade, trabalho, educação e justiça social, funcionavam quase como uma “catequese laica”. “O imaginário revolucionário da época estava tão concentrado nos valores da Revolução que meus pais não sentiam falta de uma Bíblia”, lembra-se Daylíns. Apenas na fase adulta, ela percebeu que havia crescido como “a menina sem Bíblia”. O pai, profundamente envolvido com o processo revolucionário, e a mãe, entusiasmada com as conquistas sociais, nunca a impediram de entrar em igrejas. Contudo, a pastora afirma que a fé cristã ainda era vista com desconfiança, sobretudo nos ambientes de formação intelectual.

O Ap. Dainer Ley resume: “Em Cuba, o pastor sabe que vai passar necessidade”
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

Daylíns relembra que, nos anos de 1980, as pessoas eram questionadas se tinham crença religiosa. “Se dissessem que sim, ouviam como resposta: então é melhor não ter.” De acordo com ela, não existia uma lei que proibisse os estudantes cristãos de se expressarem, mas, por outro lado, havia um clima ideológico que considerava a fé um obstáculo ao “pensamento crítico”. Apesar dos contratempos e desafios, ela garante que sua história na fé não se deu apenas a portas fechadas: o Seminário Evangélico de Teologia de Matanzas, onde hoje leciona, atravessou décadas de mudanças políticas e continuou formando pastores e pastoras. Ao ser questionada se seria uma “filha” da Revolução que se tornou ministra evangélica, a resposta é objetiva: “O Espírito Santo tem Seus caminhos, e eu sou fruto da ação dEle”, diz ela, ordenada ao ministério pastoral pela Fraternidad de Iglesias Bautistas de Cuba (FIBAC).

Também natural de Cuba, o Ap. Dainer Ley, 30 anos, começou no ministério ainda adolescente, quando liderava um grupo de louvor que viajava pela ilha. Segundo ele, o que era para ser apenas música virou campanha de oração. “Eu achava que não conseguiria viver sem a música, mas Deus me mostrou que, sem ela eu posso; sem Ele, não”, testemunha Dainer, que, mesmo relutante ao pastorado, acabou consagrado como ministro da Palavra e assumiu a liderança de uma igreja no interior. Ele relata que, com a esposa, a Pra. Anna Ley, 30, viveu momentos de dificuldades: dormia com a filha pequena em um colchão inflável, sofria com as picadas de formigas, a falta de energia elétrica e a escassez de alimento. “Em Cuba, o pastor sabe que vai passar necessidade”, resume Dainer.

Foto: Facebook de Liga Evangélica de Cuba

Depois de anos servindo sob vigilância e pressão governamental, o casal orou e recebeu a direção de Deus para deixar o país. A jornada, no entanto, foi longa: eles passaram pela Guiana, por Boa Vista (RR) e Manaus (AM) até chegar ao interior de São Paulo, sempre dependendo de portas que se abriam de última hora por meio da intervenção divina. “A Palavra é o norte, a direção, e nós escolhemos obedecer ao Senhor”, expõe o pregador, o qual, ao lado da mulher, pastoreia a Sobrenatural Church, fundada em 2023 no bairro Central Parque, em Botucatu (SP), distante 235 km da capital paulista, e atende a brasileiros e imigrantes que estão em busca de esperança e recomeço.


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