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03/04/2025
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Missionário compartilha sua experiência no Amazonas e sugere como a Igreja pode se aliar às pautas ambientais

Foto: Arquivo pessoal

Por Marcelo Santos

Natural do Amazonas, o missionário e jornalista Phelipe Marques Reis, 36 anos, nasceu em Nhamundá (AM), município do interior do estado. Em suas memórias de infância, ainda estão nítidas as imagens de uma realidade rara para a maioria dos brasileiros que vive nas grandes cidades: crianças tomando banho nos rios, brincando nas ruas e subindo nas árvores. Com apenas seis anos, já morando na cidade vizinha, Parintins, ele testemunhou sua família se envolver ativamente nas festividades folclóricas locais, como o Festival Folclórico de Parintins, que celebra a tradição do boi-bumbá, influenciada pela cultura indígena.

Foi na adolescência que, convertido ao Evangelho, passou a frequentar a Primeira Igreja Batista (PIB) em Parintins, quando desenvolveu uma visão crítica sobre os festejos culturais. Naquele momento, teve início a sua jornada missionária. “Com o tempo, Deus me direcionou para a missão com povos indígenas e ribeirinhos na Amazônia”, revela Phelipe, casado com Luíze, 32 anos, e pai de Elis, 9, e Joaquim, 6 anos.

Na região, ele organiza seminários que fornecem suporte teórico e prático a líderes cristãos, oferecendo conhecimento para que vençam desafios geográficos e logísticos. Formado em Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), Phelipe é assessor do movimento global Renovar Nosso Mundo, que visa mobilizar as igrejas evangélicas em questões socioambientais.

Nesta entrevista à Graça/Show da Fé, Phelipe Marques Reis fala de seu trabalho com a população ribeirinha e enfatiza a importância da Igreja nas pautas ambientais.

Quais são os principais desafios enfrentados pela missão na região amazônica, especialmente em comunidades ribeirinhas?

Limitações geográficas, viagens longas e custosas. Para apoiar os líderes, criamos um seminário nas próprias igrejas que oferecem formação contínua, com aulas teóricas e práticas sobre evangelismo e liderança. Isso é essencial, pois muitas comunidades não têm acesso fácil a seminários fora de suas localidades. Nosso objetivo é prover tanto o suporte acadêmico quanto o material didático para que os líderes possam fortalecer suas igrejas e comunidades, expandindo a presença do Evangelho na região. Apesar das dificuldades, o trabalho é gratificante. Sabemos que Deus realizará além do que podemos imaginar.

Como o movimento global Renovar Nosso Mundo atua na região amazônica?

O Renovar Nosso Mundo está no Brasil desde 2007 e busca sensibilizar e engajar as igrejas evangélicas para questões socioambientais, promovendo ações em defesa da criação e da justiça climática. Em Parintins, em parceria com outras entidades, limpamos a orla do rio Amazonas, com a colaboração da comunidade local. Essa iniciativa foi importante porque, pela primeira vez, os evangélicos se envolveram ativamente na questão socioambiental da cidade, gerando um testemunho significativo para a sociedade. Estamos convencidos de que o cuidado com a criação é uma responsabilidade da Igreja e que, por meio de nossas atividades, podemos promover mudanças sociais positivas, especialmente diante das ameaças ambientais que a região enfrenta atualmente.

Como a campanha Jesus Água da Vida tem impactado as comunidades locais durante o Festival de Parintins?

Desde 1999, participamos da campanha promovida pela PIB Parintins. Aproveitamos a presença de turistas para levar o Evangelho de Cristo às ruas de modo criativo, com dança, teatro e distribuição de garrafinhas com água. É a oportunidade de abordar as pessoas de modo amoroso, sem confronto, compartilhando uma mensagem de esperança e, ao mesmo tempo, oferecendo uma ajuda prática. Nos últimos anos, temos contado com o auxílio de ribeirinhos e indígenas treinados para atuarem na iniciativa, e a proposta tem gerado relatos de indivíduos que, em suas viagens de volta para casa, encontraram o folheto que distribuímos e foram impactadas positivamente pela mensagem de Jesus. É uma grande alegria ver como a Palavra de Deus proporciona verdadeira felicidade e sacia a sede espiritual das pessoas.

Como a PIB Parintins busca amenizar as dificuldades das comunidades ribeirinhas durante os períodos de seca severa?

Essa situação tem sido um dos maiores problemas vivenciados pela população ribeirinha da Amazônia. Embora as enchentes e a vazante dos rios [processo de descida do nível das águas] sejam naturais na região, o impacto das mudanças climáticas tem intensificado a estiagem, deixando muitas pessoas sem acesso à água potável. Em 2023, a igreja desempenhou um papel fundamental ao perfurar poços artesianos e enviar cestas básicas para os atingidos. Também treinamos as comunidades, ensinando-as a suportar esses períodos críticos, orientando a respeito da estocagem de alimentos e mostrando como adotar tecnologias para filtragem da água. Nosso objetivo é oferecer não apenas uma resposta emergencial, mas também capacitar essas comunidades a fim de serem menos vulneráveis e mais autossuficientes diante das adversidades climáticas.

Como a participação em congressos internacionais, como Lausanne, influenciou sua perspectiva sobre a missão da Igreja em contextos desafiadores?

Fazer parte do Movimento de Lausanne, desde 2007, ampliou minha visão sobre a missão da Igreja. A partir dos encontros, como o de 2024 na Coreia do Sul, aprendi a ver o Evangelho de modo holístico, considerando não apenas a dimensão espiritual, mas também os desafios sociais, econômicos e ambientais enfrentados pelas pessoas. O movimento me ajudou a entender que a missão da Igreja precisa estar alinhada com as realidades contemporâneas, como as mudanças climáticas e as desigualdades sociais. Trabalhar na Amazônia sem levar em consideração esses cenários, por exemplo, seria um erro. A missão deve ser contextualizada, e o Evangelho tem a resposta para todos os aspectos da vida humana.

Qual orientação você daria para os jovens que desejam se envolver em missões, especialmente em áreas remotas da Amazônia?

Recomendo que se informem sobre os desafios contemporâneos da região. A Amazônia não é mais a mesma há décadas, e é essencial entender as questões sociais, ambientais e políticas atuais. O Evangelho deve ser apresentado de forma contextualizada, considerando as realidades de urbanização, mudanças climáticas e os dilemas das pessoas. Além disso, é importante buscar formação teológica, sociológica e antropológica para oferecer respostas adequadas às demandas da localidade.

Phelipe Marques Reis
Missionário e jornalista

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