AMOR QUE TRANSFORMA

17/07/2026

AMOR QUE TRANSFORMA

17/07/2026

Pastores e especialistas afirmam: a hiperconectividade afeta a vida espiritual e a saúde mental das famílias

Foto: CHA / Gerada com IA / Adobe Stock

Por Leiliane Lopes

Publicado em parceria com a Meltwater, plataforma internacional de inteligência de mídia e consumo, e a We Are Social, agência global especializada em mídias sociais e marketing de influência, o relatório Digital 2026 Brazil aponta que 86,9% da população brasileira (algo em torno de 185 milhões de usuários) utilizam redes sociais. Outro levantamento, este da Consumer Pulse, da consultoria de gestão estratégica Bain & Company, revelou que, em 2025, os brasileiros passaram, em média, 9 horas e 13 minutos por dia navegando na internet. O excesso de tempo em frente às telas cria o que os estudiosos chamam de “presença ausente”, quando pais e filhos dividem o mesmo espaço físico, mas habitam universos digitais distintos, comprometendo a convivência doméstica.

A pesquisadora Laura Marciano, da Universidade de Harvard, em Massachusetts (EUA), investigou a relação entre tecnologia e solidão em adolescentes
Foto: Divulgação / www.laura-marciano.com

Essa desconexão no seio familiar é corroborada pela pesquisadora Laura Marciano, da Universidade de Harvard, em Massachusetts (EUA), que investigou, em 2024, a relação entre tecnologia e solidão em adolescentes. O estudo mostrou que esses jovens passam mais tempo sozinhos, têm menos amizades e se sentem mais desconectados socialmente de suas comunidades do que há 20 anos. Segundo os especialistas, o paradoxo é claro: as pessoas nunca estiveram tão conectadas e, ao mesmo tempo, tão sós e distantes do convívio pessoal.

A estudante Allyce Kalem Lima Bezerra testemunha: “Por intermédio de Deus, entendi a necessidade de priorizar momentos de intimidade espiritual, prática que tem trazido benefícios para a minha rotina e para o meu
bem-estar”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Para vencer essas barreiras, há quem indique a prática da dieta digital. É o caso da estudante evangélica Allyce Kalem Lima Bezerra, 22 anos, aluna do curso de Psicologia. Ela garante que optar por um “descanso de tela” ajudou no combate à ansiedade e freou suas comparações entre vida real e virtual. “Eu percebia que estava ficando com o humor irritadiço e impaciente”, relata, acrescentando que, atualmente, não acessa mais o celular logo ao acordar, a fim de garantir que sua primeira conversa do dia seja com o Criador. Ao optar pela privação de telas, Allyce ficou longe das redes sociais por dois meses. “Por intermédio de Deus, entendi a necessidade de priorizar momentos de intimidade espiritual, prática que tem trazido benefícios para a minha rotina e para o meu bem-estar”, testemunha a moça, que congrega na sede estadual da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em São Luís, no Maranhão (MA).

A técnica de farmácia Leide Laura Pereira da Silva concluiu que precisava ficar menos tempo diante das telas ao perceber que essa prática afetava sua concentração nos momentos a sós com Deus
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Já a técnica de farmácia Leide Laura Pereira da Silva, 33 anos, concluiu que precisava ficar menos tempo diante das telas ao perceber que essa prática afetava sua concentração nos momentos a sós com Deus. “Observei que sentia uma necessidade constante de consumir conteúdos e que minha mente estava sempre agitada. Então, decidi fazer uma pausa digital de sete dias, deixando o celular principal de lado”, descreve Leide, relatando que, durante esse processo, redescobriu o valor da presença do Senhor na quietude. Ao mesmo tempo, aprendeu a controlar os minutos gastos no universo virtual e, assim, reduziu a dependência digital. “Não é só força de vontade. É necessário criar meios práticos para manter o equilíbrio e agir com propósito e foco”, argumenta ela, membro da Igreja da Graça em Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo (SP).

O Pr. Eduardo Alexandre dos Santos adverte: “Muitas pessoas desenvolveram uma dependência tão grande dos dispositivos eletrônicos que sentem dificuldade em viver desconectadas”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Danos à fé – Na opinião do Pr. Eduardo Alexandre dos Santos, líder da IIGD no bairro Coronel Antonino, em Campo Grande (MS), a hiperconectividade, agravada pela pandemia de covid-19 (2020-2022), tornou-se uma espécie de “vírus comportamental”. “Muitas pessoas desenvolveram uma dependência tão grande dos dispositivos eletrônicos que sentem dificuldade em viver desconectadas”, adverte o ministro, que tem 25 anos de experiência pastoral. Segundo ele, o excesso de informação produz transtornos, como ansiedade e medo, além de uma insatisfação crônica alimentada por comparações desmedidas. “Jesus declarou que o coração acompanha aquilo que ocupa o lugar mais precioso na vida de alguém”, diz ele, referindo-se a Mateus 6.21 (Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração). “A abstinência das telas é necessária para quem já não consegue dominar o próprio impulso de estar on-line”, aconselha.

O Pr. Joel Rocha diz que a hiperconectividade é uma arma de distração que impede a concentração necessária para o culto a Deus
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

O pastor lembra que a tranquilidade nos cultos e na vida particular foi substituída por um ritmo frenético de conectividade, no qual as pessoas buscam informações, mas perdem a clareza da voz divina. “Muitas vezes, as telas ocupam o lugar do Senhor. Precisamos nos desconectar do barulho e nos conectar com a verdadeira luz, que é a Palavra”, observa ele, alertando que o fenômeno da fragmentação da atenção é uma estratégia silenciosa para minar o verdadeiro Evangelho. Por outro lado, assevera que o uso das mídias sociais, quando feito com sabedoria, a exemplo do trabalho pioneiro
do Missionário R. R. Soares, é uma ferramenta poderosa de comunicação das Boas-Novas.

O Pr. Cássio da Silva de Oliveira relata: “Oriento as pessoas a optar pelo afastamento das redes como uma renúncia aos excessos, de maneira a combater a idolatria da tecnologia”
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

De acordo com o Pr. Joel Rocha, da Igreja Batista dos Povos em Arthur Alvim, zona leste de São Paulo (SP), a hiperconectividade é uma arma de distração que impede a concentração necessária para o culto a Deus. “A dispersão provoca distanciamento na fé por não permitir que o crente compreenda o que é sagrado”, opina o ministro batista, acrescentando o fato de a sociedade atual “viver em um oceano de conhecimento com um palmo de profundidade”. Por essa razão, o líder defende que o afastamento do ambiente digital é uma sábia decisão. “Não chamaria essa atitude de jejum, mas de um propósito de purificação e mudança de hábitos”, define Joel, o qual compara as redes sociais ao dinheiro: “Excelentes se forem servas, mas péssimas se passarem a dominar você”.

A jornalista Elisandra Amâncio Ferreira lembra que o ambiente digital é estruturado para despertar emoções negativas e manter a atenção do usuário
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

Questionado sobre o tema, o Pr. Cássio da Silva de Oliveira, auxiliar na Igreja da Graça na região da QNP, em Ceilândia (DF), reforça a tese de que a tecnologia tem formado crentes “frios e incrédulos”. Ele faz coro com os colegas de ministério pastoral ao defender o controle do tempo dedicado às plataformas virtuais. “As pessoas vivem on-line para a mídia digital, mas off-line para o Céu”, pontua, referindo-se a quem está sempre conectado à internet e desconectado de Deus. “Oriento as pessoas a optar pelo afastamento das redes como uma renúncia aos excessos, de maneira a combater a idolatria da tecnologia”, relata o ministro, assinalando que o servo de Deus precisa desfrutar de momentos de sossego, os quais servem para organizar a vida espiritual. “Nesses períodos, o crente volta a escutar a voz do Altíssimo, que, apesar de continuar falando ao cristão, não é ouvido devido à agitação das coisas seculares”, prega.

Foto: Valua Vitaly / Adobe Stock

Sabedoria e equilíbrio – Segundo a jornalista Elisandra Amâncio Ferreira, especialista em mídias sociais, o ambiente digital é estruturado para despertar emoções negativas e manter a atenção do usuário por meio do Fear Of Missing Out (FOMO, sigla em inglês para medo de estar perdendo algo). Esse fenômeno psicológico provoca no indivíduo a necessidade de se atualizar constantemente por temer ficar de fora de eventos ou desconhecer informações importantes, gerando ansiedade. “O algoritmo responde ao comportamento humano: se você consome fofocas e notícias extremistas, é isso que ele entregará”, explica a profissional. Para ela, o cristão tem a responsabilidade de selecionar o conteúdo a ser consumido e filtrar os influenciadores que segue, sabendo que essa exposição repetida de vidas aparentemente perfeitas cria uma régua distorcida. “A pessoa passa a se comparar com as vitrines alheias”, observa. [Do editor: O algoritmo é uma sequência lógica de instruções claras e detalhadas projetada para resolver um problema ou realizar uma tarefa específica. Nas redes sociais, serve para analisar o histórico de curtidas, o tempo de tela e as interações do usário para decidir quais conteúdos, vídeos ou anúncios aparecerão no feed (página inicial do perfil)].

Elisandra defende que todo internauta deve adotar o “detox digital”, o que significa reorganizar prioridades na web, fazer pausas de duas semanas (duas vezes por ano) nas redes sociais e tentar permanecer 24 horas off-line semanalmente. Nesse sentido, como reeducação digital, a especialista recomenda que os cristãos desativem as notificações, evitem o uso do celular nos primeiros 30 minutos após acordar, deixem de acompanhar perfis capazes de suscitar ansiedade ou comparações com a própria realidade e estabeleçam momentos livres de telas, especialmente durante as refeições e no quarto. Para suprir o tempo disponível, ela sugere a participação em atividades manuais e encontros presenciais. “A pergunta que deve guiar o crente é: ‘Minha presença nas redes está contribuindo com algo que vale a pena?’ Ter propósito muda a forma de utilizar a tecnologia”, resume a membro da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte (MG).

Foto: BillionPhotos / Adobe Stock

De acordo com a psicopedagoga Marlyce Cele Oliveira, o cérebro exposto a estímulos rápidos, como vídeos curtos, fica viciado em recompensas imediatas de dopamina [neurotransmissor essencial produzido no cérebro, frequentemente associado à sensação de prazer e motivação]. “A leitura e o estudo da Bíblia requerem silêncio e profundidade de reflexão”, explica a especialista, acrescentando que a mente condicionada ao meio digital passa a rejeitar aquilo que não oferece gratificação instantânea. Por essa razão, segundo ela, tenha surgido o chamado TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade) de tela, uma disfunção neurocomportamental caracterizada por desatenção, impulsividade e dificuldade de concentração gerada pela alta estimulação digital. “Isso as faz perderem a capacidade de meditar e refletir criticamente sobre o que leem”, observa, referindo-se às pessoas que passam muito tempo diante dos dispositivos móveis.

No ponto de vista de Marlyce, o uso desenfreado de telas tem mascarado diagnósticos e antecipado dificuldades de autorregulação emocional. Durante a pandemia, por exemplo, o aumento do tempo de exposição digital coincidiu com um crescimento nos relatos de mau humor e atraso em habilidades socioemocionais básicas. “O cérebro passa a funcionar em um padrão de alta estimulação, o que torna o esforço mental da oração algo ‘pesado’ para muitos”, exemplifica ela, que é membro da Igreja Projeto Vida Nova Tenda do Leão, em Campo Grande, zona oeste do Rio de Janeiro (RJ).

A psicopedagoga Marlyce Cele Oliveira diz que o uso desenfreado de telas tem mascarado diagnósticos e antecipado dificuldades de autorregulação emocional
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

Para a profissional, a desintoxicação digital ajuda a família a restabelecer vínculos, resgatando a capacidade de valorizar o processo e a espera, aspectos essenciais para o amadurecimento do aprendizado acadêmico e do crescimento espiritual de cada integrante da casa. Ela argumenta também que o afastamento das telas pode restaurar a autoridade dos responsáveis e a conexão emocional no lar. “O limite sem presença não funciona. Os pais precisam modelar o comportamento, já que a criança observa se o adulto também consegue se desconectar”, sublinha a psicopedagoga.

Desse modo, garante Marlyce, é possível “atacar” os sinais de dependência das telas – irritabilidade e agressividade ao interromper o uso, isolamento, alteração do sono, queda no rendimento escolar ou profissional, incapacidade de ler textos longos ou orar por mais de alguns minutos e dificuldade de manter diálogos profundos sem checar o celular – e transformar o ambiente familiar. “A tecnologia não é o problema, mas ela não pode ocupar o lugar da formação emocional e espiritual. Nenhuma tela substitui o presencial”, opina a especialista, deixando claro que optar pela abstinência digital é, no fundo, trilhar um caminho de volta para o que realmente importa: a conexão com Deus e com o próximo.


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