Cinco mulheres da Bíblia que transformaram suas histórias

14/07/2026

Cinco mulheres da Bíblia que transformaram suas histórias

14/07/2026

Casais sem filhos enfrentam desafios ao redefinir o propósito do matrimônio e a própria identidade em Cristo

Foto: Kateryna / Gerada com IA / Adobe Stock

Por Nany de Castro

O Brasil registrou a menor taxa de fecundidade da História: 1,6 filho por mulher, segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre as evangélicas, esse índice é de 1,7 – o mais alto entre os grupos religiosos, mas ainda abaixo da taxa de reposição populacional de 2,1, o padrão internacional necessário para garantir que uma geração substitua a anterior sem que haja diminuição da população total. O IBGE informa também que a proporção de casais sem filhos quase dobrou em 22 anos, passando de 14,9%, registrados no Censo 2000, para 26,9% no levantamento de 2022. Do ponto de vista evangélico, essas informações não representam nada de positivo. Teólogos e pastores lembram que, de acordo com as Escrituras Sagradas, os filhos são herança do Senhor (Sl 127.3), símbolo de bênção divina e ocupam papel preponderante na Bíblia, especialmente nas passagens que citam personagens como Isaque, Esaú, Jacó, Samuel e João Batista, além, é claro, de Jesus.

A psicóloga Alessandra Magalhães frisa: “A comunidade cristã deve ser um espaço seguro que garanta ao indivíduo ser valorizado por quem ele é diante de Deus, e não pela sua configuração familiar – com ou sem filhos”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Entretanto, muitos cristãos não vivenciam a paternidade e a maternidade: alguns por infertilidade, outros por decisão pessoal. Estudiosos do assunto dizem que há casais que rejeitam a ideia de ter filhos por falta de preparo emocional, pois se sentem incapazes de vencer as próprias inseguranças e frustrações. Na opinião da psicóloga Alessandra Magalhães, especialista em Saúde Mental, o diálogo dentro de um relacionamento é tão essencial quanto o enfrentamento dos problemas ligados à impossibilidade de ter filhos. Ela admite, no entanto, que não é fácil para os cônjuges conversarem a respeito. “Comentários e cobranças sociais podem gerar dor emocional e culpa, provocando ansiedade e sensação de fracasso espiritual”, observa a estudiosa, asseverando que, à luz da Bíblia, o valor do casal não está condicionado à procriação.

Foto: Arte sobre foto de Erika / Gerada com IA / Adobe Stock

Membro da Igreja Presbiteriana de Brasília (DF), Alessandra aproveita para fazer um alerta que considera fundamental: a infertilidade pode desencadear crises existenciais e questionamentos sobre propósito e vontade divina. Por isso, segundo ela, o suporte emocional e o acompanhamento pastoral são muito importantes. “A pessoa precisa expressar a dor, elaborar o luto e reorganizar os significados da vida. É fundamental mostrar que o valor e o propósito da existência não estão limitadoS a uma circunstância específica”, atesta, referindo-se às perdas gestacionais. Na opinião da especialista, o alinhamento entre marido e mulher deve ser prioridade, porque, assim, decisões e processos podem ser conduzidos de maneira consciente e respeitosa.

Foto: MarufDesigner / Adobe Stock

Ao mesmo tempo, a psicóloga frisa que cabe à Igreja desempenhar um papel acolhedor na saúde emocional de seus membros. “A comunidade cristã deve ser um espaço seguro que garanta ao indivíduo ser valorizado por quem ele é diante de Deus, e não pela sua configuração familiar – com ou sem filhos.” Para Alessandra, a unidade conjugal é o pilar de sustentação do casamento. “O caminho terapêutico busca conduzir o casal à maturidade na tomada de decisão conjunta. Além disso, o relacionamento deve ter como base o amor, o respeito e o acordo”, diz ela, citando a passagem de Amós 3.3 (Andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?). “Mesmo na ausência de filhos, os cônjuges podem viver plenamente o propósito do matrimônio, que é o companheirismo e o crescimento espiritual”, define.

Histórias impactantes – A assistente executiva Patrícia Bertão, 53 anos, e o montador eletrônico Fernando Bertão, 46, membros da Igreja Batista em Vila Pompeia, na zona oeste de São Paulo (SP), optaram por não ter filhos. A decisão, no entanto, não foi imediata. Patrícia sonhava com a maternidade, mas tudo mudou quando foi diagnosticada com artrite reumatoide [doença inflamatória crônica autoimune que afeta as articulações, causando dor, inchaço, rigidez matinal e, se não tratada, destruição articular e deformidades]. Segundo ela, o impacto da notícia foi profundo, mas o Senhor entrou com Sua providência. “Fiquei muito abalada no início, mas pedi a Deus que tirasse a dor do meu coração, proporcionando-me paz. E foi o que aconteceu”, recorda-se.

A assistente executiva Patrícia Bertão, com o marido, o montador eletrônico Fernando Bertão, que optaram por não ter filhos com base em três fatores: saúde, idade e condição financeira
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

A partir desse processo de aceitação, o casal decidiu não ter filhos com base em três fatores: saúde, idade e condição financeira. “Uma gravidez tardia pode gerar complicações. Além disso, na época, eu estava desempregada, e o Fernando, com baixa remuneração, o que não seria suficiente para arcar com os custos de alimentação, saúde, educação e formação de uma criança”, relata Patrícia, deixando claro que não faltou oração e muita conversa. “Chegamos a um consenso, e o Senhor trouxe paz ao nosso coração. Nunca nos arrependemos”, garante. Segundo ela, a decisão foi recebida com estranhamento por muitas pessoas. A assistente executiva conta que, nos primeiros cinco anos de casamento, deparava-se frequentemente com perguntas invasivas sobre o assunto. “Quando respondíamos que optamos por não ter filhos, havia espanto e incredulidade. Indagavam: Mas como assim? Ter filhos é uma bênção! Vocês precisam conversar com Deus sobre isso!

Patrícia afirma que, após 15 anos de união, as cobranças diminuíram, mas, para ela e o esposo, nada mudou: eles se mantêm unidos, com o posicionamento firme e os limites bastante claros. “As pessoas se sentem no direito de cobrar, sem conhecer a realidade e a vontade de cada casal”, pondera ela, sublinhando que, desde o início, eles buscaram preservar um relacionamento saudável e pediram aos familiares e amigos que respeitassem aquela escolha.

O Pr. André Gava, ao lado da esposa, a concierge Elaine Gava, que, após receber o diagnóstico de infertilidade, precisaram vencer a dor e os inúmeros questionamentos
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Patrícia e Fernando não são os únicos a receberem questionamentos dessa ordem. Que o digam o Pr. André Gava, 56 anos, e sua esposa, a concierge Elaine Gava, 58, líderes da Comunidade Batista em Moema, na zona sul da capital paulista. Após receber o diagnóstico de infertilidade, o casal precisou vencer a dor e os inúmeros questionamentos. O ministro lembra que a aliança construída por eles e o Criador permaneceu intacta, e aquele problema não motivou acusações mútuas. “Nossa vida está amalgamada por Deus até o fim dos nossos dias, sejam eles felizes ou não”, acentua o líder.

Porém, mesmo com maturidade espiritual e sólida formação bíblica, marido e mulher admitem ter enfrentado dúvidas profundas ao longo daquele processo. “Lidamos com questionamentos do tipo: Por que nós? Deus está nos punindo? O Senhor nos rejeitou? Por que Ele não opera um milagre em nosso caso? Nossa fé é insuficiente?” Segundo André, as respostas para aquelas indagações, assim como a tristeza motivada pela impossibilidade de gerar filhos, foram postas nas mãos do Todo-Poderoso. “Com o tempo, entendemos que nossa identidade está no que somos em Cristo. Então, fomos curados do sofrimento e da decepção. Já as mentiras malignas que colocavam em xeque a bondade e o amor do Pai por nós foram vencidas e deixadas para trás”, celebra o pastor.

A Pra. Juliana Viana de Sousa Barbosa prega: “Seja por decisão do casal, seja por infertilidade, acredito que, buscando em Deus, eles encontrarão respostas para suas dificuldades”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

À luz da fé – Para a Pra. Juliana Viana de Sousa Barbosa, líder estadual da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Goiás, casais sem filhos devem ser vistos pelos demais cristãos como cônjuges unidos pelo Criador, ou seja, como quaisquer outros. Na opinião da ministra, o preconceito e os comentários maldosos relacionados ao tema devem ser combatidos com a pregação da Palavra. Ela lembra que, embora a procriação seja um dos propósitos do matrimônio, não há como fazer generalizações. “Seja por decisão do casal, seja por infertilidade, acredito que, buscando em Deus, eles encontrarão respostas para suas dificuldades”, prega a líder, acrescentando que, em seus aconselhamentos pastorais, procura diferenciar cada caso. “Respeito quem não quer ter filhos, apesar de não concordar. Quanto à infertilidade, pregamos a Escritura: temos o Deus do impossível, Aquele que faz com que a mulher estéril habite em família e seja alegre mãe de filhos”, afirma Barbosa, fazendo menção ao Salmo 113.9 e pontuando que testemunhou vários milagres envolvendo mães que não podiam engravidar, mas tiveram filhos após orações na igreja.

Indagada pela reportagem de Graça/Show da Fé sobre os impactos emocionais da infertilidade, a pastora pontua que há situações familiares diversas e, por isso, é necessário analisar cada caso. Ela se recorda, por exemplo, de que muitos casais questionam a bondade de Deus ou se sentem esquecidos por Ele. “Precisamos expor essas feridas à luz da Palavra para que haja restauração. O Pai é misericordioso e jamais abandona os que O buscam de todo o coração”, argumenta ela, assinalando que a abordagem é outra quando existem conflitos conjugais. “Nesse contexto, a mediação pastoral é essencial e deve ser fundamentada nos princípios cristãos.” Em relação aos casais que recorreram a tratamentos de fertilidade exaustivos e se frustraram, a ministra aconselha: “O melhor é buscar a direção do Senhor para entender qual é o melhor caminho a ser traçado”.

O Pr. Israel Fabrício Bomerich observa que não há respaldo bíblico ou teológico para que casais sem filhos sejam julgados dentro da igreja
Foto: Divulgação / IIGD de Florianópolis (SC) – modificada por IA

Na visão do Pr. Israel Fabrício Bomerich, líder estadual da Igreja da Graça em Santa Catarina, não há respaldo bíblico ou teológico para que casais sem filhos sejam julgados dentro da igreja. Para ele, a melhor forma de combater esse tipo de comportamento preconceituoso é por meio do ensino das Escrituras, especialmente do mandamento de Jesus registrado em Mateus 22.39: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. “Não se sabe o que acontece na vida a dois nem os motivos que impedem marido e mulher de ter filhos. Muitas vezes, quando a liderança toma conhecimento da situação, uma boa conversa pode ajudar bastante os cônjuges”, salienta Bomerich, o qual faz questão de dizer que é fundamental compreender por que alguns casais decidem não ser pais. “Pode haver medo, traumas ou até egoísmo. Nesses casos, precisamos orientá-los à luz do plano de Deus desde a criação, quando Ele disse: Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra (Gn 1.28).

Foto: WesLens / peopleimage / Adobe Stock

Ao comentar o que deveria ser feito nos casos de infertilidade, o ministro declarou que o casal que enfrenta essa luta precisa fortalecer a fé, mediante a leitura da Bíblia e a prática da oração, e buscar tratamentos visando à restauração da saúde. “É preciso que os cônjuges revigorem a confiança no Senhor, combatendo a incredulidade com a Palavra”, aconselha Israel Bomerich, acrescentando que é necessário olhar para os exemplos registrados no Livro Sagrado. Ele cita a passagem de Lucas 1.5-25, a qual descreve a história de Zacarias e Isabel, que foram pais de João Batista na velhice. “Eles buscaram muito por esse milagre, mas, mesmo enquanto esperavam nEle, continuaram servindo a Deus e vivendo com alegria”, observa o pastor, deixando uma mensagem àqueles que ainda não receberam essa bênção: “Creio que o Senhor completa a vida do casal de outras formas e concede a paz que excede todo entendimento, conforme escreveu o apóstolo Paulo aos Filipenses (Fp 4.7)”.


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