Fim das dores

16/06/2026

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16/06/2026

Pastor fala sobre os desafios na evangelização de árabes e muçulmanos no Brasil

Foto: Arte sobre foto de Arquivo pessoal

Por Victor Rodrigues

Dados referentes à população árabe (e seus descendentes) no Brasil apresentam diferenças significativas: segundo a Câmara de Comércio Árabe Brasileira, seriam quase 12 milhões (6% da população); para o Itamaraty, entre 7 e 10 milhões, considerando apenas libaneses e seus descendentes. Estima-se ainda que há, no país, em torno de 2 milhões de muçulmanos – um número inflado por causa de migrantes (refugiados) vindos de nações que, ao longo das últimas décadas, passaram por guerras, como Líbano, Líbia, Síria e Iraque.

É justamente nesse cenário que o Pr. Marcos Stier Calixto, 72 anos, tornou-se referência na evangelização desses povos. Autor do livro O cristão e o islamismo: perspectiva cristã (Editora AD Santos), ele tem se dedicado, há mais de três décadas, a falar do Evangelho e a testemunhar de Jesus a essas pessoas. Sua vocação, entretanto, não surgiu apenas de uma estratégia ministerial, mas de uma experiência pessoal marcante: a conversão de seu avô, um imigrante libanês. A partir desse episódio, Marcos Calixto se aproximou do mundo árabe, começou a atuar na Tríplice Fronteira Brasil-Paraguai-Argentina, onde há grande concentração de muçulmanos, e passou a capacitar missionários que trabalham no acolhimento de refugiados junto ao Centro de Apoio ao Estrangeiro no Brasil e no Exterior (CAEBE), em Curitiba (PR).

Ao longo de sua trajetória ministerial, Calixto entendeu que, para evangelizar muçulmanos, é necessário manter um diálogo paciente, somado a uma escuta atenta, para falar da fé cristã. “Certa vez, ao visitar um amigo muçulmano, encontrei-o muito abatido. Ele compartilhou sua ansiedade e tristeza. Disse que estava cumprindo fielmente o Ramadã e lendo o Alcorão. Em um momento, para a glória de Deus, ele levantou o rosto, olhou diretamente para mim e perguntou: ‘Como posso ter a paz que os teus olhos têm?’”, relata o pastor, que está escrevendo um novo livro, intitulado Uma chama chamada missões (Editora Jesus), que reúne experiências acumuladas ao longo de 48 anos de ministério. Nesta entrevista à Graça/Show da Fé, Calixto, recentemente jubilado na Igreja Batista de Uberaba, na capital paranaense, compartilha sua análise sobre o presente e o futuro da evangelização de muçulmanos e árabes no Brasil.

De que forma o senhor percebeu o chamado para a obra missionária?

A chamada missionária aconteceu depois de dez anos de ministério, quando eu era pastor da Igreja Batista do Cajuru, em Curitiba (PR). Já estava casado com Silvana Leoni Calixto e era pai de dois filhos pequenos, Davi, na época com dois anos, e Talita, seis meses. Enquanto escrevia meu planejamento para 1991 e definia que aquele seria o ano de missões na igreja, ouvi uma voz dizendo: “Aqui não é mais o seu lugar”. Estranhei, principalmente por estar sozinho. No domingo seguinte, durante a pregação, o missionário Samuel Mitt afirmou que Deus estava chamando uma pessoa para missões. A mesma voz, então, disse-me: “É você mesmo que estou chamando”. E, assim, começou minha labuta nessa área.

De que maneira compreendeu como se daria sua missão?

O fato de a descendência étnica estar presente na vida de uma pessoa não limita, necessariamente, o chamado de um missionário. No entanto, coincidiu, pois senti um amor tremendo pelos árabes e me voltei para meu avô, Ibrahim (Abrão), que, apesar da formação protestante, ainda não tinha certeza da salvação. Decidi jejuar até algo acontecer. Ele adoeceu e foi para a casa de sua filha, minha tia Salma. Mesmo tendo mais de 50 netos, ele chamou por mim. Ao entrar no quarto, meu avô me perguntou: “Neto, vou morrer, como faço para acertar minha vida com Deus?”. Após expor o plano da salvação, oramos, e ele entregou a sua vida a Cristo. Pouco depois, foi morar com Jesus. Essa experiência acendeu ainda mais a chama de amor missionário pelo povo árabe e muçulmano.

Por que é tão complexo evangelizar os muçulmanos?

Quando se trata de mundo muçulmano, a convicção islâmica está enraizada na identidade. Isso porque a religião é cultivada desde o nascimento. Assim, pensar em mudança expressa traição. Muitos aprendem a estar prontos a morrer por sua fé. Por isso, são necessários de cinco a sete anos para um muçulmano se abrir à realidade do ensino cristão.

Qual é a importância de entender a visão de mundo islâmica no contexto da evangelização?

Para dar base ao diálogo espiritual, é essencial compreender como os muçulmanos enxergam os fundamentos da fé cristã, evitando que a conversa se encerre antes mesmo de haver oportunidade de apresentar a mensagem do Evangelho. É preciso saber o que eles pensam de Deus, de Cristo, da salvação. Além disso, é necessário compartilhar as crenças bíblicas com respeito, sem negá-las, mas orando para que entendam a identidade cristã em Jesus.

Como a Igreja brasileira pode se preparar para evangelizar árabes e muçulmanos de modo bíblico, respeitoso e eficaz?

Criei o curso Capacitando Missionários para o Tempo do Fim (CMPTF), que éhíbrido (presencial e on-line). Nele, destaco que Deus ama todos os povos com base em textos bíblicos, como Isaías 60.7, que mostra que os árabes também adorarão o Senhor em Jerusalém, e Isaías 19.25, que fala da bênção sobre o Egito e a Assíria como obra de Deus. O povo árabe é acolhedor e aberto à conversa e gosta de história. No entanto, é importante ter paciência. É fundamental compartilhar o que Cristo tem realizado em nossa vida, para, dessa forma, gerar impacto e provocar reflexão.

Há alguma estratégia de evangelização que gostaria de compartilhar?

Pela graça de Deus, alcancei um árabe que hoje tem ganhado muçulmanos para Cristo em várias partes do mundo, em espanhol, em inglês e em árabe, sua língua nativa. Consegui evangelizá-lo, pregando em português, pois, para viver no país, ele teve de aprender o idioma. Esse é um dos grandes mistérios de Deus: a diáspora [dispersão de um povo do seu território] como estratégia capaz de atrair o mundo para Cristo.

Marcos Stier Calixto
Pastor batista e autor

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