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Por Leiliane Lopes
Nos dias 24, 25 e 26 de julho, o Mulheres que Vencem (MQV) promoveu um retiro nacional destinado às líderes do ministério feminino da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD). O encontro, realizado na Estância Árvore da Vida, em Sumaré (SP), reuniu representantes de diferentes regiões do Brasil, que participaram de uma programação marcada por ensino, comunhão e fortalecimento espiritual. Sob o tema Recomeçar, inspirado em Eclesiastes 9.8 (Em todo tempo sejam alvas as tuas vestes, e nunca falte o óleo sobre a tua cabeça), o evento enfatizou que a remissão oferecida por Cristo abre caminho para uma nova etapa na vida. As participantes puderam refletir sobre restauração, propósito, renovação e, ao mesmo tempo, “recarregar as baterias” para encarar desafios pessoais, emocionais e ministeriais. Voltada para mulheres que atuam no acolhimento, na orientação e no desenvolvimento da fé de outras pessoas, a programação especial destacou também a importância de as líderes serem cuidadas e encorajadas.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Para muitas mulheres, recomeçar é o caminho após períodos de perdas e de grandes mudanças. Um exemplo disso é a história da cabeleireira Maria Ilza Souza Lima Dias, 56 anos, obreira na sede estadual da Igreja da Graça no Tocantins. Em 2013, após 23 anos de casamento, ela enfrentou a perda do marido, em decorrência de um câncer, e precisou lidar com o luto, as dificuldades financeiras e a responsabilidade de cuidar das duas filhas adolescentes. “Ele era o meu porto seguro. De repente, fiquei sem chão, perdida.” Sem apoio financeiro e com pedidos de pensão negados por quatro vezes pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Maria Ilza encontrou na fé o caminho para reconstruir sua trajetória. “Estar na Igreja foi o pilar que me sustentou e me ensinou a perseverar na oração e na leitura das Escrituras”, relata, admitindo, entretanto, que temeu ver as filhas se perderem. “Mas Deus as guardou”, observa a cabeleireira, que, depois de anos de espera, obteve o benefício previdenciário na Justiça. Hoje, Maria Ilza testemunha que as filhas estão formadas e casadas. Além disso, ela vive um novo momento de vida ao lado do pedreiro Antônio Neto Ribeiro Furtado, 56, com quem se casou em 2019. “Não deixe a adversidade vencer. No momento certo, toda tempestade passará”, aconselha, citando a mensagem do Salmo 37.5: Entrega o teu caminho ao SENHOR; confia nele, e ele tudo fará.
Por sua vez, a aposentada Marta Branca, 64 anos, membro da IIGD no bairro Santo Antônio, em Cachoeiro de Itapemirim (ES), também precisou apagar marcas deixadas pelo passado. Depois de amargar três divórcios e passar por experiências dolorosas, ela fechou o coração para novos relacionamentos. “Durante mais de dez anos, disse que nunca mais me envolveria com ninguém, porque sofri muito na minha vida sentimental”, conta, relembrando que esse período de isolamento afetivo mudou quando passou a frequentar a Igreja da Graça e recebeu orientações de como lidar com as feridas abertas ao longo da sua jornada. Por meio das ministrações e do acompanhamento pastoral, Marta começou a compreender a necessidade de liberar o perdão e permitir que o Senhor restaurasse suas emoções. “Abri o meu coração para ouvir a voz do Todo-Poderoso e fiquei livre da mágoa.” A cura emocional lhe possibilitou recomeçar: ela conheceu o aposentado Elimário Gomes, 74 anos, e, após muita conversa, oração e orientação pastoral, os dois decidiram se casar em setembro deste ano. “Tudo o que começa sob a direção do Altíssimo dá certo”, diz Marta.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Uma nova história – À frente do Mulheres que Vencem na IIGD no Centro de Jaraguá do Sul (SC), Lucineide Emilce Glasenapp Macedo, 45 anos, afirma que não existem limites de idade ou circunstâncias capazes de impedir a construção de uma nova trajetória. “Conforme está escrito em Lamentações 3.22,23 (Graças ao grande amor do SENHOR é que não somos consumidos, pois as suas misericórdias são inesgotáveis. Renovam‑se cada manhã; grande é a sua fidelidade! – NVI),quando decidimos crer em Jesus, o passado fica para trás, e recebemos a oportunidade de viver uma vida nova”, atesta Lucineide, citando Raabe, personagem bíblica que teve o destino transformado a ponto de fazer parte da linhagem de Cristo (Mt 1.5). “O Todo-Poderoso é especialista em transformar vidas e mudar histórias.”

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Para a dirigente, esse princípio de recomeço orienta o trabalho desenvolvido pelo MQV, que busca oferecer instrução e suporte espiritual para mulheres que enfrentam diferentes desafios. “Procuramos receber todas com generosidade e carinho, sempre de maneira respeitosa, para que cada mulher se sinta acolhida e valorizada.” Ela enfatiza que, além de ensinar a Palavra, o ministério utiliza ferramentas de apoio, como intercessão e aconselhamento, a fim de ajudá-las a encontrar forças para seguir firmes em seu caminho de restauração.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
O Pr. Nelson Galdino Amaro, líder regional da Igreja da Graça em Bucarein, na cidade de Joinville (SC), destaca que quem enfrenta períodos de perda e precisa reconstruir a própria história deve entender que o Senhor trabalha em ciclos, e não em pontos finais. “Aquilo que, para o ser humano, parece encerrado significa recomeço para o Eterno”, compartilha o ministro, asseverando que o Criador – que nos diz que tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu (Ec 3.1) – é nossa Fonte constante de amparo e orientação. Citando a jornada de Noemi e Rute (Rt 1.1-22; 4.13-17), Amaro lembra que, em momentos de profunda dor, o Altíssimo pode afastar sentimentos de insegurança e desamparo e restaurar histórias. “Recomeçar não significa ignorar a dor, mas escolher não permanecer nela”, assinala o pastor, deixando claro que, durante esse processo, a Igreja desempenha seu papel como espaço de cuidado, suporte e reconstrução. “Em Joinville, a IIGD desenvolve ações voltadas ao restabelecimento familiar e oferece acompanhamento por meio do ministério Mulheres que Vencem. Mostramos que a mulher não é definida por suas perdas nem pelos vínculos desfeitos, mas pelos planos que o Pai ainda realizará em sua vida.”
Sistema de aprendizado – O psiquiatra Pedro Onari aponta que esses momentos de mudança costumam ser difíceis, porque, além de marcarem o encerramento de uma fase, afetam a maneira como a pessoa enxerga a si mesma e a vida. “Existe a perda de uma referência interna sobre quem ela era naquele contexto. Há uma quebra de expectativas, de rotina e, principalmente, de identidade.” De acordo com o especialista, essa reação ocorre porque o cérebro humano busca previsibilidade e segurança. “Quando essas estruturas são interrompidas, o organismo pode reagir com intensa movimentação emocional, trazendo sentimentos, como ansiedade, tristeza e insegurança.” Onari indica que as experiências atuais também podem reativar memórias mais antigas relacionadas a rejeições, frustrações ou medos, tornando a adaptação ainda mais desafiadora.

Foto: Arquivo pessoal
O médico, criador da Psicanálise Cristã, realça o papel desempenhado pela neuroplasticidade (capacidade de o cérebro adaptar-se, modificar-se e reorganizar sua estrutura física e seu funcionamento ao longo da vida), essencial no processo de superação e reconstrução emocional. Segundo ele, esse mecanismo possibilita que o indivíduo desenvolva novas formas de interpretar as mudanças e responda de maneira diferente aos desafios. “O cérebro humano consegue se reorganizar a partir das experiências vividas, permitindo que uma pessoa deixe de enxergar a mudança apenas como uma ameaça e passe a compreendê-la como uma oportunidade”, explica o psiquiatra, esclarecendo que a resiliência – habilidade de se adaptar a mudanças, superar adversidades e recuperar o equilíbrio emocional após situações de estresse, traumas ou grandes dificuldades – não deve ser vista como uma característica natural de alguns, mas como uma habilidade que pode ser desenvolvida gradualmente. “É um sistema de aprendizado em que o cérebro, por meio de novas experiências e repetições, abandona antigos padrões de medo e passa a responder com mais consciência, equilíbrio e direção.”

O especialista afirma que, nessa busca por reequilíbrio, a fé pode contribuir de modo significativo para que a pessoa se recupere emocionalmente. “Quando encontra na vivência espiritual uma referência para compreender sua identidade e sua história, ela consegue reformular as experiências e atravessar períodos de mudança com mais segurança e equilíbrio”, ensina, acrescentando que, do ponto de vista clínico, crer é profundamente estruturante na recuperação emocional, principalmente após perdas importantes. “Quando uma pessoa enfrenta ansiedade, depressão ou baixa autoestima após uma crise, não estamos lidando apenas com manifestações emocionais, mas também com a dificuldade de reconstruir significados e encontrar um novo sentido para a própria trajetória”, salienta Onari, assinalando que a esperança é parte integrante desse movimento de reconstrução. “Não como uma ideia abstrata, mas como uma decisão prática de refazer a direção”, diz o profissional, ressaltando que compreender o amor ensinado por Jesus – fundamentado no acolhimento, no perdão e na restauração – pode ressignificar a maneira como a pessoa enfrenta as próprias vivências. “Ela passa a viver algo que vai além do alívio emocional e começa a experimentar o Reino de Deus na forma como pensa, sente e se relaciona”, conclui.


