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Especialistas e líderes cristãos apontam caminhos para reorganizar a vida financeira com planejamento, equilíbrio e responsabilidade

Fotos: Prostock-studio / Adobe Stock

Por Lilia Barros

O endividamento das famílias brasileiras atingiu novo recorde histórico em maio de 2026. De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC), encomendada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), pelo menos 81,6% dos lares do país apresentam algum tipo de dívida, maior percentual da série histórica e o quinto aumento mensal consecutivo. Em maio de 2025, quando esse indicador marcava 78,2%, já era evidente a continuidade da pressão sobre o orçamento familiar, mesmo em um cenário de maior oferta de crédito.

O administrador de empresas Dongley Martins observa: “O cartão de crédito é o principal vilão, seguido dos carnês feitos em lojas e crediários diretos”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Segundo o estudo, o avanço do endividamento veio acompanhado da alta na inadimplência: a parcela de famílias com contas em atraso subiu para 29,9% em maio, levemente acima dos 29,7% registrados em abril e dos 29,5% observados em maio de 2025. Por sua vez, o grupo que declara não ter condições de quitar suas dívidas manteve-se em 12,3% pelo terceiro mês seguido, indicando que uma parte significativa dos consumidores enfrenta dificuldades para reorganizar a situação financeira. Além disso, a pesquisa revela que o perfil dos endividados é relativamente equilibrado, com leve predominância feminina (51,34% de mulheres contra 48,66% de homens), e maior concentração de devedores entre pessoas de 30 a 39 anos de idade, faixa que reúne mais de 18 milhões de devedores, dos quais 53,79% estão com o nome negativado em birôs de crédito, como Serasa, SPC Brasil e Consumidor Positivo.

Dados do Banco Central mostram que as taxas de juros do crédito rotativo do cartão [usado por quem paga valor menor que o total da fatura], que chegam a 440% anualmente, são o principal fator de endividamento para 83,6% das famílias e comprometem 54% da renda dos lares. Segundo a economista Catarina Carneiro, da CNC, o peso do “dinheiro de plástico” reduz diretamente a capacidade de consumo das famílias. Essa grande parcela de dívidas acumulada no cartão, a modalidade com a maior taxa de juros do mercado, freia a intenção de consumo para os próximos meses, fazendo com que as famílias analisem com cautela suas condições de arcar com os pagamentos futuros e consumam menos do que fariam com crédito menos custoso, explicou a especialista em entrevista à Agência Senado.

Foto: Mike Stock / Adobe Stock

Na percepção do administrador de empresas Dongley Martins, o atual cenário indica alta vulnerabilidade financeira dos brasileiros que acumulam dívidas em cheque especial e financiamentos. “O cartão de crédito é o principal vilão, seguido dos carnês feitos em lojas e crediários diretos”, observaMartins, acrescentando que os índices de comprometimento de renda e inadimplência são preocupantes, já que as famílias, geralmente, destinam 29,3% de sua renda mensal ao pagamento de dívidas. “Caso sejam incluídas as contas básicas que, antigamente, eram pagas à vista, sem parcelamento, o comprometimento chega a 50% do rendimento”, atesta Dongley, sublinhando que metade das famílias devem há mais de 90 dias. “Chama a atenção o fato de que muitos idosos têm se endividado ao assumir compras ou financiamentos em benefício de filhos e netos”, completa.

O contador Haroldo Santos Filho revela que o endividamento familiar atingiu o maior nível das últimas duas décadas e pontua: “O impacto é maior para os indivíduos de baixa renda”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Por sua vez, o contador Haroldo Santos Filho, vice-presidente de governança e gestão estratégica do Conselho Federal de Contabilidade (CFC), revela que o endividamento familiar atingiu o maior nível das últimas duas décadas. “O problema não está apenas no endividamento, mas também na dificuldade em manter os pagamentos em dia”, afirma o especialista, observando que bancos e financeiras concentram quase metade das pendências (47,1%). “O impacto é maior para os indivíduos de baixa renda, porque o endividamento atinge as necessidades básicas”, pontua, alegando que é justamente nessa faixa que a inadimplência é maior. Para o profissional, as famílias que não têm reserva financeira são as que mais recorrem a linhas de crédito com juros elevados, já que estão com o orçamento sufocado e, por isso, optam por empréstimos rápidos. “Dessa forma, aqueles com menos possibilidade de pagar usam justamente o crédito mais caro”, comenta. Na opinião de Haroldo Filho, pessoas nessa situação precisam cortar gastos. “Elimine as assinaturas inutilizáveis, os deliveries em excesso, as compras por impulso e os juros por atraso”, recomenda ele, sugerindo que “o ideal é parar de fazer dívida, levantar as pendências, negociar e liquidar primeiro o débito mais elevado”.

A contadora Elisangela Meireles Guimarães Coutinho adverte: “Quando uma parte expressiva da renda mensal é direcionada ao pagamento de parcelas e juros, o orçamento familiar perde a capacidade de absorver imprevistos”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Foto: Lek / Adobe Stock

Cautela e compromisso – Na mesma linha, a contadora Elisangela Meireles Guimarães Coutinho, especialista em Comportamento Organizacional, assegura que o endividamento está relacionado ao aumento do custo de vida, à inflação acumulada e às taxas de juros historicamente altas no país. No entanto, sob a ótica da Psicologia Comportamental, ela percebe que o endividamento também está ligado a como as pessoas tomam decisões financeiras; entre elas, o costume de utilizar o crédito como extensão da renda. “Esses indivíduos são influenciados por pressão social de consumo e percepção instantânea de benefício, sem avaliar as consequências futuras”, realça a profissional, destacando que esse (mau) hábito gera estresse financeiro crônico, afeta a qualidade das resoluções econômicas e prioriza as soluções imediatas sem que haja estratégias sustentáveis de consumo. “Quando uma parte expressiva da renda mensal é direcionada ao pagamento de parcelas e juros, o orçamento familiar perde a capacidade de absorver imprevistos”, adverte.

O Pr. Eduardo Garcia Ribeiro reconhece que alguns cristãos também estão com contas no vermelho e lamenta: “Muitos filhos de Deus enfrentam dívidas por falta de planejamento, perda de emprego ou emergências”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

De acordo com Elisangela Coutinho, o enfrentamento da inadimplência exige tanto a educação financeira quanto o acolhimento emocional para possibilitar que o controle da vida econômica seja retomado. “Muitas pessoas evitam lidar diretamente com as dívidas por vergonha, culpa ou ansiedade. Esse mecanismo psicológico atrasa as negociações e agrava o problema”, afirma a contadora, explicando que é necessário ter clareza sobre a realidade financeira do lar, com o registro de receitas, despesas e compromissos assumidos. “É essencial renegociar dívidas com os juros mais elevados e estabelecer metas realistas de pagamento”, afirma a profissional, lembrando que famílias que passam a compartilhar objetivos financeiros tendem a recuperar o equilíbrio econômico e buscam evitar novos ciclos de endividamento.

OPr. Eduardo Garcia Ribeiro, líder regional da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Betim (MG), reconhece que alguns cristãos também estão com contas no vermelho. “Muitos filhos de Deus enfrentam dívidas por falta de planejamento, perda de emprego ou emergências”, lamenta o ministro, citando a passagem de Provérbios 21.5 (NVI): Os planos do diligente levam à fartura, mas o apressado sempre acaba na miséria. Segundo ele, as pessoas consomem para preencher vazios emocionais e espirituais. “Isso não é exclusivo de quem não crê, mas o cristão tem ferramentas espirituais para lidar com o problema”, prega Eduardo Ribeiro, mencionando o ensino do apóstolo Paulo, em sua carta aos Romanos: A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor (Rm 13.8). De acordo com Ribeiro, evitar a inadimplência exige sabedoria, reconhecimento dos próprios limites de renda e a recusa de compromissos que não estejam dentro da realidade financeira da família. “Como cabeça do lar (Ef 5.23), o marido deve ser responsável, e não autoritário”, sublinha o pastor, deixando claro que, muitas vezes, a esposa possui mais habilidade que o esposo na administração financeira. “A Escritura, inclusive, apresenta a mulher virtuosa como alguém que cuida e organiza a casa”, cita ele, referindo-se ao texto de Provérbios 31.

O Pr. Langrebete Onofre da Silva assevera que o aumento do endividamento das famílias também está relacionado às estratégias de consumo impulsionadas pelo marketing, que estimula compras por impulso e facilita o acesso ao crédito
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Com o mesmo entendimento, o Pr. Langrebete Onofre da Silva, líder da Assembleia de Deus Central, em Gramacho, Duque de Caxias (RJ), na Baixada Fluminense, assevera que o aumento do endividamento das famílias também está relacionado às estratégias de consumo impulsionadas pelo marketing, que estimula compras por impulso e facilita o acesso ao crédito. Segundo ele, apesar de ser comum contrair dívidas no Brasil, um país emergente com desafios econômicos semelhantes aos de nações em desenvolvimento, é necessário ter cautela, sensatez e responsabilidade financeira. “Dever não é pecado, mas é embaraço. É preciso fugir da aparência do mal. Pague aos poucos, mas honre o compromisso”, aconselha Langrebete, o qual ressalta a importância de compreender o papel do dinheiro em nossa vida e evitar que se torne um senhor, ocupando o lugar de Deus. “Não devemos amar ou servir a dois senhores, pois acabaremos agradando a um e desagradando a outro”, expõe Silva, citando Mateus 6.24. “A serviço das pessoas, o dinheiro pode ser uma ferramenta muito boa; porém, ao dominá-las, torna-se prejudicial”, alerta, reforçando a ideia de que a educação financeira, aliada à disciplina espiritual, pode ajudar famílias a romper ciclos de endividamento e, dessa maneira, construir uma relação mais equilibrada com os recursos que chegam às suas mãos.


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