Ações impactantes

13/05/2026

Ações impactantes

13/05/2026

Especialistas avaliam benefícios, riscos e desafios impostos pelo advento da inteligência artificial (IA)

Foto: Gerada com IA / Adobe Stock

Por Nany de Castro

As empresas que desenvolvem inteligência artificial (IA) costumam projetar sistemas buscando atender a um público global. Especialistas, porém, alertam que essas tecnologias inevitavelmente refletem os valores, a cultura e a visão de mundo de seus criadores. De acordo com o relatório Global hopes and fears 2025 (Esperanças e medos globais 2025), da empresa de auditoria PwC (PricewaterhouseCoopers), a influência da IA continua crescendo, e o entusiasmo com seu potencial supera, com folga, as preocupações sobre possíveis riscos.

O consultor Renato Barros lembra que a IA “por erro de programação, pode entregar respostas desatualizadas ou falsas”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

No levantamento – um dos mais abrangentes do mundo –, foram ouvidas 50 mil pessoas de 28 setores produtivos das 48 maiores economias mundiais. Essa análise revela que o uso cotidiano da ferramenta ainda não é tão disseminado quanto se poderia esperar, mas sugere que há espaço para que líderes incentivem suas equipes a partir da IA para aumentar o engajamento, estimular a inovação e impulsionar o crescimento por meio de soluções tecnológicas.

No Brasil, segundo o relatório, 71% dos profissionais (de cargos de liderança a funções operacionais) dizem ter utilizado ferramentas de inteligência artificial no trabalho ao longo do último ano – um percentual acima da média global (54%). Entre os brasileiros, a percepção de ganhos também é significativa: 83% relatam melhora na qualidade das atividades, e 79% na produtividade, números superiores aos registros globais, de 75% e 74%, respectivamente.

A advogada Viviane Corrocher lembra que, atualmente, não há leis específicas que punam a manipulação de imagens, áudios e vídeos e a disseminação de conteúdos falsos
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Para o consultor Renato Barros, sócio da WF Sistemas, o grande diferencial da IA está na rapidez à adaptação dos seus próprios parâmetros e na capacidade de aprendizado acelerado, o que torna a tecnologia aliada em atividades complexas, que vão desde a organização de projetos até a produção de conteúdos em questão de segundos. “A cada falha, seus ajustes internos são recalibrados para elevar o desempenho”, observa o especialista, acrescentando que esse processo ocorre de modo contínuo e em larga escala – algo inviável para um indivíduo acompanhar no mesmo ritmo. Contudo, ele alerta para alguns riscos ligados ao uso da IA, como a difusão de preconceitos, a manipulação de informações ou o reforço de interesses específicos, dependendo do seu treinador. “Por erro de programação, pode entregar respostas desatualizadas ou falsas. O próprio Copilot, assistente inteligente da Microsoft, admite que o conteúdo gerado por IA pode estar incorreto”, expõe o consultor, frisando que, embora a inteligência artificial seja neutra, suas aplicações não são assim. “É uma ferramenta poderosa, capaz de acelerar procedimentos, ampliar conhecimento e gerar soluções antes inimagináveis, mas quem define o rumo, o impacto e o propósito dela é o ser humano”, explica.

O psicólogo Rodrigo Vieira afirma que o excesso de uso da IA pode produzir impactos no usuário e em seus operadores, uma vez que gera dependência
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

No Brasil, a discussão legal a respeito do tema tramita no Congresso Nacional há três anos na forma do Projeto de Lei nº 2.338/2023, conhecido como PL da Inteligência Artificial, que busca criar um marco regulatório para o uso e o desenvolvimento da IA no país, inspirado na legislação europeia. A advogada Viviane Corrocher, que tem larga experiência em Direito Digital, Tecnologia, IA e Proteção de Dados, lembra que, atualmente, não há leis específicas que punam a manipulação de imagens, áudios e vídeos e a disseminação de conteúdos falsos. “Hoje, essas práticas são enquadradas em crimes já previstos, como calúnia, difamação e falsidade ideológica.”

Para Anthony Amorim, especialista em inteligência artificial aplicada a negócios, a IA deve ser vista como uma aliada estratégica
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

De acordo com Corrocher, a legislação brasileira oferece alguns caminhos de controle, como a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Esta regula o tratamento de dados de pessoas físicas, em meios físicos ou digitais, realizado por organizações públicas ou privadas, assegurando o direito de solicitar a revisão de decisões tomadas unicamente por meios automatizados que afetem os interesses individuais, como perfil de consumo, crédito ou seleções de currículo. No entanto, para a advogada, falta ainda uma legislação relacionada a direitos autorais. “Não existe lei que obrigue empresas a informar quais obras foram usadas para treinar os sistemas de IA. Isso está em discussão no Brasil e no mundo, pois envolve a proteção do trabalho de escritores, músicos e artistas. O regulamento atual de direitos autorais continua válido, mas precisa ser atualizado devido ao novo cenário.”

O engenheiro de software Tomás Martinez esclarece que os sistemas de IA não possuem consciência, emoções ou valores próprios
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

Há também, na opinião de Corrocher, outro problema que envolve a IA: a violência psicológica contra a mulher causada pelo mau uso desses recursos tecnológicos, os quais modificam a imagem ou a voz das vítimas. Citando a Lei nº 15.123/2025, que alterou o artigo 147-B do Código Penal, ela lembra que o arcabouço legal deve abranger os avanços tecnológicos a fim de garantir que sua utilização ocorra de maneira justa, ética e responsável, permitindo que as pessoas sejam protegidas contra abusos e, dessa forma, assegurando o respeito à dignidade humana.

Foto: Jafree / Gerado com IA / Adobe Stock

Especialista em Saúde Mental, o psicólogo Rodrigo Vieira afirma que o excesso de uso da IA pode produzir impactos no usuário e em seus operadores, uma vez que desencadeia dependência e provoca uma espécie de “preguiça mental”.“A pessoa não vivencia algumas fases naturais da vida e opta por muitos atalhos, deixando de desenvolver alguns lados da cognição e da personalidade”, comenta Vieira. Ele acrescenta que tanto quem programa como quem opera sistemas de inteligência artificial pode ser vítima de outro efeito preocupante: um encantamento intenso pela tecnologia, que pode evoluir para a euforia e a sensação ilusória de controle. “A busca por descobertas constantes leva alguns profissionais a se perceberem como ‘semideuses’, como se comandassem uma máquina capaz de influenciar a vida de outras pessoas, criando um distanciamento da realidade”, argumenta.

A estilista Yara Silveira de Lima frisa: “A IA é uma ferramenta que pode otimizar o tempo de quem a usa, mas não substitui a verificação das informações nem a análise primária dos projetos”
Foto: Arquivo pessoal

Avanço e limite – Na opinião de Anthony Amorim, especialista em inteligência artificial aplicada a negócios, a IA, a qual define como uma forma de “ampliação da capacidade humana”, deve ser vista como uma aliada estratégica. Assim, sob essa perspectiva, acredita que setores, como educação, comunicação, indústria e saúde passarão por mudanças significativas. “Quando combinada ao poder de processamento, por exemplo, no campo da Medicina, essa tecnologia pode acelerar diagnósticos e tratamentos que, antes, pareciam inalcançáveis”, avalia Amorim.

O designer gráfico Daniel Santos diz que utiliza a inteligência artificial em seus projetos desde 2022, quando a ferramenta se popularizou
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

No entanto, para o engenheiro de software Tomás Martinez, a ideia de máquinas pensantes como seres humanos está mais restrita à ficção e ainda distante da realidade. Ele esclarece que os sistemas de IA não possuem consciência, emoções ou valores próprios: operam a partir da análise de grandes volumes de dados, identificando padrões estatísticos e reproduzindo respostas com base no que aprenderam durante o treinamento humano. “A IA não é inteligente de verdade. A partir de repetições, ela acumula informações até alcançar um nível elevado de precisão nas respostas”, explica Martinez.

Há mais de um ano, a estilista Yara Silveira de Lima, 31 anos, passou a incorporar a inteligência artificial ao seu processo criativo, acessando a tecnologia para testar estampas, desenvolver imagens e elaborar desenhos técnicos de peças. Para ela, o recurso contribui para agilizar o trabalho, mas deve ser sempre usado mediante critérios éticos. “A IA é uma ferramenta que pode otimizar o tempo de quem a usa, mas não substitui a verificação das informações nem a análise primária dos projetos”, frisa Yara, membro da Igreja Metodista Livre da Saúde, na zona sul de São Paulo (SP).

A advogada Camila Bezerra alerta: “É importante que [a IA] seja usada como suporte, e não como fonte principal de conhecimento”
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

Por sua vez, o designer gráfico Daniel Santos, 26 anos, contou à reportagem de Graça/Show da Fé que utiliza a inteligência artificial em seus projetos desde 2022, quando a ferramenta se popularizou. Segundo ele, seu uso aumentou o dinamismo no trabalho porque tornou as buscas mais precisas e as respostas mais rápidas. Entretanto, mesmo diante de tantos pontos positivos, ele faz um alerta. “A IA é um recurso técnico, não um ser humano com emoções. Tratá-la como se fosse uma pessoa pode desvirtuar o propósito para o qual foi criada”, enfatiza o profissional, que frequenta a Yah Church na Vila Leopoldina, zona oeste da capital paulista.

O empreendedor social Diogo Bezerra acredita que, quando a juventude tem acesso à formação adequada, a inteligência artificial deixa de representar uma ameaça
Foto: Divulgação – modificado por IA

Já a advogada Camila Bezerra, 32 anos, que usa a ferramenta como apoio à sua rotina, destaca a rapidez com que a IA reúne e organiza informações sobre diferentes temas. Membro da Igreja Batista do Morumbi, na zona sul paulistana, ela elogia esse tipo de aplicação digital, mas reforça a necessidade de usá-la com cautela. “É importante que seja usada como suporte, e não como fonte principal de conhecimento”, ensina Camila, a qual orienta outros profissionais da área jurídica a procurar várias possibilidades de pesquisa para a execução do trabalho, evitando formar convicções e verdades absolutas apenas com base no que é apresentado pelos algoritmos.

O Pr. Rogério Postigo pondera: “A IA é um avanço que pode trazer benefícios importantes, mas, é preciso dizer, também abre espaço para usos indevidos”
Foto: Arquivo Graça / Solmar Garcia – modificado por IA

Por sua vez, o empreendedor social Diogo Bezerra, 33 anos, argumenta que, sem investimento em educação, pensamento crítico e emprego consciente da IA, a tecnologia pode aumentar as desigualdades. Por outro lado, de acordo com ele, quando a juventude tem acesso à formação adequada, a inteligência artificial deixa de representar uma ameaça. “Passa a ser um instrumento de autonomia, renda e transformação social”, atesta Bezerra, que enxergou o potencial da ferramenta para criar a Mais1Code, plataforma que promete democratizar – de maneira gratuita – o acesso dos jovens de periferia à educação tecnológica.

Ao ser indagado sobre o assunto, o Pr. Rogério Postigo, líder estadual da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Minas Gerais, lembrou que o crescimento acelerado da ciência pode ser interpretado à luz de Daniel 12.4, texto que menciona a ampliação do conhecimento nos últimos tempos. Entretanto, ele pondera que a tecnologia oferece contribuições às pessoas. “A IA é um avanço que pode trazer benefícios importantes, mas, é preciso dizer, também abre espaço para usos indevidos. Como toda ferramenta, tem potencial para ajudar ou prejudicar, e isso não se limita à fé, mas se estende a diversas áreas da sociedade.”

O Pr. Elder Ferreira Cavalcante observa: “Não há motivo para rejeitar a inteligência artificial, que facilita a vida de muitas pessoas”
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

Com raciocínio semelhante, o Pr. Elder Ferreira Cavalcante, líder estadual da Igreja da Graça no Rio Grande do Norte, defende a aplicação responsável dessas ferramentas. “Do mesmo modo que a Medicina evolui, outras áreas também avançam, trazendo benefícios. Não há motivo para rejeitar a inteligência artificial, que facilita a vida de muitas pessoas”, observa o ministro, destacando que a questão não reside na tecnologia, mas na forma como ela é empregada. Para ilustrar, ele cita a internet. “É um ambiente com muitas possibilidades positivas, como o acesso à Palavra de Deus. Porém, pode ser usada de maneira inadequada. O problema não está na ferramenta, mas na intenção do usuário”, conclui.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *