Visão restaurada

20/08/2026

Visão restaurada

20/08/2026

Como a exposição virtual fragiliza a autoestima, desafia a fé e coloca em xeque as amizades

Foto: DAS /Gerada com IA / Adobe Stock

Por Nany de Castro

Especialistas observam que a crescente busca por validação nas redes sociais tem produzido impactos significativos na saúde mental e na construção da identidade. Segundo eles, esse cenário deixa a autoestima mais instável e reforça a dependência emocional de algum reconhecimento obtido nas plataformas digitais, influenciando a forma como o indivíduo se percebe fora do ambiente on-line.

Humberto Ramos de Oliveira Júnior, doutorando em Sociologia, sublinha: “É preciso buscar autoconhecimento para perceber as próprias fraquezas e superar a lógica de curtidas e de engajamento”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

De acordo com psiquiatras e outros profissionais que estudam o tema, são comuns as comparações sociais e a superficialidade das conexões interpessoais, tornando cada vez mais verdadeira a máxima posto, logo existo. Esta, quem sabe, seria uma atualização (ou revisão) enviesada da famosa frase: penso, logo existo, do filósofo e matemático francês René Descartes (1596-1650), que, naquele tempo, refletia sobre a dúvida, a consciência e a certeza da própria existência. Nos tempos atuais, aparentemente, tais reflexões ou narrações de fatos do próprio cotidiano se resumem ao que as pessoas postam nas redes sociais, acessadas por meio de telas de smartphones, tablets e computadores.

Para muitos acadêmicos, as vivências do dia a dia, relatadas por esse “diário internáutico” público, são frequentemente filtradas antes de serem compartilhadas. Assim, até mesmo emoções podem ser adaptadas para se adequarem a formatos mais aceitos pelos usuários, a fim de alcançar mais engajamento. O resultado mostrado, depois da aplicação de filtros, revela, na verdade, uma identidade frágil e instável, dependente das métricas voláteis, pautadas em curtidas, visualizações e comentários.

O especialista em saúde mental Julio César Silveira analisa: “Demonstrar perfeição e um ideal de família para o segmento de pessoas que deseja atingir é uma forma de marketing para ser valorada”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Segundo Humberto Ramos de Oliveira Júnior, doutorando em Sociologia, o uso das redes sociais consolidou uma nova forma de convivência praticamente obrigatória, capaz de influenciar e moldar comportamentos cotidianos. Ele enfatiza que, em processos seletivos, os setores de Recursos Humanos das empresas comumente fazem consultas a perfis dos candidatos nas redes sociais e a cadastros on-line vinculados a contas de plataformas como Google. Humberto lembra que os cristãos estão inseridos nessa nova dinâmica de sociabilidade e, por isso, são desafiados a compreender e lidar com as suas contradições. “É preciso buscar autoconhecimento para perceber as próprias fraquezas e superar a lógica de curtidas e engajamento”, sublinha ele, acrescentando que “o caminho para não ser dominado por esse sistema é a vigilância”.

O Pr. Jean Reimão ensina que a tecnologia deve ser utilizada sem comprometer os princípios bíblicos de unidade e comunhão: “Quando as redes incentivam brigas e divisões, elas vão contra o desejo do Todo-Poderoso de união, paz e amor entre os irmãos”
Foto: Arte de Gemini AI sobre foto de arquivo pessoal – modificada por IA

Na opinião do especialista em saúde mental Julio César Silveira, esse modelo sociológico usado pelas redes sociais é acompanhado do chamado “marketing comportamental”. Ele assevera que, no meio evangélico, existe uma pressão para que o crente em Jesus demonstre, nas plataformas digitais, uma conduta de retidão, uma moral externa validada e fiscalizada pelo público, que nem sempre corresponde à essência do Evangelho. “Demonstrar perfeição e um ideal de família para o segmento de pessoas que deseja atingir é uma forma de marketing para ser valorada”, analisa Silveira, frisando que essa dinâmica pode levar à internalização de uma ideia de santidade fundamentada na aparência. No entanto, quando a realidade não se alinha àquele padrão postado nas redes, torna-se gatilho para crises de ansiedade e culpa. “O medo de ser excluído ou cancelado faz muitos fiéis se silenciarem e adoecerem física, emocional e espiritualmente”, alerta.

Foto: Rymden / Adobe Stock

Por outro lado, o profissional esclarece que, embora o ambiente on-line permita ao usuário descobrir nichos de afinidade, do ponto de vista psicológico, nada se compara ao encontro cara a cara. “A comunhão virtual pode coexistir com o convívio presencial, mas não o substitui”, frisa Julio Silveira, salientando que trocar o silêncio e a retrospecção pelo uso compulsivo das redes abre caminho para formar uma geração cada vez mais ansiosa, a qual busca alívios momentâneos em vez de satisfação espiritual profunda. O especialista diz também que o universo digital, ao reforçar a visibilidade constante, pode favorecer a atração de lideranças com traços narcisistas, que dependem de plateia, dos aplausos e da validação de seu público. “Isso afeta a saúde mental dos seguidores, que perdem sua autonomia crítica”, avalia.

O Pr. Jean Reimão, líder estadual da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Alagoas, ensina que a tecnologia deve ser utilizada sem comprometer os princípios bíblicos de unidade e comunhão. “Somos um só Corpo em Cristo (1 Co 12.12). Quando as redes incentivam brigas e divisões, elas vão contra o desejo do Todo-Poderoso de união, paz e amor entre os irmãos (Ef 4.3)”, afirma o ministro, argumentando que a “cultura do cancelamento” no ambiente digital se opõe ao ensinamento bíblico sobre perdão e reconciliação. Para ele, reações impulsivas e julgamentos públicos podem enfraquecer os vínculos entre cristãos e afastá-los dos valores ensinados nas Escrituras. Além disso, Reimão reforça a ideia de que a comunhão presencial continua sendo indispensável para a vivência espiritual. “Cultos e sermões on-line podem enfraquecer a fé se substituírem a presença física na igreja. A Bíblia mostra em Atos 2.42 (E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações) que a fé é vivida em comunidade. O batismo e a Ceia do Senhor, por exemplo, ocorrem obrigatoriamente na presença dos membros”, finaliza.

O Pr. Davi Goes prega: “Estamos vivendo tempos proféticos, que remetem às palavras de Jesus quanto aos últimos dias, quando a iniquidade aumentaria, e o amor esfriaria”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Princípios e valores – De acordo com o Pr. Davi Goes, um dos líderes do Ministério Canaã, em Fortaleza (CE), os conflitos entre cristãos nas redes sociais são um reflexo das profecias escatológicas. “Estamos vivendo tempos proféticos, que remetem às palavras de Jesus quanto aos últimos dias, quando a iniquidade aumentaria, e o amor esfriaria”, prega ele, referindo-se ao texto de Mateus 24.12. Para o ministro, atualmente, não há respeito pela opinião do outro. “Tudo é motivo de discórdia, que é parte do trabalho do inimigo para distrair e dividir o Corpo de Cristo”, alerta Goes, observando que cabe aos servos do Senhor se manterem ligados àquilo que os aproxima da Palavra. “O restante é apenas distração”, destaca, deixando claro que importa seguir os ensinamentos bíblicos e agir conforme as Escrituras sem buscar reconhecimento público (Mt 6.1-4). “Muitos usam a ação social para fazer promoção pessoal, o que não é correto. O bem realizado ao próximo, como expressão de cuidado e amor, não deve ser exposto”, salienta.

O Pr. Luís Gustavo de Castro lembra que a experiência virtual não deve substituir a comunhão presencial: “Nada se compara à convivência, o abençoar e ser abençoado pessoalmente”
Foto: Arquivo pessoal

O Pr. Luís Gustavo de Castro, líder da Igreja do Nazareno Central, no bairro Morada da Serra, em Cuiabá (MT), reconhece que as plataformas digitais podem ser importantes ferramentas de alcance e evangelização. Ele cita, por exemplo, a transmissão de cultos como uma alternativa para quem não consegue estar presente nas reuniões. No entanto, lembra que a experiência virtual não deve substituir a comunhão presencial. “Nada se compara à convivência, o abençoar e ser abençoado pessoalmente”, afirma, ressaltando que a unidade entre os cristãos também pode ser prejudicada quando as discussões on-line se concentram em assuntos avessos aos princípios do Evangelho. “Opiniões divergentes sobre temas triviais não deveriam ter o poder de separar os irmãos que professam a mesma fé”, assevera o ministro.

A cantora Jéssica D’Ávila, da Graça Music, enxerga as redes sociais como um meio fundamental para levar a mensagem do Pai a outras pessoas
Foto: Divulgação / Graça Music

A necessidade da busca do equilíbrio é destacada pela cantora Jéssica D’Ávila, da Graça Music. Ela, que enxerga as redes sociais como um meio fundamental para levar a mensagem do Pai a outras pessoas, afirma que o alcance de uma publicação não determina o valor de uma mensagem ou de quem a divulga. “É preciso colocar o coração no lugar certo, porque, se não houver o retorno planejado da postagem de um vídeo ou de uma música, o indivíduo ficará frustrado”, atesta. Segundo a artista, os comentários negativos também não devem ser motivo de preocupação. “Críticas e julgamentos não se comparam ao que Jesus enfrentou. Por isso, precisamos olhar para Cristo, que Se posicionava como filho amado do Criador. Da mesma forma, somos filhos e filhas amados pelo Senhor, e o nosso valor está nEle”, ensina Jéssica, frisando ser necessário tomar cuidado com a exposição de aspectos da vida pessoal no ambiente digital.

O cantor Israel Soares, que também faz parte do cast da Graça Music, afirma que mantém as redes sociais como uma ferramenta secundária, a fim de priorizar a essência da fé acima da exposição. “Quando nasci, não existia internet, mas Deus, sim. Se ela acabar hoje, meu ministério continua, porque está firmado nEle. Não me baseio em números, mas em estar bem com o Pai. O mais importante é ter o nome no livro da vida”, declara.

O cantor Israel Soares, da Graça Music, aconselha: “Siga a Fonte, que é Jesus, e não se compare com ninguém. A túnica que o Altíssimo deu só cabe em você. Enquanto a internet passa, o Céu permanece eterno”
Foto: Arquivo pessoal

Indagado pela reportagem de Graça/Show da Fé sobre sua rotina, o músico diz que busca colocar a vida espiritual em dia antes de “marcar” presença no mundo digital. “Primeiro faço meu devocional e, depois, posto, mas nem sempre. Às vezes, fico quietinho. Levanto-me de madrugada para orar e não abro a câmera. O virtual é consequência, não a fonte”, testemunha Israel, esclarecendo que o desafio dos cristãos está em não permitir que as redes sirvam de termômetro de avaliação do sucesso. Para ele, a prioridade é viver de acordo com o que acreditamos. “Estou com minha esposa todos os dias, mas não exponho nosso cotidiano”, informa o cantor, deixando um conselho: “Siga a Fonte, que é Jesus, e não se compare com ninguém. A túnica que o Altíssimo deu só cabe em você. Enquanto a internet passa, o Céu permanece eterno”.

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