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Crescimento das igrejas evangélicas do Sul Global impulsiona fluxo missionário brasileiro em países desenvolvidos

Fotos: Divulgação / IIGD

Por Flávia Fernandes

Até o início dos anos 1990, havia uma rota conhecida por milhares de missionários que partiam de países do hemisfério Norte – Estados Unidos, Canadá e Europa Ocidental – em direção ao Sul Global, formado pelas nações em desenvolvimento ou emergentes. Esse cenário começou a mudar no final do século 20 e, gradualmente, foi crescendo um movimento que se tornou visível em cidades norte-americanas e europeias: igrejas lideradas por brasileiros passaram a ocupar espaços em regiões marcadas pela secularização, presença de imigrantes de todas as partes do planeta e queda do número de membros nas comunidades cristãs. Nos cultos daquelas congregações, o português assumiu o púlpito, indicando a construção de novas histórias de fé e recomeços.

O pastor e missiólogo Felipe Fulanetto afirma: “O que testemunhamos é uma reconfiguração da missão cristã em chave policêntrica”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Chamado de missão reversa, esse deslocamento de pastores e obreiros está redesenhando o mapa da evangelização contemporânea. Na opinião do missiólogo Felipe Fulanetto, 35 anos, pastor da Igreja do Nazareno, em Campinas (SP), esse movimento não deve ser entendido tão somente como uma inversão geográfica. “O que testemunhamos é uma reconfiguração da missão cristã em chave policêntrica”, diz o estudioso, referindo-se ao fato de que agora existem múltiplos núcleos de formação e envio de missionários. “Deixou de ser monopólio do Ocidente e tornou-se uma responsabilidade compartilhada de toda a Igreja no mundo”, afirma.

Para Fulanetto, essa forma de atuação evangelística dialoga diretamente com a realidade das sociedades secularizadas e, nesse cenário, obriga o testemunho cristão a buscar novas abordagens. “Há um desafio externo, que é comunicar o Evangelho em uma linguagem compreensível, e um desafio interno, que é formar cristãos enraizados na própria fé”, opina, lançando mão do neologismo “glocal” para explicar esse tipo de missão: conectada ao cenário global, sem perder de vista seu compromisso com o contexto local. O missiólogo lembra que o crescimento do cristianismo no Sul Global deslocou o centro de gravidade da fé cristã, tornando as ações de evangelização mais dinâmicas, multifacetadas e distribuídas. “Pela primeira vez, essas igrejas [dos países emergentes] enviam mais missionários do que o Ocidente, concretizando uma mudança estrutural na história da fé cristã”, observa.

O Pr. Moises Peres lembrou que esse esforço de missões está em sintonia com o princípio bíblico descrito em Mateus 28.19 e afirma: “Hoje, percebemos que os Estados Unidos se tornaram um dos maiores campos missionários do mundo”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Crescimento acentuado – Estudos do Center for the Study of Global Christianity (CSGC) – do prestigiado Seminário Teológico Gordon-Conwell e dedicado a pesquisas sobre crescimento, distribuição e tendências do cristianismo mundial – apontam que mais de 80% dos cristãos vivem no Sul Global. Os levantamentos revelam também que há um aumento acentuado do número de missionários oriundos da América Latina, com destaque para o Brasil, nas nações da Europa Ocidental e nos Estados Unidos. Por sua vez, relatórios compilados pelo Pew Research Center, instituto que investiga comportamento social, opinião pública, religião, tecnologia e tendências globais, mostram que, com a redução da prática religiosa em países europeus e na América do Norte, criou-se um espaço aberto para novas frentes de evangelização e até de reevangelização.

O Pr. León Costa, líder da IIGD na Argentina, declara: “Creio que o Senhor Deus está trabalhando para um avivamento que causará impacto no mundo inteiro”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Indagado sobre o tema, o Pr. Moises Peres, da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Pompano Beach, no estado norte-americano da Flórida, lembrou que esse esforço de missões está em sintonia com o princípio bíblico descrito em Mateus 28.19: Portanto, ide, ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. “Hoje, percebemos que os Estados Unidos se tornaram um dos maiores campos missionários do mundo”, afirma Peres, ressaltando que a presença brasileira vai além dos cultos e se estende ao suporte social. “Quando um brasileiro chega, ele traz uma mala cheia de sonhos e um coração cheio de saudades. O acolhimento é nossa primeira pregação”, explica o ministro, indicando que a igreja passa a funcionar como uma rede de apoio emocional e prático, criando vínculos que, muitas vezes, abrem espaço para a evangelização.

Dados do Migration Policy Institute, centro de pesquisa independente sediado em Washington, capital estadunidense, e dedicado ao estudo de migração e políticas públicas, estimam que mais de 1,8 milhão de brasileiros vive nos EUA. Segundo Peres, o crescimento das congregações brasileiras acompanha o avanço da população migrante, e, por sua vez, muitos latinos e imigrantes em geral encontram nas igrejas um espaço de pertencimento e apoio. “O acolhimento é uma porta poderosa para o Evangelho. Quando a pessoa se sente amada, ela se abre para ouvir a mensagem”, afirma o pastor, o qual chama a atenção para o discipulado em uma cultura marcada pelo consumo e pela falta de tempo.

Momento especial de louvor em culto de Santa Ceia da Igreja da Graça na cidade de Pompano Beach, no estado norte-americano da Flórida: o Pr. Moisés Peres ao microfone e ao teclado durante a celebração
Foto: Reprodução / Instagram

Diferenças culturais – O Pr. León Costa, 49 anos, líder da IIGD na Argentina, observa que, apesar das diferenças culturais, há um elemento comum na recepção da Mensagem. “Cada país é diferente do outro, mas o Evangelho triunfa”, afirma, destacando que em cidades, como Boston (EUA), Londres (Inglaterra) e Lisboa (Portugal), o crescimento de templos evangélicos brasileiros se reflete em cultos bilíngues e ações sociais que fortalecem vínculos com as comunidades locais. “Parte dos convertidos passa a atuar na própria missão, ampliando o alcance do trabalho”, explica Costa, deixando claro que esse movimento evangelístico segue o mandamento de Jesus registrado em Marcos 16.15: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Na opinião do pastor, o cenário atual mostra que uma mudança maior está a caminho. “Creio que o Senhor Deus está trabalhando para um avivamento que causará impacto no mundo inteiro”, declara.

O Pr. Paulo Feniman, diretor-executivo da Missão para o Interior da África (MIAF) e presidente da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB), observa: “A igreja, de modo até silencioso, tem começado a se mover de maneira extraordinária”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

A percepção de que o cristianismo vive um novo momento de expansão global, impulsionado por fluxos migratórios e pela atuação de igrejas fora do eixo tradicional, é compartilhada pelo Pr. Paulo Feniman, 52 anos, diretor-executivo da Missão para o Interior da África (MIAF) e presidente da Associação de Missões Transculturais Brasileiras (AMTB). Para ele, os sinais de mudança dentro dos próprios países historicamente cristãos estão à vista de todos. “Há um movimento acontecendo, especialmente nos Estados Unidos e em alguns países da Europa, como a Inglaterra. A igreja, de modo até silencioso, tem começado a se mover de maneira extraordinária”, observa, concordando com a ideia de que esse processo está ligado aos fluxos migratórios globais. “Tem a ver com a imigração, não só a brasileira, mas também a de vários países, e tem ajudado a igreja a se fortalecer na Europa e nos Estados Unidos”, avalia Feniman, assinalando que se trata de um momento de retomada da fé em contextos marcados pelo secularismo. Porém, ao analisar o papel das igrejas do Sul Global, o pastor adota uma postura cautelosa. “Hoje, o cristianismo já é muito mais forte na América Latina, na África e na Ásia. No entanto, esse crescimento não significa liderança consolidada no envio missionário. Os EUA ainda são o país que mais envia missionários no mundo. Estamos em um momento expressivo, mas ainda há uma longa jornada pela frente”, opina.

O presidente da Missão Kairós, João Araújo (na foto, em uma cerimônia de batismo nas águas), lamenta: “Apenas um em cada 1.800 cristãos se dispõe a ser missionário transcultural”
Foto: Arquivo pessoal

O presidente da Missão Kairós, João Araújo, 59 anos, ligado à Igreja Assembleia de Deus em Mutuá (RJ), parece concordar com Feniman ao ressaltar que a experiência de campo ajuda a dimensionar o potencial de evangelização nessa nova fase. Missionário há mais de três décadas, tendo servido por 20 anos na Guiné-Bissau e no Senegal, onde fundou 13 igrejas, cinco escolas e um seminário teológico, Araújo observa que houve uma ampliação das frentes evangelísticas no exterior. Entretanto, ele chama a atenção para a necessidade de as agências missionárias investirem em planejamento e estrutura, além de lançar mão de estratégias diversificadas de pregação da Palavra. “Abrimos postos de saúde, escolas e usamos esportes e cursos de alfabetização, o que cria vínculos e abre espaço para o discipulado”, exemplifica.

Foto: Divulgação / IIGD

Na opinião de João Araújo, esse movimento de evangelização por parte de missionários brasileiros, por exemplo, alcança diferentes públicos, inclusive no Brasil. “Um dos segmentos menos evangelizados são os imigrantes. Temos missionários que acolhem refugiados, ajudam com a documentação, o ensino da língua e pregam o Evangelho”, relata ele, frisando que o perfil do missionário para executar essa tarefa é determinante. “É preciso haver capacitação, equilíbrio emocional e flexibilidade para facilitar a adaptação”, esclarece Araújo, asseverando que os desafios permanecem gigantes apesar dos avanços. “Apenas um em cada 1.800 cristãos se dispõe a ser missionário transcultural”, lamenta, revelando que a Kairós mantém 170 missionários em 23 países. Não sem motivo, teólogos, obreiros e missionários de todas as partes do mundo são unânimes ao repetir o recado do apóstolo Paulo em sua carta aos Romanos: Como, pois, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? (Rm 10.14).


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