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Por Victor Rodrigues
Após anos aconselhando pessoas tanto na Igreja quanto no consultório, o pastor e psicólogo Alcino Egídio de Assis Neto, 63 anos, transformou sua experiência e seu aprendizado em um livro que explora a relação entre fé e acolhimento. Em Cuidados paliativos: a psicanálise e os cuidados (Editora Viseu), ele propõe que tenhamos um olhar sensível sobre a finitude da vida e uma atenção integral ao sofrimento humano. Formado em Teologia pela Academia Teológica da Graça de Deus (Agrade), Alcino Neto reúne, na obra, conceitos da psicanálise, experiências pessoais e questões existenciais, sugerindo que a assistência de conforto vá além dos protocolos médicos.
O especialista defende a ideia de que presença, empatia, confiança em Deus e subjetividade são elementos fundamentais no acompanhamento de pacientes e familiares em momentos de fragilidade. Segundo ele, a proposta do livro é ampliar o debate sobre o cuidado, valorizando não apenas o tratamento físico, mas também o acolhimento emocional e espiritual. “O objetivo é promover o entendimento da importância de o paciente se expressar de maneira segura ao relatar a sua dor, sentindo-se respeitado e livre de julgamentos”, declara o pastor, que é líder regional da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Paranaguá (PR).
Casado com Ângela Maria de Assis, 50, pai de Jessika, 38, e Ana Vitória de Assis, 13, e, há 24 anos, exercendo o ministério pastoral, ele revela que sua fé e o amor às vidas são o motor do cuidado, aliado à abordagem terapêutica da psicanálise. “Esta propõe a valorização da autonomia e da dignidade humana e compreende o paciente como um sujeito de direitos, que precisa ter a história, os valores, as crenças e os desejos respeitados diante da sua condição”, explica o ministro. Nesta entrevista à Graça/Show da Fé, Alcino fala dos desafios, das experiências e das reflexões que o inspiraram a escrever sobre os modos de assistência aos pacientes terminais.
Como surgiu a ideia de abordar os cuidados paliativos sob a perspectiva da psicanálise?
Durante a finalização do curso de Psicologia, em 2016. Era preciso escolher entre três temas propostos pela faculdade e definir uma linha de abordagem para atuar no mercado de trabalho após a formação. Então, optei pela psicanálise. Ao longo de 17 anos, trabalhei em um hospital psiquiátrico, na região metropolitana de Curitiba (PR), uma experiência que despertou em mim o desejo de transformar em palavras tudo o que vivenciei. Os cuidados paliativos [abordagem assistencial focada em melhorar a qualidade de vida de pacientes que enfrentam doenças graves ou ameaçadoras da vida, aliviando dores e outros sintomas físicos, além de oferecer suporte emocional, social e espiritual] e a psicanálise se complementam. Oferecer escuta a quem enfrenta o sofrimento diante da possibilidade da morte é um gesto valoroso de empatia.
Que relatos ou experiências marcantes influenciaram o senhor na execução da obra?
Embora o livro não traga relatos específicos, ele traduz a inquietação e a necessidade de tratar – de maneira clara e humana – a relevância e o impacto transformador que o cuidado paliativo pode proporcionar ao paciente e a seus familiares. Os anos de trabalho no hospital psiquiátrico foram marcados por experiências intensas. Acompanhei de perto o sofrimento, a fragilidade e, muitas vezes, a partida de pessoas que não tiveram a oportunidade de receber a assistência e o acolhimento proporcionados pelos cuidados paliativos.
Como a psicanálise e a fé podem ajudar profissionais e familiares a compreender melhor a dor emocional de pacientes em fase terminal?
A psicanálise é uma ferramenta desenvolvida pelo neurologista austríaco Sigmund Freud (1856-1939) para auxiliar pessoas que atravessam situações adversas e fases de intenso sofrimento emocional. Por meio da escuta qualificada, ela oferece acolhimento, a subjetividade do indivíduo é respeitada, e sua dor emocional pode ser validada, especialmente diante da morte. Os cuidados paliativos dialogam com a compreensão mais ampla do ser humano, reconhecendo-o em sua totalidade: física, emocional, social e espiritual. A psicanálise e a fé promovem o alívio do sofrimento psíquico, da dor física e das inquietações emocionais, proporcionando conforto e suporte não apenas ao paciente, mas também à família.
O que significa permanecer ao lado de alguém que está diante da morte?
Viver uma experiência única, que exige constante adaptação e uma profunda mudança de realidade. A pessoa que recebe um diagnóstico de incurabilidade merece todos os cuidados: afeto, carinho e atenção. Cuidar do outro não se restringe apenas à higiene ou à oferta do alimento na hora certa. É preciso ouvir o inconsciente que, muitas vezes, encontra nesses períodos de angústia a oportunidade de se manifestar. As confissões, os relatos, os medos, as queixas e até os silêncios carregam significados profundos. Um espaço seguro de acolhimento representa uma forma de alívio para a alma, permitindo que o sujeito se sinta reconhecido, mesmo diante da finitude.
É possível equilibrar decisões médicas e familiares com as questões emocionais que permeiam a aproximação da morte?
O equilíbrio entre as decisões médicas, os aspectos emocionais e a participação familiar deve ser construído de modo ético e cuidadoso, por meio do diálogo e do consenso. A equipe interdisciplinar atua de maneira integrada, respeitando e agregando o parecer de cada profissional envolvido, com o objetivo de oferecer um cuidado mais humano, digno e alinhado às necessidades da pessoa assistida e de seus entes queridos.
Que reflexão o senhor espera despertar no leitor de seu livro?
É preciso perceber, sentir e tocar o outro em sua essência. Muitas vezes, a correria cotidiana nos distancia daquilo que realmente importa. Aproveitar a vida não significa viver sem dificuldades, mas valorizar cada oportunidade de amar, cuidar e compartilhar. Por isso, viva, decida e ame agora! A felicidade não está em um futuro distante: ela se revela nas pequenas experiências construídas diariamente, nos encontros, nas emoções e na vivência de cada momento com gratidão e propósito.
Alcino Egídio De Assis Neto
Pastor, psicólogo e autor


