
NOS PASSOS DE JESUS
15/05/2026
Por Leiliane Lopes
O Brasil registrou um recorde histórico de inadimplência em fevereiro de 2026, com 81,7 milhões de CPFs negativados, somando 332 milhões de reais em dívidas somente neste ano, volume 43% maior do que o registrado há dez anos. Segundo a Serasa Experian, uma das principais empresas de análise de crédito e dados do país, desde 2016, a dívida média por consumidor avançou 12,2%, passando de 5,8 mil reais para 6,5 mil reais, já considerando a inflação. O levantamento da Serasa também aponta mudanças no perfil dos endividados, com aumento do número de inadimplentes entre a população com idade superior a 60 anos: em 2016, esse grupo representava 12,23% do total (a menor participação entre as faixas etárias), mas hoje chega a 19,41%. Além disso, em média, o brasileiro tem 70,5% da sua renda comprometida, dado que, segundo especialistas, é preocupante, porque demonstra a dificuldade de muitas famílias de realizarem uma gestão eficiente da economia doméstica. Na opinião dos profissionais da área de finanças, esses números são a constatação da falta de planejamento, organização e controle de despesas nos lares brasileiros.

Foto: Divulgação / Atrios Studio Fotografia e Produção Audiovisual – modificada por IA
Para a economista evangélica Thaila Campos, criadora do ministério Cristão Rico, o desequilíbrio financeiro impacta o orçamento, mas quem sofre mesmo as consequências desse desarranjo é o núcleo familiar, que é afetado por ansiedade, tensão e conflitos constantes devido a um estado de preocupação contínua. “Em vez de tomar decisões conscientes, surgem escolhas precipitadas, movidas pelo medo”, salienta Campos, especialista em finanças à luz da Palavra. Ela lembra que Deus preza a organização e, sendo assim, se as contas da casa estão fora de ordem, todas as áreas da vida são contaminadas. “Ordenar as finanças não é apenas uma decisão econômica, mas também um ato de mordomia espiritual, capaz de devolver paz, clareza e alinhamento ao propósito do Senhor”, observa.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Thaila chama a atenção também para os problemas decorrentes da falta de diálogo aberto sobre dinheiro entre os casais, algo que dá margem a inseguranças, desgastes e infidelidade financeira. “Transparência não é controle, é cuidado”, esclarece a economista, lembrando que, por meio de conversas, clareza e unidade de propósito, marido e mulher se unem, como declara a Bíblia (Gn 2.24), e protegem o lar ao fazerem escolhas melhores. “A Palavra mostra que a ordem vem antes da abundância (2 Rs 20.1); logo, deve ser prioridade. Desse modo, o cristão precisa entender que o primeiro passo não é ganhar mais dinheiro, mas organizar os recursos que já possui”, ensina a profissional. Ela destaca ainda que empréstimos e gastos com cartão de crédito estão entre os principais vilões do orçamento. “Os maiores ‘ralos’ financeiros, geralmente, não são os grandes gastos, e sim as pequenas saídas diárias que passam despercebidas, como as assinaturas pouco utilizadas, os parcelamentos longos e os juros silenciosos.”

Foto: Arquivo pessoal
Outra questão bastante sensível diz respeito a empreendedores que misturam o capital da empresa com o caixa pessoal, comprometendo o saneamento das despesas familiares. “Quando há essa junção, a pessoa perde o controle. Não sabe se está tendo lucro e acaba usando o dinheiro do trabalho para cobrir despesas da casa, ou o contrário. Isso causa aflição, dívidas e desorganização”, observa a contadora Jakelyni Pinela. Para evitar cair nessa armadilha, ela recomenda pelo menos três soluções simples: optar pelo uso de uma planilha no celular, registrar as despesas em um caderno – dividindo entradas e saídas de recursos – ou utilizar aplicativos de controle de gastos. “O mais importante, entretanto, não é a ferramenta, mas o hábito. Separar alguns minutos por semana para anotar, conferir e planejar faz toda a diferença na vida financeira.” Indagada por nossa reportagem sobre como o autônomo poderia controlar seus recursos, Pinela esclareceu que ele deve levantar todas as despesas familiares mensais, analisar a constância do lucro do negócio e, por fim, definir um valor fixo de pró-labore que caiba na realidade do empreendimento. “O ideal é que ele receba como se fosse um funcionário da própria empresa”, sugere Jakelyni, membro da igreja evangélica Alcance Curitiba. “Somos chamados a cuidar das finanças com entendimento, planejamento e temor a Deus”, acentua.

Sabedoria bíblica – O Pr. Wellington Gomes, líder da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) no Centro em Delmiro Gouveia (AL), relata que tem aconselhado muitos casais que passam por dificuldades financeiras. Segundo ele, os conflitos no lar surgem por causa de gastos desencadeados por impulsos e, principalmente, pela falta de comunicação entre os cônjuges. “A Palavra nos ensina que devemos buscar unidade e cooperação”, prega, citando o texto de Provérbios 31.11 (O coração do seu marido está nela confiado). “Essa confiança existe, porque há organização, transparência e responsabilidade. Quando o casal administra junto e com sabedoria, o dinheiro deixa de ser motivo de briga e passa a ser instrumento de harmonia no lar”, garante o ministro, acrescentando que as Escrituras nos orientam a refletir antes de gastar. “Isso significa analisar e agir com prudência, para que o futuro não seja motivo de aflição”, completa Gomes, referindo-se a outra passagem bíblica: Os pensamentos do diligente tendem à abundância, mas os de todo apressado, tão somente à pobreza (Pv 21.5).

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O Pr. Adelci Gonçalves, líder estadual da Igreja da Graça no Tocantins, lembra que, na vida a dois, é necessário caminhar junto, inclusive em questões financeiras, conforme recomenda Amós 3.3: Andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?. O ministro ressalta que prosperidade e ajuntamento de bens materiais são coisas bastante distintas. “Ser próspero é estar bem em todas as áreas da vida (3 Jo 1.2). Por outro lado, acumular riquezas para si não tem ligação com propósito, e isso é muito perigoso”, enfatiza ele, mencionando o ensinamento de Jesus registrado em Mateus 6.19: Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam. “Podemos ter muitos bens materiais, mas é necessário não permitir ser dominado pelo dinheiro”, ensina Gonçalves, fazendo menção ao Salmo 62.10 (Não confieis na opressão, nem vos desvaneçais na rapina; se as vossas riquezas aumentam, não ponhais nelas o coração). Segundo o líder, oração e planejamento são fundamentais para manter as finanças em ordem, assim como é importante ter um coração agradecido ao Senhor e atento à devolução de dízimos e ofertas.

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Por sua vez, o Pr. Marcos Vinícius Malaquias da Silva, da IIGD na região administrativa de Itapoã, no Distrito Federal, explica que as Escrituras não condenam a posse de bens materiais, mas aqueles que vivem somente para ajuntá-los. “A prosperidade, segundo a Bíblia, diz respeito à capacidade de viver com o necessário, com contentamento, e, ao mesmo tempo, abençoar outras pessoas”, afirma o pastor, observando que o acúmulo de dinheiro tende a acarretar preocupação. “A pessoa fica com medo de perder recursos, e há o endurecimento do coração”, frisa Marcos Silva, acrescentando que, em contrapartida, “a prosperidade que vem de Deus produz descanso interior e um espírito generoso”. De acordo com ele, organizar as finanças não significa apenas lançar mão de uma estratégia econômica. “É um exercício de fé, responsabilidade e cuidado com o próximo, que deve começar dentro do próprio lar.”

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Realidade transformada – Diante dos dados alarmantes sobre a inadimplência no Brasil, somados aos conselhos de especialistas em finanças e aos ensinamentos da Bíblia Sagrada, a reportagem de Graça/Show da Fé procurou saber como os cristãos estão lidando com a situação atual do país nessa área. Ouvimos, por exemplo, a analista de TI (Tecnologia da Informação) Simone Lisboa, 31 anos, que, após perder o emprego durante a pandemia, precisou mudar a gestão de sua casa para enfrentar os desafios e buscou lições no Livro Santo. Casada e com uma filha para criar, ela teve a ideia de vender lanches no condomínio onde mora, transformando a sua paixão pela cozinha em renda. “Naquele momento, o hobby virou trabalho, enquanto não conseguia recolocação na minha área”, relata Simone, destacando que, às vezes, aquilo que julgamos ‘não ser para nós’ é justamente o caminho usado por Deus para nos conduzir ao extraordinário. “Nesse processo, Ele nos ensina, fortalece e prepara para algo ainda maior.”

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
A partir daquela experiência emergencial com vendas, Simone percebeu quão instável era viver dependendo de uma rentabilidade variável. No entanto, aprendeu a depender do Todo-Poderoso. “Era tudo incerto, mas eu tinha convicção de que Deus estava no barco comigo”, recorda-se a profissional, que congrega na Igreja Adoração e Restauração em Vila Esperança, na zona leste de São Paulo (SP). Ela faz questão de registrar o que de mais importante aprendeu naquela fase da vida: não gastar mais do que se ganha. “O ideal é evitar o uso do cartão de crédito, mas, se for necessário utilizá-lo, o salário precisa ser suficiente para quitar a fatura, pagar as contas da casa e sustentar o mês”, opina a analista de TI, reforçando a ideia de que o consumo consciente é uma ação preventiva que ajuda na multiplicação de renda e, dessa forma, garante que a família esteja preparada para superar os dias difíceis.

A empreendedora Karina Talita Simões Pereira, 37 anos, também teve a vida financeira transformada drasticamente devido a um problema de saúde do marido, José Pereira Neto, 37, obrigando-a a parar de trabalhar. “Meu maior medo, na época, era saber como sustentaria a minha casa e criaria meus filhos, além de ter de enfrentar uma rotina já bastante puxada”, conta ela, que é membro da Igreja Evangélica Renovação Pentecostal em Monte Rey 3, na cidade de Piracicaba (SP). Em meio àquela situação, ela encontrou, nas vendas on-line, a fonte para a manutenção de seu lar. “De imediato, tomei o controle da situação e agi com racionalidade”, relata Karina, recordando-se de que já enfrentara dificuldades financeiras anteriormente que quase levaram ao fim de seu casamento. “Chegamos a considerar a separação em determinado momento. Na ocasião, acreditávamos que, separados, poderíamos ter uma vida melhor. Porém, o compromisso assumido na igreja nos levou a buscar alternativas para continuar juntos”, diz ela, explicando que aquela fase difícil provocou uma mudança de perspectiva. “Abandonei o hábito de consumir por impulso, como forma de recompensa, e passei a adotar o planejamento para alcançar meus sonhos. Entendi que nem sempre posso ter o que eu quero e que precisava descansar em Deus”, testemunha a empresária, sinalizando que, por meio da organização financeira, aliada à sabedoria bíblica, é possível transformar realidades e construir um lar estável e harmonioso. “A Palavra diz que, quando buscamos primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça (Mt 6.33), nossas necessidades são supridas”, conclui.


