“Programação saudável”
12/03/2026
CONTINUE CAMINHANDO
13/03/2026
“Programação saudável”
12/03/2026
CONTINUE CAMINHANDO
13/03/2026

Missionária reflete sobre vocação, ensino teológico e protagonismo feminino

Foto: Arquivo pessoal

Por Marcelo Santos

Há trajetórias que se tornam faróis para a Igreja brasileira, não apenas pelo que realizam, mas também pela maneira como revelam Cristo ao servir. É o caso da Profª Durvalina Bezerra, 75 anos, diretora do Centro de Educação Teológica e Missiológica Betel Brasileiro, instituição com mais de oito décadas de atuação, reconhecida pela formação de lideranças e missionários em diferentes regiões do país. Escritora e educadora, Durvalina construiu uma carreira marcada pelo compromisso com a Bíblia e a formação cristã. “Cada um é chamado para uma obra específica, conforme seus dons e talentos. A beleza está em cumprir o propósito para o qual foi chamado”, observa.

Atualmente radicada em Campina Grande (PB) e membro da Igreja Congregacional, Durvalina acumulou quase 30 anos de trabalho em São Paulo (SP), onde dirigiu o seminário do Betel e teve papel decisivo na consolidação acadêmica e espiritual da organização. O retorno ao Nordeste não significou desaceleração: ela continua envolvida ativamente no ministério de ensino, mantendo a mesma disposição que marcou o início de sua vida cristã, ainda na adolescência, quando começou a evangelizar em ações sociais e visitas a hospitais. “Acredito que o vocacionado deve renovar diariamente seu compromisso, pois, sem convicção, nenhum passo deve ser dado”, opina a docente, que, nesta entrevista à Graça/Show da Fé, revisita momentos centrais de sua caminhada e comenta os desafios e avanços do protagonismo feminino no ensino teológico, ao longo de mais de cinco décadas dedicadas ao serviço cristão.

De que maneira a senhora descreve seu chamado para a obra do Senhor?

Minha conversão ocorreu aos 11 anos, e logo entendi que deveria servir ao Mestre. Passei a acompanhar uma missionária formada pelo Betel em visitas a hospitais e no trabalho com crianças. Minha igreja, em Campina Grande (PB), era muito ativa na evangelização, e isso marcou minha juventude. Aos 15 anos, durante um retiro de Carnaval, atendi ao apelo para dedicar a minha vida à obra missionária. No dia seguinte, em oração, o Senhor confirmou meu chamado por meio do episódio em que Elias lança sua capa sobre Eliseu (2 Rs 2.13), e, assim, o Espírito Santo me deu plena convicção para iniciar a obra.

Como foi enfrentar resistências e afirmar sua vocação em ambientes predominantemente masculinos?

Parto do princípio de que Cristo é a Cabeça da Igreja e o Senhor da seara, e que Ele escolhe e capacita quem deseja. A história bíblica e cristã mostra Deus agindo a partir de mulheres. O Betel, fundado por missionárias canadenses e, depois, liderado pela Profª Lídia Almeida de Menezes, formou gerações de mulheres e, mais tarde, também de homens, sem resistência, como fruto de uma renovação espiritual que quebrou barreiras culturais. Embora a Igreja brasileira ainda tenha preconceitos e, muitas vezes, restrinja a atuação feminina, servi por 28 anos como diretora do Betel, em São Paulo, participei de lideranças nacionais e nunca fui desrespeitada. As oposições que surgiram atribuo ao êxito da obra, não ao fato de ser mulher. As resistências veladas, entregamos aos pés da cruz, aprendendo a olhar somente para Jesus, porque dele, e por ele, e para ele são todas as coisas (Rm 11.36).

Há décadas, a senhora se dedica à formação de missionários. Entre tantas histórias, há alguma que ilustre, de maneira especial, o impacto desse ministério?

Ouvir o testemunho de alguém que saiu do submundo das drogas e que, hoje, dirige uma missão resgatando vidas nas favelas da zona sul de São Paulo é motivo de grande alegria. Assim como saber do relato de um jovem que era artista de uma emissora de TV e, há 22 anos, mantém, com a esposa, uma ONG que atende a centenas de crianças no Níger, na África. Ou, ainda, a notícia de que um rapaz de família simples, o qual começou seus estudos no Betel, e, agora, com doutorado na Alemanha, é conhecido nacionalmente como conferencista. Cito ainda outro aluno, que iniciou os estudos no internato em João Pessoa, e, atualmente, possui um currículo surpreendente e é chanceler do Mackenzie. Além deles, há a história de um casal jovem, que foi para a Jordânia atender a refugiados do Oriente Médio, arriscando a própria vida por amor a Cristo. E, tal como ele, a missionária que persevera há 43 anos entre os indígenas potiguaras e que nos constrange com seu amor e sua dedicação. São muitas histórias lindas. Como o autor da carta aos Hebreus (Hb 11.32), digo: ‘Não tenho tempo para falar’ dos heróis do século 21 que testemunham sua fé aqui, ali e além.

Como a senhora se sente ao inspirar gerações?

Recebemos esse legado, como deve acontecer em cada geração: homens e mulheres vivendo para cumprir o propósito divino de fazer discípulos, como nos ensinou o Mestre. Sinto-me feliz e realizada por continuar a história do Betel Brasileiro, que já soma 90 anos de existência. Ao mesmo tempo, carrego a responsabilidade de formar líderes-servos dentro da nossa filosofia institucional. Sou guardiã de princípios e de valores que sustentam essa obra, que enfrenta os desafios da sociedade pós-moderna, das mudanças na Igreja brasileira e da educação teológica, mas permanece firme diante do espírito competitivo da época.

Diante dos desafios éticos, sociais e espirituais, como a senhora projeta o futuro da Igreja no Brasil?

Vivemos um tempo pós-moderno, no qual a secularização, o relativismo e o pluralismo esvaziam o sentido da religião ao rejeitarem a verdade absoluta. Manter-se fiel às Escrituras Sagradas exige compromisso com a Verdade e um testemunho ético diante da sociedade. Outro grande desafio é preservar a fé bíblica, não firmada em usos e costumes nem reduzida à busca por conforto material. Observamos o avanço do sincretismo cultural e de um evangelho mercantilista, mas a fé se constrói pela pregação fiel da Palavra e por uma teologia que molda o caráter de Cristo. Também é desafiador ser uma Igreja relevante, sensível às demandas sociais. A Bíblia ensina a cuidar do pobre, da viúva, do órfão e do estrangeiro (Tg 1.27). Como dizia o pastor estadunidense Timothy Keller (1950-2023), a misericórdia não é apenas o trabalho do cristão, mas a marca do cristão. Jesus andava por toda parte fazendo o bem. Apesar da polarização, do pragmatismo e do relativismo, sou esperançosa. A Igreja brasileira, mesmo multifacetada, está presente em todos os segmentos da sociedade. Alegro-me com a expansão do Movimento Missionário Brasileiro e creio que, nas próximas décadas, a Igreja continuará expressando o Reino de Deus e expandindo sua missão até os confins da Terra.

Durvalina Bezerra
Professora e diretora do Centro de Educação Teológica e Missiológica Betel Brasileiro

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *