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11/03/2026
Por Lilia Barros
Segundo o Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa Michaelis, uma das definições para o termo legado é aquilo que se passa de uma geração a outra, que se transmite à posteridade. Para historiadores, é um conjunto de bens materiais, culturais, ideias, tradições e memórias transmitido pelas gerações passadas e que molda o presente. Outros estudiosos, de diversas áreas do conhecimento, enfatizam que legado é uma jornada construída durante a vida, a partir de ações que impactam o próximo. Eles dizem se tratar de um registro indelével, o qual inclui ensinamentos e experiências que se perpetuam após a morte. De acordo com teólogos e pastores, é a transferência de uma herança espiritual, que engloba a pregação da Palavra de Deus e o ensino dos mandamentos eternos que moldam a fé e o caráter de todos aqueles que seguem as ordenanças divinas. Uma geração louvará as tuas obras à outra geração e anunciará as tuas proezas, registra o versículo 4 do Salmo 145.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Para o Pr. André Luiz de Carvalho, da Igreja Batista Nova Jerusalém em Jardim Guadalajara, na cidade de Vila Velha (ES), é fundamental refletir sobre esse assunto, considerando que os valores e princípios cristãos atravessam gerações, ou seja, “permanecem mesmo depois que nossas vozes se calam e nossos passos cessam”. Na opinião do ministro batista, enquanto herança se refere ao que se deixa para alguém, legado é aquilo que inspira – no caso dos crentes em Jesus, o conhecimento do Senhor e a confiança absoluta em Sua fidelidade. “É uma marca invisível deixada no coração das pessoas e na história que continua a ser escrita”, define o líder, acrescentando que o legado não ocorre de maneira automática, mas resulta de escolhas diárias e intencionais. “As ações de cada um de nós têm voz própria e, mesmo após a morte, continuam pregando, inspirando e advertindo.” Por isso, André de Carvalho chama a atenção para a responsabilidade de pais e avós na transmissão dos princípios e valores da fé cristã às novas gerações, à luz da passagem de Deuteronômio 6.6,7 (E estas palavras que hoje te ordeno estarão no teu coração; e as intimarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te, e levantando-te). De acordo com o pastor batista, os avós atuam como guardiões da memória e da fé, ao testemunharem a fidelidade de Deus ao longo dos anos, enquanto os pais são formadores de caráter e obediência. “Filhos e netos que recebem esse legado têm mais condições de florescer no futuro”, pontua.
Ao analisar o que a Bíblia ensina sobre o tema, o Pr. Antônio Calixto, líder da Assembleia de Deus do Brás, em São José dos Campos (SP), recorda que sacerdotes, profetas, apóstolos e discípulos apresentaram tanto condutas exemplares quanto falhas no decorrer de suas trajetórias. “Mesmo diante de erros, aqueles que se arrependeram conseguiram deixar legados significativos”, destaca Calixto, citando o exemplo de Moisés, que, no início de sua missão, matou um egípcio (Êx 2.11,12), mas, posteriormente, consolidou-se como líder responsável por conduzir o povo de Israel à libertação. “Ele se tornou um homem perseverante e cheio de fé ao seguir a revelação divina, deixando um legado positivo.” O ministro assembleiano esclarece, entretanto, que há personagens bíblicos que deixaram marcas muito negativas. Entre os exemplos, estão o rei Saul, cujo final do reinado foi marcado pelo orgulho e pela desobediência ao Criador; Salomão, que, apesar da sabedoria, voltou-se aos ídolos; Uzias, atingido pela lepra em razão do orgulho; e Acabe, que, influenciado por Jezabel, promoveu a idolatria e se tornou um dos piores reis de Israel.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Aos 71 anos, Calixto afirma estar empenhado em registrar por escrito os ensinamentos que marcaram sua trajetória ministerial. Autor de oito livros, ele está escrevendo mais um, intitulado Uma chama chamada missões, no qual relata o que viveu em 48 anos de ministério e analisa os desafios do trabalho missionário. Fruto de cinco gerações de cristãos, tanto por parte paterna quanto materna, o pastor conta que recebeu e transmitiu princípios de fé aos filhos e, agora, transmite-os aos netos. “Minha bisavó me ensinou a buscar a Deus na madrugada, e meu tataravô me instruiu, com a própria vida, a pregar o Evangelho em qualquer circunstância”, relata ele, destacando que o compromisso com o legado espiritual não se resume a homenagens póstumas: é construído no decorrer de toda a existência, deixando marcas na família, nos amigos e na comunidade. “As experiências e as lutas da trajetória cristã devem servir de aprendizado para as gerações seguintes. Muitos missionários e pastores enfrentaram desafios ao longo da História, inspirando outros a se dedicarem à pregação do Evangelho em todo o tempo e a todos os povos”, sublinha.

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Impacto geracional – O Pr. Flaviano Almeida dos Santos, líder regional da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Venda Nova do Imigrante (ES), na região serrana capixaba, frisa que a palavra legado costuma ser associada a uma influência positiva, razão pela qual o impacto deixado deve ser prioritariamente benéfico. Porém, segundo ele, este nem sempre é construído de modo intencional. “Às vezes, é apenas uma maneira de viver”, atesta o ministro, que lança mão de exemplos do cotidiano para ilustrar seu argumento. “Pessoas que mantêm hábitos alimentares saudáveis e praticam atividades físicas não têm o objetivo de deixar um legado por isso, querem preservar a própria saúde”, sugere ele, acrescentando que, da mesma forma, educadores motivados pelo prazer de ensinar ingressam na profissão. “Assim ocorre com aqueles que conhecem Cristo e passam a praticar a Palavra de Deus para viverem afastados do pecado. Ainda que não tenham essa intenção inicial, acabam deixando um legado capaz de marcar gerações por meio do estilo de vida adotado”, pondera Santos, ressaltando a importância de olhar para o futuro e considerar o impacto das próprias atitudes, especialmente sobre as pessoas que estão ao nosso redor.

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O Pr. José Marcos da Silva, da Igreja Batista em Coqueiral, no Recife (PE), aponta o legado do rei Ezequias, que agiu de acordo com o que era considerado correto para o Altíssimo em um período de grande instabilidade, influenciado pelo avanço do Império Assírio. Mesmo sob forte pressão externa, o monarca manteve a confiança em Deus e permaneceu fiel ao compromisso de proteger Israel (2 Rs 18). Em contrapartida, o ministro batista ressalta o exemplo do filho de Ezequias, Manassés, que não seguiu os passos do pai, desfazendo o legado deixado por Ezequias e introduzindo, de uma geração para outra, práticas idólatras e pagãs em Judá. Silva expõe que o rei adotou condutas consideradas abomináveis pela tradição bíblica, como o sacrifício dos próprios filhos. “Manassés fez o que era mau aos olhos do Senhor, e, por isso, seu legado é severamente condenado”, enfatiza.

Na avaliação do pastor, as histórias registradas no Livro Sagrado evidenciam que viver de maneira exemplar implica compreender que a existência possui um propósito que não se encerra com a morte. “As pessoas precisam olhar para nós [cristãos] e identificar referências sobre o que fazer e o que evitar, sobre como ser e como não ser. A vida é grande demais para terminar em um caixão”, ensina José Marcos. Citando o texto de Hebreus 11.4 (Pela fé, Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons, e, por ela, depois de morto, ainda fala), ele define legado como a continuidade da vida expressa nos frutos deixados pelas ações ao longo da existência. “Quando se vive com propósito e se zela para não decepcionar aqueles que caminham conosco, desenvolve-se naturalmente um modo de viver capaz de deixar uma memória que ultrapassa o sepultamento”, comenta.

Foto: Arquivo pessoal
Frutos duradouros – Ao se aproximar dos 70 anos, o Pr. Marcelo Gualberto, diretor nacional da Mocidade Para Cristo (MPC Brasil), diz ter clareza sobre o legado que deseja deixar para as próximas gerações: o mesmo que recebeu dos pais. “Venho de uma família pobre e, embora não tenha recebido bens materiais, ganhei a maior de todas as heranças, o Evangelho”, declara ele, assinalando que o reconhecimento deve estar ligado ao caráter e à fé, e não aos bens acumulados. O pastor declara que deseja ser lembrado pelo que foi, e não pelo que teve, deixando um marco de fé e de boas obras, às quais Deus preparou de antemão para que fossem praticadas. “As gerações dos meus pais e dos meus avós se fortaleceram em meio a grandes adversidades, enquanto, atualmente, muitos pais buscam oferecer uma vida mais confortável aos filhos e netos para poupá-los das dificuldades que enfrentaram”, observa.

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Na opinião do Pr. Moacy Paulino da Silva, auxiliar da Primeira Igreja Batista em Parintins (AM), dinheiro, fama e poder são vistos na sociedade contemporânea como objetivos centrais da vida, mas a História mostra que as pessoas que realmente marcaram época não viveram em função da busca desses elementos. Ele garante que educar os filhos como cidadãos honestos e tementes ao Pai celestial é uma das principais formas de construção de legado, uma vez que as atitudes das futuras gerações refletem os valores recebidos. “Os filhos carregam o nome dos pais e, por um período, são identificados como filhos ou netos de alguém. Por isso, precisam ser formados para honrar aqueles que os antecederam”, assevera Moacy, atestando que o bom exemplo sempre produz frutos duradouros.

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O ministro batista aproveitou a entrevista à Graça/Show da Fé para fazer um alerta a respeito do testemunho de vida. Mencionando as Escrituras, ele lembra que o rei Jeroboão foi escolhido pelo Todo-Poderoso para executar juízo à casa de Davi, em razão dos pecados de idolatria e desobediência cometidos por Salomão (1 Rs 11.29-39). No entanto, segundo o pastor, o temor de perder o poder levou Jeroboão a cometer graves erros, o que resultou na extinção de sua dinastia após o reinado de seu filho, Nadabe (1 Rs 15.25-32). Para Moacy Paulino, a trajetória de Jeroboão apresenta uma contradição. “Por um lado, ele deixa um legado de coragem, ao enfrentar risco de morte para obedecer a Deus, por outro, sua infidelidade ao Senhor faz sua história ser um modelo que não deve ser seguido.”

Para o Pr. Hamilton Vieira, líder regional da Igreja da Graça em Três Lagoas (MS), o legado pode ser compreendido como as boas obras ou a missão deixada, transmitida por meio de valores, conhecimento e ensinamentos. “Isso implica viver com um propósito sólido e duradouro, capaz de marcar pessoas e incentivá-las a seguir o mesmo caminho, avançando ainda mais”, ensina o pastor, o qual acrescenta que o principal legado a ser construído é o do Evangelho. “Devemos estar fundamentados na Escritura, sendo praticantes da fé, para que as próximas gerações tenham uma referência clara, tal como o apóstolo Paulo declarou em 1 Coríntios 11.1 (ARA): Sede meus imitadores, como também eu sou de Cristo.”


