Marco histórico

17/09/2026

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Para tomar a Ceia do Senhor é preciso se reconciliar com Cristo, lembram teólogos e pastores

Fotos: Planning / Adobe Stock

Por Lilia Barros

A tradicional Ceia do Senhor, instituída por Cristo com o partir o pão e o beber do cálice, representa um momento sagrado no qual os crentes em Jesus vivenciam uma experiência pessoal de fé, gratidão e comunhão. O ato, realizado regularmente pelas igrejas evangélicas em seus cultos, com a finalidade de recordar o sacrifício do Salvador na cruz e Sua ressurreição, não pode ter a participação de quem não se reconciliou com Deus. É necessário haver arrependimento para que a Ceia seja tomada de maneira correta e digna.

O Pr. José Benigno Rodrigues esclarece: “A Ceia do Senhor não é para pessoas perfeitas, mas para as reconciliadas com Cristo”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

É o que ensina o Pr. José Benigno Rodrigues, líder estadual da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) no Piauí. Ele recomenda que, durante a cerimônia, caso o indivíduo se lembre de algum pecado, a atitude bíblica não é simplesmente recusar o pão e o cálice, mas arrepender-se sinceramente diante do Criador e buscar o perdão do Alto. “A Ceia do Senhor não é para pessoas perfeitas, mas para as reconciliadas com Cristo. O autoexame, ensinado em 1 Coríntios 11.28, visa justamente levar o crente à confissão e ao arrependimento”, esclarece. O pastor acrescenta que, na passagem de Mateus 26.26-28, o Mestre ensina que o pão e o vinho representam o Seu Corpo entregue e o Seu sangue derramado para estabelecer a Nova Aliança e garantir a remissão dos pecados: Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, e, abençoando-o, o partiu, e o deu aos discípulos, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E, tomando o cálice e dando graças, deu-lho, dizendo: Bebei dele todos. Porque isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento, que é derramado por muitos, para remissão dos pecados. “Os comandos tomai e comei significam fazer-se parte de Jesus Cristo. Ao cear, a Igreja anuncia a morte do Senhor até que Ele venha, sendo também um ato profético de Sua segunda vinda”, destaca Benigno.

O teólogo Gutierres Fernandes Siqueira resume: “O pão e o vinho não agem como objetos mágicos. O poder não está na matéria em si, como se houvesse uma força automática nos elementos, mas no Mestre”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Reverência e arrependimento – Indagado sobre o assunto pela reportagem de Graça/Show da Fé, o teólogo Gutierres Fernandes Siqueira, membro da Assembleia de Deus Ministério do Belém, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo (SP), esclarece dúvidas e interpretações equivocadas de alguns cristãos, especialmente a respeito dos elementos da Ceia. “O pão e o vinho não agem como objetos mágicos. O poder não está na matéria em si, como se houvesse uma força automática nos elementos, mas no Mestre. A cerimônia fortalece a memória do Evangelho, consola a consciência, renova a gratidão e reordena a vida espiritual em torno da cruz”, resume o estudioso, levantando a questão das incoerências da Igreja de Corinto, denunciadas pelo apóstolo Paulo. “Eles comiam o pão, que aponta para o corpo entregue do Senhor, enquanto feriam o Corpo comunitário de Cristo, que é a Igreja”, critica, apontando que aquela participação, sem discernimento do corpo do Senhor, significava tratar esse memorial como um rito vazio, sem reverência. “Em Corinto, o problema envolvia divisão, egoísmo e desprezo pelos irmãos mais pobres.”

O professor e teólogo Diego Oliveira Turato diz que a Ceia é um momento de fé e de unidade entre pessoas que fazem parte do Corpo de Cristo
Foto: Arquivo pessoal

Segundo Siqueira, Paulo não estava falando de uma introspecção neurótica, “como se cada crente precisasse vasculhar a alma até encontrar uma certeza de pureza”. No entanto, ele chama a atenção para o fato de que a participação indigna trouxe juízo sobre alguns cristãos naquele período, incluindo fraqueza, enfermidade e morte (1 Co 11.27-30). “Isso precisa ser levado a sério. A Ceia é santa, e Deus não trata com leviandade aquilo que está ligado ao sangue da Aliança”, explica o teólogo assembleiano, asseverando que o indivíduo que não compreende nem discerne o significado desse momento santo pode transformá-lo em uma experiência amarga. Gutierres pondera que o alerta paulino não autoriza uma aplicação mecânica, como se todo sofrimento fosse consequência direta de tomar parte desse banquete sagrado de modo indigno. “O juízo ali tinha propósito corretivo, não destrutivo. A Ceia deve produzir temor, não terror; reverência, não superstição; arrependimento, não desespero. Ninguém se aproxima da mesa porque é moralmente impecável. Não se trata de perfeição pessoal, mas de demonstrar uma postura digna e reverente ao Senhor”, esclarece o teólogo, frisando que participam dignamente desse ato aqueles que se examinam, reconhecem a própria necessidade da graça e confessam seus pecados. “A Ceia não é um prêmio para cristãos fortes, mas um alimento para pecadores arrependidos que sabem que sua única justiça está em Cristo. O indigno é o indiferente, o cínico, o endurecido, alguém que quer comer e beber sem se submeter ao Senhor da mesa.”

Foto: Pixel-Shot / Adobe Stock

Por sua vez, o professor e teólogo Diego Oliveira Turato, da Igreja Batista da Água Branca de Santos (SP), diz que a Ceia é um momento de fé e de unidade entre pessoas que fazem parte do Corpo de Cristo, termo que, em todo o Novo Testamento, refere-se à Igreja, sempre trazendo a ideia de comunhão. “Estar junto, orar e estudar a Bíblia juntos, lembrar do sacrifício de Jesus unidos e participar do Corpo também remetem ao sofrimento da morte na cruz”, sublinha Turato, relatando que a participação nesse banquete espiritual dependerá da doutrina da comunidade cristã frequentada. “Algumas igrejas só permitem tomar o pão e o vinho se a pessoa for batizada. Outras, abrem a Ceia para todos. Creio que qualquer pessoa que reconhece Jesus como Senhor e Salvador, mesmo sem ser batizada, pode cear”, pontua o estudioso, asseverando que respeita o modelo adotado pela congregação que, porventura, esteja visitando.

O Pr. Samuel Lopes da Silva Filho adverte: “Se alguém estiver vivendo deliberadamente em pecado, sem que tenha se arrependido, deve tratar seriamente essa condição diante de Deus”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Alimento para a alma – Para o Pr. Samuel Lopes da Silva Filho, diretor-executivo da Convenção Batista de Mato Grosso (CBMT), otexto de 1 Coríntios 11.27-30 fala de um caso concreto de disciplina divina real e séria na comunidade cristã de Corinto. “Paulo afirma que alguns crentes estavam experimentando fraqueza, enfermidades e até morte física por participarem indignamente da Ceia do Senhor, tratando com irreverência aquilo que é santo”, explica o ministro batista, destacando que o foco do apóstolo é mostrar que o Todo-Poderoso leva a sério a santidade da Igreja. “As palavras de Paulo não devem ser interpretadas de maneira supersticiosa, mas como um alerta para que os coríntios tivessem reverência e demonstrassem arrependimento e sinceridade diante de Deus”, afirma Lopes, deixando claro que, durante a cerimônia, cabe ao crente se lembrar de um pecado, fazer o autoexame e se arrepender. “Entretanto, se alguém estiver vivendo deliberadamente em pecado, sem que tenha se arrependido, deve tratar seriamente essa condição diante de Deus”, adverte ele, reiterando que o pão e o vinho não possuem poder espiritual, místico ou salvador, mas trazem à memória do cristão a lembrança da obra do Mestre e a importância da comunhão com a igreja.

O Pr. Anderson Nunes sublinha que a Ceia do Senhor é um momento de comunhão com Deus e com os irmãos de fé
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O Pr. Anderson Nunes, da Primeira Igreja Batista no Tabuleiro, em Maceió (AL), lembra que Judas, quando estava à mesa com o Messias, teve a chance de se arrepender. “O próprio Cristo deu oportunidade àquele discípulo para reparar o ato de traição quando lhe deu o pão molhado. Alguns comentaristas falam que, naquele momento, ele poderia rever tal decisão e se arrepender”, recorda o ministro batista, acrescentando que fraqueza, sonolência espiritual, enfermidade, culpa e condenação são reflexos de indivíduos que já estão levando uma vida pecaminosa. “É óbvio que a Bíblia recomenda que, nesses casos, a pessoa não participe da Ceia. Porém, participando ou não, o pecado em si já traz as suas consequências”, esclarece Nunes, sublinhando que a Ceia do Senhor é um momento de comunhão com Deus e com os irmãos de fé. “No cenáculo, onde aconteceu  a Última Ceia (Jo 13), Jesus lavou os pés dos discípulos. Trata-se de um resumo do ministério de Cristo: Ele mostra que veio para servir e promove um grande momento de comunhão entre eles.”

Foto: Ptnphotof / Adobe Stock

Questionado sobre o tema, o Pr. Gustavo Chiori, da Igreja da Graça na região administrativa de São Sebastião, em Brasília (DF), afirma que a Santa Ceia é como um alimento para a alma. “Quem toma será nutrido de força, fé e intimidade com Deus”, esclarece o ministro, sublinhando que a expressão não discernindo o corpo do Senhor, registrada pelo apóstolo Paulo em 1 Coríntios 11.29, significa tratar como algo banal esse momento sagrado. “Nesse caso, a pessoa estaria participando dessa cerimônia de modo automático, apenas como costume religioso, sem refletir que o pão e o vinho apontam para o Corpo de Cristo, que foi brutalmente ferido e morto naquela cruz, e, por meio de Sua ressurreição e de Sua Palavra, encontramos perdão e salvação”, ensina, acrescentando que, para o crente saber se é digno de participar da Ceia, basta reconhecer que depende inteiramente da graça divina e apresentar-se a Jesus com um coração arrependido, confiante no sacrifício da cruz e disposto a viver a vontade do Pai. “Lembrar-se de um pe­cado durante a Ceia não é um sinal para se afastar da mesa, mas um chamado do Espírito Santo para ser restaurado. Uma oração sincera é suficiente para encontrar perdão em Cristo”, afirma o líder, deixando claro que quem participa da Ceia indignamente escolhe o erro em vez do arrependimento. “A decisão obstinada do coração de permanecer no pecado é como uma rejeição voluntária à graça protetora de Deus. Tal atitude produzirá enfraquecimento espiritual e deixará essa pessoa exposta aos ataques do diabo”, conclui.

O Pr. Gustavo Chiori afirma que a Santa Ceia é como um alimento para a alma: “Quem toma será nutrido de força, fé e intimidade com Deus”
Foto: Arte de Gemini AI sobre foto de arquivo pessoal – modificada por IA

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