Bênçãos extravagantes

16/10/2026

Bênçãos extravagantes

16/10/2026

Líderes cristãos analisam redução do testemunho público e reforçam chamado bíblico para anunciar o Evangelho

Fotos: Arte de ChatGPT

Por Victor Rodrigues

Um número significativo de pessoas vive a fé de maneira discreta nos Estados Unidos. É o que aponta a pesquisa Estado do discipulado em 2025: vivendo sem vergonha, publicada em junho pelo instituto norte-americano Lifeway Research, a qual revelou que 30% dos entrevistados cristãos concordam, em algum nível, que sua fé não é conhecida por muitos colegas e amigos – mais que o dobro dos 13% registrados em 2013. Embora o estudo tenha sido realizado nos EUA, para teólogos e pastores brasileiros, o tema desperta reflexões que ultrapassam fronteiras, especialmente por causa da crescente pluralidade religiosa, das transformações culturais e das manifestações de intolerância contra os seguidores de Cristo.

O Pr. Roberto Cruvinel avalia: “Não acredito que os cristãos falem menos de Cristo por medo da rejeição, mas percebo que há um enfraquecimento da comunhão com Jesus”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Desde os primeiros séculos da Igreja, lembram estudiosos, a expressão pública do cristianismo esteve presente no avanço do Evangelho. De acordo com eles, em determinadas nações, professar a crença em Jesus nos dias de hoje significa enfrentar perseguições, rejeição social e até a morte. Em outros lugares do planeta, porém, o desafio não é a repressão, mas a discriminação. Mesmo diante desses cenários, analisam líderes evangélicos, é necessário praticar o ensino do Mestre a seus discípulos: Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas, no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus (Mt 5.14-16).

Foto: Arte sobre foto de Angelov / Adobe Stock

Questionado sobre o assunto por Graça/Show da Fé, o Pr. Roberto Cruvinel, mestre em Teologia e ministro auxiliar na Assembleia de Deus Ministério Igreja Evangélica de Barueri (IEB), em Parque dos Camargos, Barueri (SP), pontua que houve uma época em que o servo do Senhor fazia questão de apresentar a sua fé, como ensinam as Escrituras Sagradas: Que pregues a palavra, instes a tempo e fora de tempo (2 Tm 4.2a). O teólogo lamenta que, devido à Pós-Modernidade, período marcado por mudanças de paradigmas sociais, a distinção entre crentes e descrentes tem se desvanecido. Segundo ele, em países como o Brasil, essa tendência já começa a ser perceptível. “Não acredito que os cristãos falem menos de Cristo por medo da rejeição, mas percebo que há um enfraquecimento da comunhão com Jesus, o que faz os crentes nominais se afastarem das verdades bíblicas e cederem à pressão da sociedade”, avalia Cruvinel, acrescentando que, quando se vive para a glória do Todo-Poderoso, surgem os testemunhos do Deus vivo, Aquele que pode transformar tanto os indivíduos quanto a sociedade.

Além disso, o pastor assembleiano lembra que diversos textos bíblicos reforçam a importância de o cristão testemunhar sobre aquilo que experimenta em sua caminhada com o Criador, a exemplo do que o apóstolo Paulo compartilha em Romanos 1.16: Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego. “Um crente nominal não tem o desejo de compartilhar a mensagem de Cristo. Todavia, o verdadeiro servo do Senhor é levado a propagar a Palavra com coragem”, expõe, referindo-se a Atos 1.8 (ARA): Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra. Ele observa que o termo poder, no grego, é dynamis, palavra que remete à força que o cristão recebe para pregar o Evangelho, inclusive diante da possibilidade de perder a própria vida. “Que o Senhor nos dê uma Igreja que, na contramão do mundo, não se envergonhe da Palavra em tempos de crise.”

O Pr. Erick Lourenço Magalhães sinaliza: “Vivemos em uma sociedade que incentiva a satisfação imediata dos desejos e dos prazeres, enquanto o Evangelho nos chama à santidade e à obediência para cumprir a vontade do Pai”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Por sua vez, o Pr. Erick Lourenço Magalhães, auxiliar na Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Maria da Graça, na zona norte do Rio de Janeiro (RJ), verifica que, atualmente, existem muitos obstáculos para os crentes em Jesus se apresentarem em determinados ambientes – entre eles, os meios acadêmico e profissional. Para isso, precisam estar preparados para expressar sua crença (1 Pe 3.15), considerando que anunciar a Palavra é uma tarefa urgente. “Uma das maiores dificuldades é mostrar que seguir Cristo significa andar ao contrário dos valores deste mundo. Vivemos em uma sociedade que incentiva a satisfação imediata dos desejos e dos prazeres, enquanto o Evangelho nos chama à santidade e à obediência para cumprir a vontade do Pai”, sinaliza o pastor, o qual cita as palavras do apóstolo Paulo em sua carta aos Romanos para reforçar a importância do testemunho e da evangelização: De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus (Rm 10.17).

O ministro relembra o ensinamento de Jesus registrado em Mateus 5.13,14 (Vós sois o sal da terra; e, se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta, senão para se lançar fora e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte)e enfatiza que, quando os seguidores do Senhor compreendem que a vida deles pertence ao Salvador, o medo e o constrangimento de testemunhar desaparecem. Além disso, Magalhães observa que o crente não deve ter vergonha de falar de Jesus nem de propagar o Evangelho. “Quando deixamos de compartilhar a nossa crença, corremos o risco de não alcançar a maturidade espiritual que o Altíssimo deseja para nós e, assim, não cumprimos uma das maiores missões dadas pelo Senhor: ir por todo o mundo anunciando a Verdade a todos os povos (Mc 16.15)”, argumenta, esclarecendo que, pela falta de testemunho público, muitas pessoas deixam de conhecer as Boas-Novas da salvação.

Foto: Soupstock / Adobe Stock

Medo e missão – Para o sociólogo Elmir Dell’Antonio, o receio de assumir publicamente a fé cristã costuma estar associado a diferentes fatores, entre eles o medo da rejeição por parte da família ou do círculo social, a influência da cultura contemporânea, o temor de perder vínculos e espaços de convivência e, em alguns casos, de deixar de seguir uma rotina incompatível com os fundamentos ensinados pelas Escrituras Sagradas. “Existe uma inclinação global à ocultação da fé cristã. Afinal de contas, neste planeta conectado, principalmente no Ocidente, as tendências, muitas vezes, tornam-se generalizadas”, opina, lembrando que o Messias revolucionou o mundo de Sua época, assim como os cristãos que chegaram à Antioquia [da Síria, onde fica Antáquia, na Turquia] e impactaram aquele lugar, onde os crentes foram denominados “cristãos” pela primeira vez (At 11.26). “É preciso ser muito convicto e corajoso para professar uma fé considerada politicamente incorreta aos olhos do sistema em qualquer parte do mundo, inclusive no Brasil.”

O estudioso pontua que a crescente secularização – processo histórico em que a religião perde a sua influência na sociedade – pode afetar o cristão de duas maneiras: tornar a declaração pública da fé mais desafiadora ou incentivar uma crença mais convicta e reflexiva. Segundo ele, esse processo impõe uma dose grande de intolerância religiosa e perseguição ideológica a pensamentos e discursos contrários, principalmente dos crentes. “Muitos preferem se omitir a entrar em debates nos quais serão achincalhados ou, posteriormente, cancelados nas redes sociais, prática muito comum no mundo pós-moderno”, analisa Dell’Antonio, mencionando que a missão dos servos do Altíssimo deve ser a de exercer uma influência positiva na sociedade, preservando os valores éticos e orientando outros por meio do bom testemunho em palavras e atitudes. [Do editor: no dito ‘mundo pós-moderno’, a sociedade passou a duvidar de verdades absolutas, valorizando a mistura de estilos e vivendo a era da tecnologia e da globalização]

O sociólogo Elmir Dell’Antonio analisa: “Muitos preferem se omitir a entrar em debates nos quais serão achincalhados ou, posteriormente, cancelados nas redes sociais, prática muito comum no mundo pós-moderno”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Do ponto de vista missiológico [campo de estudo teológico, histórico e antropológico dedicado a analisar a natureza, os métodos e o impacto da ação missionária cristã no mundo], neste momento, existe uma espécie de normalização da fé, com aumento da frieza e do mundanismo, em contraposição aos valores bíblicos e espirituais, alerta o Pr. Renom de Azevedo, líder da Igreja Batista da Graça, no bairro Morada de Laranjeiras, na cidade de Serra (ES). De acordo com ele, está se tornando cada vez mais frequente a busca por popularidade, inclusão e aceitação, algo que, por vezes, pode ser um jeito de negar o Evangelho.

Segundo o ministro batista, há alguns anos, a maneira mais eficaz de evangelização era por meio de grandes cruzadas e do evangelismo de rua, com distribuição de folhetos com mensagens de salvação. Nessas oportunidades, o evangelizado tinha um breve contato com o evangelista, sem que houvesse qualquer vínculo ou proximidade – apenas o convite para que a pessoa procurasse a igreja mais próxima de sua casa. “Esse método é importante, porém, limitado. Estatísticas demonstram que a forma mais eficiente de pregação vem do relacionamento no contexto familiar, no trabalho ou no lazer com amigos, aproveitando momentos de alegrias ou tristezas”, pondera Azevedo, advertindo: “Se o cristão não permite ser reconhecido, perde a oportunidade de apresentar Cristo nessas ocasiões”.

O Pr. Renom de Azevedo pondera: “Se o cristão não permite ser reconhecido, perde a oportunidade de apresentar Cristo nessas ocasiões”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Na opinião do pastor, no cenário atual, o crente precisa deixar que Jesus seja refletido em todos os momentos de sua vida. Para isso, é necessário que a Igreja esteja conectada às pessoas de modo a transformá-las e, assim, fazer a diferença no mundo. Entretanto, ele constata que a diminuição do evangelismo individual, em algumas conjunturas do Brasil e de outros países, demonstra os efeitos de uma realidade que só poderá ser mudada a partir de um despertar evangelístico e estratégico do povo de Deus. “É preciso manter o foco no Ide (Mc 16.15) por meio da pregação do Evangelho de uma maneira pura, simples e eficaz”, conclui Azevedo.


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