
Especialistas lembram que a fé afasta o temor da morte e produz a esperança da vida eterna
21/10/2026
Por Leiliane Lopes
Popularizadas nas redes sociais, as chamadas “dietas bíblicas” têm atraído a atenção de pessoas interessadas em adotar uma alimentação inspirada nos costumes dos povos antigos com a intenção de emagrecer. A proposta resgata alimentos citados nas Escrituras Sagradas e privilegia opções naturais ou pouco processadas. Portanto, além das referências religiosas, esse modelo de consumo desperta interesse de quem gostaria de fazer melhores escolhas nutricionais. A ideia é optar por frutas, verduras, cereais, leguminosas e outros alimentos in natura e deixar de lado hábitos alimentares contemporâneos que incluem a ingestão de produtos ultraprocessados, ricos em açúcar e conservantes, assim como gorduras hidrogenadas e saturadas.

Entretanto, para muitos líderes cristãos, a busca por alimentação motivada por estética corporal, misturada com disciplinas espirituais, está provocando grande confusão teológica e levando muitos cristãos a adotarem restrições alimentícias severas sem acompanhamento profissional adequado. Além disso, teólogos alertam para a distorção de contextos bíblicos, o que desvirtua a mensagem. Eles citam, por exemplo, regimes como o Jejum de Daniel e a Dieta de Jesus, que seriam, na verdade, iscas para vender cursos virtuais e promover a rápida perda de peso, o que pode gerar sérios prejuízos à saúde.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Disciplina – O Pr. EricDias, líder estadual da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Roraima, concorda com os teólogos e lembra que o jejum bíblico representa um período dedicado à consagração e ao fortalecimento da vida espiritual. Segundo ele, a prática pode (e deve) ser adotada especialmente quando o cristão percebe um distanciamento ou esfriamento no relacionamento com Deus, como orienta o texto de Mateus 9.15: E disse-lhes Jesus: Podem, porventura, andar tristes os filhos das bodas, enquanto o esposo está com eles? Dias, porém, virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão. O pastor também comenta: “[o jejum] é ainda mais enriquecedor quando não somente deixamos de comer o que gostamos, ou ficamos sem comer nada, mas também, simultaneamente, separamos um tempo de conexão espiritual, como meditar na Palavra”, explica o ministro, acrescentando que o jejum não deve ser reduzido à abstinência alimentar, pois sua finalidade é espiritual, e, portanto, distingue-se dos objetivos de iniciativas relacionadas à saúde, à perda de peso ou à estética.
Para Dias, emagrecimento está relacionado principalmente a uma disciplina individual, de mudança de hábitos e adoção de uma rotina alimentar equilibrada, e não ao propósito espiritual do jejum. “Considerar, por exemplo, o jejum do profeta Daniel (Dn 1.5-20) algo saudável para o organismo é um equívoco, pois ele não deve ser confundido com o mero intento da abstinência de alimentos”, observa o pastor, reafirmando a ideia de que jejuar com a intenção de emagrecer não condiz com o genuíno objetivo bíblico.

No entanto, o ministro reconhece que a fé pode contribuir para o bem-estar e ser uma “companhia” importante no processo de cuidado com a saúde. “Mas não substitui as medidas apropriadas para garantir o desempenho regular de atividades físicas e da reeducação alimentar, os quais devem ser conduzidos com a supervisão de profissionais qualificados.”

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
O mesmo entendimento é compartilhado pelo Pr. Elias Manoel dos Santos, líder da Igreja Batista Central em São José dos Pinhais (PR), o qual define o jejum como a abstenção voluntária de alimentos, por um tempo determinado, que deve estar obrigatoriamente unida à intercessão. “Jejum sem oração é passar fome”, pontua o ministro batista, deixando claro que a intenção desse preceito espiritual é mortificar a carne e submeter o coração do homem à vontade do Altíssimo, e não barganhar com o Criador por benefícios terrenos ou resultados estéticos. Citando Mateus 6.16-18, trecho do sermão do monte, o líder defende que o Mestre condenou a postura de quem transformava o jejum em demonstração pública de religiosidade. “O ensino reforça que a fé genuína não está na aparência ou no reconhecimento dos outros, mas na transformação interior.”

O pastor batista menciona ainda a passagem de Isaías 58.1-14 — quando o Todo-Poderoso confronta o povo de Israel, que havia transformado o jejum em um ritual mecânico e egoísta — para explicar que nem toda conduta apresentada como jejum corresponde à intenção estabelecida pelo Livro Sagrado. Assim, ele critica duramente a associação de determinados tipos de jejum a promessas de emagrecimento difundidas nas redes sociais, “as quais causam distorções da mensagem bíblica quanto à real finalidade da prática anunciada nas Escrituras”. Para Elias Manoel, o relato de Jesus no deserto (Mt 4.1-11) representa o principal exemplo desse propósito: Cristo permaneceu 40 dias e 40 noites em jejum antes do início de Seu ministério público, logo após ter sido batizado por João Batista no rio Jordão. “Esse episódio evidencia que o alvo do jejum é a busca por Deus, a dependência do Pai e a preparação para cumprir a missão espiritual no Reino de Deus, e não a obtenção de benefícios físicos”, prega o ministro batista.

Foto: Divulgação / Denison Monteiro – modificada por IA
Templo do Espírito – Do ponto de vista médico-científico, não faltam alertas contra dietas milagrosas e jejuns sem acompanhamento profissional. A nutricionista Maira Duraes Bastos explica, por exemplo, que o jejum intermitente pode ser utilizado como estratégia alimentar, mas não é indicado de maneira indiscriminada. Ela esclarece que esse método consiste na alternância de períodos de alimentação e de restrição calórica, mas as condições de saúde de cada indivíduo devem ser consideradas. “É contraindicado para gestantes, lactantes, crianças, adolescentes em fase de crescimento, pessoas desnutridas e pacientes com determinadas condições metabólicas, incluindo alguns casos de diabetes”, elucida.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
A especialista também chama atenção para os chamados “desafios de internet”, que podem estimular períodos prolongados de restrição alimentar sem acompanhamento especializado. De acordo com Maira, essas propostas podem causar deficiências nutricionais, perda de massa muscular, alterações hormonais, queda de cabelo, cansaço intenso e imunidade baixa. “Os impactos também podem alcançar o funcionamento cognitivo e o equilíbrio emocional”, alerta, frisando que, entre os possíveis efeitos, estão sintomas como tontura, dor de cabeça, irritabilidade, dificuldade de concentração e alterações no sono. “O excesso de restrição na dieta pode prejudicar ainda a relação com a alimentação, aumentando os sentimentos de culpa e ansiedade e favorecendo episódios de compulsão alimentar após extensos períodos de privação.”
Contudo, quando a dieta recebe atenção profissional, os resultados aparecem. É o que relata a professora de Educação Infantil Anataniele Maria de Sousa Fagundes, 33 anos. Ela encontrou, na musculação e em uma alimentação equilibrada, uma forma de melhorar a qualidade de vida e reduzir as crises recorrentes de bronquite asmática[inflamação crônica das vias aéreas que causa o estreitamento dos brônquios, gerando falta de ar, chiado e tosse]. Casada com o professor de Educação Física Tiago Fagundes, 38 anos, a docente conta que a vida devocional ocupa lugar central em seu dia a dia: suas manhãs começam com oração e leitura da Bíblia ao lado do marido.

Durante os treinos, realizados na esteira ou com exercícios de musculação, ela, que está grávida, costuma ouvir louvores e pregações, associando o cuidado do físico à caminhada de fé. “Não se sinta pressionado pela perfeição corporal que a sociedade impõe: concentre-se em estar saudável”, enfatiza Anataniele, membro da Assembleia de Deus – Ministério do Belém, em Engenheiro Goulart, na zona leste de São Paulo (SP).
De acordo com a professora, essas mudanças trouxeram-lhe mais disposição para as tarefas cotidianas e as ações relacionadas à fé, como oração, jejum, leitura da Palavra e dedicação às atividades da igreja. A partir da própria experiência, Anataniele recomenda reduzir o consumo de produtos ultraprocessados e priorizar alimentos naturais. “Coma mais salada, verduras e frutas. Aproveite, são tantas riquezas que Deus deixou para nós: frutas naturais, verduras, alimentos que não precisam ser tão processados (como enlatados e embutidos), que só fazem mal para nossa saúde”, aconselha ela, lembrando que os efeitos de uma rotina equilibrada não se limitam à saúde física. “O bem-estar do corpo também contribui para o equilíbrio emocional e para uma maior disposição nas atividades espirituais. Um corpo saudável faz uma mente saudável. A Escritura ensina que o corpo é templo do Espírito Santo. Então, é preciso cuidar dele com boa alimentação. Quando o nosso corpo está em equilíbrio, a nossa mente também fica. Tenho mais disposição até mesmo para buscar o Senhor em oração, jejum e na leitura bíblica”, observa.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Processo de melhora de vida por meio do equilíbrio entre fé e cuidados de saúde também é relatado pela aposentada Ana Maria Ricas do Nascimento, 67 anos, obreira da Igreja da Graça no bairro Santo Antônio, em Cachoeiro do Itapemirim (ES). Após a recente morte da mãe, ela passou por uma fase de intenso sofrimento e encontrou na alimentação uma forma de extravasar a tristeza. O consumo excessivo de açúcar contribuiu para o agravamento de seu quadro físico. Com 94,6 quilos, Ana Maria enfrentava dores intensas nas articulações, registrava colesterol elevado e sentia falta de ar frequentemente. Segundo ela, a dificuldade para respirar era tamanha que não conseguia caminhar por mais de dez minutos. A luta contra o excesso de peso era acompanhada por profundas feridas emocionais ocasionadas por um divórcio ocorrido anos antes, marcado por cobranças relacionadas à aparência e à obesidade.

Entretanto, com acompanhamento médico e nutricional e a adoção de uma rotina de atividades físicas, tudo mudou. Ana Maria passou a caminhar por períodos que chegaram a uma hora e meia e participou de campanhas de oração e de jejum parcial promovidas pela Igreja, integradas ao acompanhamento profissional. Em três meses, a aposentada eliminou 14,8 kg, normalizou os indicadores de saúde (comprovados por exames médicos) e se livrou das dores nas articulações. E revela que, além dos resultados físicos, recuperou sua autoestima e reencontrou ânimo para viver. “A partir do nosso clamor, Deus mostra, passo a passo, o que fazer, e, então, agimos”, ensina Ana, que tem incentivado outras pessoas a cuidarem da saúde. “Vale a pena lutar pela vida. Atualmente, estou mais alegre, animada e otimista”, conclui.”

