Entre o autocuidado e a vaidade

20/10/2026

Entre o autocuidado e a vaidade

20/10/2026

Christmas Evans superou limitações físicas e acadêmicas e se tornou um dos maiores pregadores do País de Gales

Christmas Evans (1766-1838)
Foto: National Library of Wales / Wikimedia C_C – modificada por IA

Por Patrícia Scott*

Sem formação acadêmica ou mesmo acesso à alfabetização até os 17 anos, o Pr. Christmas Evans (1766-1838) superou a pobreza e muitas perdas para tornar-se uma das principais vozes batistas do País de Gales. Mesmo com limitações na visão, percorreu longas distâncias pregando o Evangelho e arrecadando recursos para a construção de igrejas. Ganhou projeção nacional e passou a ser conhecido como “O John Bunyan de Gales”, em referência ao escritor inglês, autor de O peregrino, devido à força de sua pregação e à maneira como comunicava verdades espirituais. Entre seus sermões mais conhecidos, está The world as a graveyard (O mundo como um cemitério), que retratava a humanidade como espiritualmente morta e dependente da misericórdia divina.

Igreja Batista de Aberduar, em Llanybydder
Foto: Reprodução / Find a Grave

Nascido em 25 de dezembro de 1766, no condado de Cardiganshire (atual Ceredigion), no País de Gales, Christmas Evans cresceu em meio à escassez e enfrentou, por volta dos oito anos de idade, o falecimento do pai, o sapateiro Samuel Evans. A morte paterna deixou a família em uma situação financeira ainda mais difícil, obrigando a mãe, Johanna Evans, a contar com o auxílio da igreja e de amigos para cuidar dos três filhos. Entretanto, diante das adversidades, Evans foi acolhido pelo tio materno, James Lewis, em uma fazenda em Llanfihangel-ar-Arth, no vale do Teifi, perto de Cardiganshire. Aquele abrigo, no entanto, tinha um preço: trabalho pesado no campo. Durante seis anos, Christmas viveu entre privações e maus-tratos. A escola, os livros e uma formação religiosa regular estavam fora de seu alcance.

Foi nesse cenário que teve início uma das transformações mais importantes de sua vida. Ainda adolescente, passou a temer a morte, justamente no momento em que ocorria um avivamento espiritual que alcançou sua região, despertando nele uma inquietação e busca por respostas. Então, quando tinha 17 anos, começou a frequentar uma Igreja Presbiteriana do vilarejo de Llandysul, e se converteu a Cristo. Naquela época, Evans ainda era analfabeto, porém, com pouco mais de um mês de aprendizado, já conseguia ler as Escrituras Sagradas em galês. Em seguida, empenhou-se em aprender inglês. Influenciado por pregadores batistas, decidiu integrar-se à denominação.

Aos 20 anos, Evans foi espancado por seis jovens, antigos companheiros de farra, e perdeu a visão do olho direito. Logo depois, teve um sonho – relacionado ao Dia do Juízo – que entendeu como um chamado para pregar as Boas-Novas. Sem diploma, treinamento teológico formal ou recursos financeiros, começou a ocupar os primeiros púlpitos. As experiências iniciais expuseram sua falta de preparo, mas as inseguranças, os questionamentos sobre a própria fé e o sentimento de inferioridade diante de outros pregadores passaram a integrar seu processo de preparação espiritual.

Martyn Lloyd-Jones (1899-1981)
Foto: Arte sobre foto de Ligonier Ministries – modificada por IA

Moldado pela fé – A busca por maior compreensão da fé também o levou a reavaliar algumas de suas convicções à luz da Palavra. Ao estudar diferentes tradições cristãs, Evans revisou seu entendimento sobre o batismo nas águas e, após examinar a Bíblia, concluiu que deveria ser rebatizado (por imersão) mediante uma profissão pessoal de fé. Assim, passou a integrar a Igreja Batista de Aberduar, em Llanybydder, no condado de Carmarthenshire. Em 1789, recebeu o convite para atuar na península de Llŷn, no norte do País de Gales, onde havia escassez de pregadores. No ano seguinte, aos 24 anos, foi ordenado ao ministério pastoral. Em 1791, Evans passou a visitar igrejas de Anglesey, maior ilha da nação galesa, e constatou que, além de pequenas, eram divididas e detinham poucos recursos.

Em 25 de dezembro de 1792, aos 26 anos, casou-se com Catherine Jones (1776-1823), mas não teve filhos. Com o passar dos anos, as viagens de Evans entre o norte e o sul do País de Gales o levaram a grandes campanhas evangelísticas, incluindo pregações ao ar livre, as quais reuniam milhares de pessoas. Ele era conhecido por transformar conceitos bíblicos em cenas, comparações e narrativas que podiam ser compreendidas por grandes públicos.

Mount Pleasant Baptist Church, em Swansea, no Sul de Gales
Foto: Reprodução / Facebook da Mount Pleasant Baptist Church

Por causa de conflitos administrativos e doutrinários em Anglesey, Christmas Evans deixou a região em agosto de 1826. Na época, opositores passaram a associá-lo ao chamado Fullerismo, corrente teológica evangélica reformada do final do século 18, desenvolvida pelo pastor batista britânico Andrew Fuller, autor de O Evangelho digno de toda aceitação (1785). Essa obra lembrou Evans de que era sua responsabilidade proclamar a Mensagem de Jesus a todos que quisessem ouvi-la. Assim, ele iniciou, no Sul do País de Gales, um novo capítulo de sua caminhada ministerial, em Caerphilly, ainda em 1826, conseguindo fazer a igreja se renovar e crescer. Dois anos depois, Evans passou um tempo em Cardiff e, em 1832, fixou-se em Caernarfon, fortalecendo e reorganizando a congregação.

Nos últimos anos de vida, continuou ativo no púlpito, sendo descrito pelo pastor e teólogo galês Martyn Lloyd-Jones (1899-1981), décadas depois, como o maior pregador que os batistas já tiveram na Grã-Bretanha. Em 16 de julho de 1838, na Mount Pleasant Baptist Church, em Swansea, cidade ao sul de Gales, Evans pregou aquele que seria seu último sermão, com base em Lucas 24.47, acerca do arrependimento e da remissão dos pecados. Christmas Evans morreu na manhã de 19 de julho de 1838, aos 71 anos, e seu corpo foi enterrado nos jardins da Capela Bethesda, em Swansea. Seu legado, de mais de cinco décadas de pregação da Palavra de Deus, entretanto, nunca será esquecido. (*Com informações de Wikipédia, Baptist History Homepage, Memória dos Batistas, Orvalho.com e Dictionary of Welsh Biography)


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