
PODER LIBERTADOR
25/09/2026
TROCARAM O BEM PELO MAL
25/09/2026
Por Marcelo Santos
Nos últimos anos, enchentes, deslizamentos, secas e tempestades têm provocado perdas humanas e materiais em diferentes regiões do Brasil. Em meio a essas tragédias, uma rede de igrejas, organizações e voluntários se mobiliza para socorrer famílias, reconstruir comunidades e oferecer esperança em lugares devastados. Esse grupo, que se reúne para atender a tais demandas por meio do programa Aliança pela Vida, é coordenado pelo missionário Cassiano Batista da Luz, 53 anos, diretor-executivo da missão internacional Servindo aos Pastores e Líderes (SEPAL) e da Aliança Evangélica Brasileira.
Casado com Eugênia Rosa e pai de quatro filhos, o também teólogo e antropólogo qualifica a ação missionária como um dos caminhos mais concretos para fortalecer a unidade da Igreja. Nesta entrevista à Graça/Show da Fé, ele fala dos desafios das igrejas frente aos eventos climáticos extremos e a respeito do papel dos evangélicos durante as situações de emergência e depois delas.
O Brasil sofreu, nos últimos quatro anos, enchentes e tragédias em cidades do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, de Pernambuco e Minas Gerais. O que esses acontecimentos revelam sobre a fragilidade das nossas cidades diante dos eventos climáticos extremos?
Essas tragédias expõem problemas históricos de planejamento urbano, ocupação de áreas de risco, desmatamento e falta de preparo para responder adequadamente às emergências. Uma pesquisa do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) mostra que muitos municípios ainda não possuem protocolos claros para situações de desastre e operam com equipes e recursos insuficientes. Outro problema grave é a falta de integração entre os diferentes atores envolvidos. Muitas vezes, governos, órgãos de Defesa Civil estaduais, bombeiros e organizações da sociedade civil atuam sem coordenação adequada. É justamente nesse espaço que as igrejas podem contribuir, por causa de sua presença nos territórios, do conhecimento das comunidades e da capacidade de mobilização rápida.
Como nasceu o programa Aliança pela Vida?
A Aliança Evangélica Brasileira, uma associação de denominações e organizações cristãs, instituições educacionais e igrejas locais no Brasil, existe para promover a unidade do Corpo de Cristo. Com o tempo, percebemos que um dos caminhos mais concretos para viver essa unidade era servirmos juntos. A missão nos aproxima. Foi nesse contexto que surgiu o programa Aliança pela Vida, iniciativa que começou a ganhar forma durante as enchentes que atingiram o Sul da Bahia no fim de 2021. Passamos a fazer a ponte entre as congregações das regiões afetadas com igrejas de outras partes do país que desejavam ajudar. Em poucas semanas, já havia dezenas de voluntários atuando em campo. A tragédia de Petrópolis, em fevereiro de 2022, confirmou que Deus estava nos chamando para ampliar esse trabalho. Desde então, temos operado nas principais emergências do país por meio de ampla rede de igrejas e voluntários.
Por que a igreja local costuma ser uma das primeiras redes de apoio quando acontece uma tragédia?
Há estudos que mostram que a maior parte das primeiras respostas vem da própria comunidade. São vizinhos ajudando vizinhos. Nesse contexto, a igreja possui características únicas: está presente em praticamente todos os municípios, conhece os moradores e sabe onde estão as famílias mais vulneráveis. Costumo resumir isso em três definições: presença, conhecimento local e propósito. Quando essas características se encontram, a igreja se torna uma ferramenta extremamente eficaz para oferecer acolhimento e socorro.
O que mais marcou o senhor nas visitas às regiões atingidas?
A dimensão da dor. Só quem esteve em uma área de desastre compreende plenamente o impacto emocional dessas situações. Perder tudo de uma só vez é devastador. Durante as enchentes no Rio Grande do Sul, ouvi relatos de pessoas idosas que passaram a vida inteira construindo suas casas e viram tudo desaparecer em poucas horas. Muitos diziam não ter mais tempo nem forças para recomeçar. Entretanto, o que mais permanece na memória são as conversas com quem perdeu parentes. O prejuízo material é muito duro, porém, ter as vidas ceifadas é incomparável. Essas histórias reforçam a importância de permanecer ao lado das famílias atingidas.
O que acontece depois que a tragédia deixa de ser notícia?
Esse talvez seja o maior desafio. Nos primeiros dias, existe mobilização nacional, cobertura da imprensa, chegada de voluntários e uma grande corrente de solidariedade. Mas, quando as câmeras vão embora, começa uma etapa muito mais longa e difícil: a reconstrução. Nesse momento, muitas famílias percebem que a ajuda prometida nem sempre chega e que reconstruir a vida pode levar anos. Por isso, temos insistido na importância da permanência. Ainda estamos presentes no Rio Grande do Sul, apoiando famílias e comunidades muito tempo depois das enchentes [ocorridas em abril e maio de 2024]. A fase mais difícil de uma tragédia nem sempre é a emergência; muitas vezes, é o que vem depois dela.
O senhor costuma dizer que a missão aproxima os cristãos. Como essas experiências têm fortalecido a unidade entre os evangélicos?
Essa é uma das cenas mais bonitas que temos visto acontecer. Em diferentes regiões do país, promovemos encontros entre pastores e líderes das áreas atingidas. Muitos deles nunca haviam conversado, apesar de estarem na mesma cidade. Quando a igreja se une para servir, as diferenças perdem importância diante da urgência da missão. Já vimos igrejas de diferentes tradições trabalhando lado a lado e compartilhando recursos e voluntários. Costumo dizer que a dor do mundo nos lembra daquilo que realmente importa. Quando compreendemos a missão como uma responsabilidade dada por Cristo, descobrimos que temos muito mais em comum do que aquilo que nos separa.
Como igrejas e pessoas podem ajudar hoje?
O primeiro passo é se informar e permanecer conectado às iniciativas que atuam diretamente nos territórios afetados. Muitas vezes, a necessidade não está apenas na doação imediata, mas também no apoio de longo prazo. Precisamos de pessoas dispostas a servir, orar, contribuir e caminhar ao lado de quem está sofrendo. As tragédias passam pelas manchetes, mas as necessidades das famílias continuam. É nesse momento que a presença do Corpo de Cristo faz toda a diferença.
Cassiano Batista da Luz
Missionário, teólogo e antropólogo


