
Minha Resposta – 324
22/07/2026
Por Victor Rodrigues
Patrimônio cultural imaterial brasileiro desde 2018, a literatura de cordel [expressão artística que mistura poesia, oralidade e artes] ganha novos significados ao unir a tradição nordestina à mensagem cristã. De origem europeia, o cordel surgiu em Portugal no século 12 e foi trazido para o Brasil pelos colonizadores, onde se consolidou no século 18.
Profundamente conectado às raízes do sertão, o pastor e missionário Diogo Araújo, 37 anos, líder da Igreja Presbiteriana no bairro Cohab, em Caridade do Piauí (PI), encontrou nessa poesia popular uma forma autêntica de comunicar o Evangelho. À frente do projeto O Verbo em Cordel, que alia criatividade, tradição e missão, Araújo reúne produções que adaptam conteúdos bíblicos para a estética cordelista, tornando-os mais compreensíveis e próximos do público local. Desse modo, ele tem como objetivo transmitir as Boas-Novas de maneira sensível ao ambiente de quem ouve, seguindo um modelo que valoriza o entendimento, o diálogo e a realidade sertaneja. “A comunicação mais eficaz é a que fala a língua do povo e respeita a sua identidade cultural”, afirma Diogo, que está prestes a lançar o livro Até o último povoado, o qual aborda justamente como a fé é comunicada.
Casado com Débora Kelly, 36, e pai de Riquelme, 18, o ministro presbiteriano conta ter recebido, por causa da iniciativa, homenagens de instituições educacionais, como o Colégio Sete de Setembro, em Paulo Afonso (BA), e o Colégio Estrela de Davi, em Jaboatão dos Guararapes (PE). Sua produção em literatura de cordel, aliás, ultrapassou as fronteiras do sertão nordestino e tem sido adotada por escolas cristãs de diversas regiões do Brasil como instrumento de cultura e apoio pedagógico no ensino. Professor com licenciaturas em Filosofia e História, Diogo Araújo destaca, nesta entrevista à Graça/Show da Fé, o papel desempenhado pelo cordel na obra missionária, na produção artística cristã brasileira e na formação missional no contexto sertanejo.
Como surgiu esse plano de utilização da literatura de cordel como ferramenta de evangelização?
A ideia nasceu da observação da força que a rima e a métrica possuem no imaginário popular no Nordeste, mais especificamente no sertão. Não é apenas poesia, mas também uma ferramenta didática poderosa. Percebi que, ao transformar conteúdos teológicos ou histórias bíblicas em versos de cordel, a mensagem se tornava mais acessível. O projeto surgiu, então, como uma ponte: de um lado, a profundidade da Palavra de Deus; do outro, a musicalidade e a simplicidade do folheto, que já faz parte do cotidiano do sertanejo.
Em sua opinião, de que forma o cordel contribui para tornar a mensagem bíblica mais acessível no sertão?
O sertanejo que lê ou ouve um cordel guarda os versos com muito mais facilidade, levando a mensagem do Evangelho consigo para o trabalho na roça ou para o convívio familiar. A identidade visual, a estética da xilogravura [técnica de gravura em relevo utilizada nas ilustrações do cordel], gera identificação imediata. Antes mesmo de ler a primeira estrofe, o sertanejo reconhece algo que é “dele”, o que cria uma abertura emocional para o conteúdo transmitido. Por meio da contextualização, o cordel possibilita o uso de expressões regionais e figuras de linguagem presentes no dia a dia da comunidade local. A proposta não é alterar a mensagem bíblica, mas aproximar os cenários das Escrituras Sagradas da realidade do semiárido, tornando os ensinos mais concretos e acessíveis ao cotidiano das pessoas.
Por que adaptar o Evangelho ao contexto e à linguagem local é tão importante na obra missionária?
Existem razões cruciais que tornam essa estratégia tão fundamental. Uma delas é justamente a derrubada de barreiras invisíveis. Muitas vezes, o sertanejo associa a religiosidade formal a algo distante, vindo de grandes centros ou do exterior. No entanto, quando ele ouve o Evangelho em cordel ou vê uma ilustração que remete à sua terra, percebe que Deus não é um estrangeiro: pelo contrário, Ele entende o sotaque e conhece a poeira do seu caminho. Assim como o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14), a mensagem precisa “se fazer sertão” para habitar no coração do sertanejo. Usar a linguagem local é seguir o exemplo bíblico de falar ao coração do homem a partir da sua própria realidade. O trabalho missionário saudável não deve anular a cultura de um povo, e sim redimi-la e valorizá-la, preservando a sua identidade. Adaptar a linguagem não é “facilitar” a mensagem, mas torná-la relevante.
Há falta de brasilidade na produção artística cristã atual?
Sim. A arte cristã brasileira ainda reproduz muitos modelos estrangeiros, afastando-se da identidade cultural do povo daqui. Para transformar essa realidade, é necessário valorizar elementos nacionais, como a sanfona, o cordel e a xilogravura, entendendo-os como instrumentos de comunicação do Evangelho. A mudança virá quando os artistas cristãos pararem de copiar o que vem de fora e passarem a ouvir o som do próprio chão. Deus nos deu uma cultura rica e diversa para que pudéssemos adorá-Lo com a nossa voz. A relevância da arte cristã cresce quando o brasileiro se reconhece nela e percebe que o Senhor também Se revela por meio da sua cultura, do seu sotaque e da sua história.
De que maneira seu novo livro, Até o último povoado, pode contribuir para formar missionários atentos à cultura, à arte e à história do sertão nordestino?
Ele representa o amadurecimento das obras que escrevi anteriormente, como Tiago cordelizado e Discipulado direto e prático. Diferentemente dos primeiros livros, que traduzem a mensagem bíblica para o cordel, Até o último povoado funciona como um guia para missionários compreenderem a história, a arte e a cultura sertaneja. A proposta é mostrar que o sertão não deve ser visto apenas pela lente da carência social, mas também por sua riqueza cultural, permitindo que a mensagem do Evangelho seja comunicada com respeito à identidade local. A arte não é um acessório da missão, é o seu coração pulsante.
Diogo Araújo
Pastor e criador do projeto O Verbo em Cordel


