
Missionária fala de projeto que evangeliza crianças indígenas em diferentes aldeias no Maranhão
10/05/2026
Por Victor Rodrigues
Impulsividade, indecisão, resistência a mudanças, perfeccionismo, medo do fracasso, falta de foco, baixa autoestima e procrastinação são alguns dos comportamentos ou traços de personalidade considerados agentes sabotadores, os quais afetam milhões de pessoas ao redor do mundo. Segundo recente estudo realizado pela Universidade de New South Wales (UNSW), em Sydney, na Austrália, esses padrões comportamentais podem comprometer o desenvolvimento emocional. O coordenador da pesquisa, o neurocientista comportamental Philip Jean-Richard Dit Bressel, aponta que determinados indivíduos tendem a repetir os mesmos modelos de procedimentos. De acordo com ele, tais repetições estão relacionadas a uma falha sutil e persistente na conexão entre ações e consequências. O levantamento mostra que algumas pessoas não aprendem com as experiências, ainda que estejam atentas e motivadas a evitar danos, porque não percebem que o próprio comportamento está causando o problema. Esse processo, denominado autossabotagem emocional, leva-as a reiterar falhas e, assim, enfrentar dificuldades no crescimento pessoal, familiar e profissional.

Foto: Divulgação / Universidade de New South Wales (UNSW) – modificada por IA
Psicólogos, terapeutas, psicanalistas e neurocientistas vêm se debruçando sobre o tema, em especial profissionais que seguem as áreas da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) – que se refere aos pensamentos automáticos disfuncionais (crenças negativas) – e da Psicologia Positiva, que analisa vozes internas geradoras de estresse, ansiedade e insegurança. De maneira geral, eles definem a autossabotagem emocional como um comportamento, consciente ou inconsciente, no qual o indivíduo coloca obstáculos nas tarefas importantes que precisa realizar ou na maneira como ele se vê e se posiciona diante do mundo. Para tais especialistas, a autossabotagem pode ser descrita como a combinação de sentimentos e pensamentos negativos acompanhados de comportamentos autodestrutivos, motivados por traumas herdados na infância ou na adolescência, por exemplo.
Cura das autolimitações – O Pr. Paulo Eduardo Gomes, líder da Primeira Igreja Batista de São Paulo (SP), no bairro de Campos Elíseos, região central da capital paulista, lembra que esse problema comportamental também está presente na Bíblia, a qual revela histórias de pessoas que cometeram falhas ou se sentiram derrotadas por causa de suas próprias limitações, como Abraão, Davi, Elias e Jeremias. O ministro batista destaca que, a exemplo desses personagens bíblicos, cada crente deve reconhecer sua humanidade na caminhada cristã e entender que a cura das autolimitações pode começar dentro do lar. “Quando os membros da família vencem certos pudores e se abrem uns com os outros – marido e esposa, filhos e pais – a respeito de suas dificuldades e imperfeições, os relacionamentos se tornam mais honestos, e, assim, aumentam as chances de a casa se transformar em um espaço de escuta e cura”, declara Gomes, asseverando que o ato de ouvir e oferecer apoio já representa um caminho importante para romper barreiras emocionais e manifestar solidariedade, mesmo quando não há respostas imediatas. “É preciso haver mais franqueza e receptividade nos lares e mais tempo de convivência”, aconselha o pastor, ressaltando que a oração é uma ferramenta eficaz para ressignificar limitações pessoais, porque é bem mais do que pedir bênçãos. “Trata-se de um meio de conexão com Deus e de experiência com a Sua presença, o que transforma o modo de perceber a própria vida e os relacionamentos. A partir da comunhão com o Senhor, é possível compreender melhor o próximo e enxergá-lo sob a ótica do Criador.” [Leia, no final desta reportagem, o quadro Atitude inimiga]

já representa um caminho importante
Foto: Arquivo pessoal
Ao ser indagado sobre o assunto por nossa reportagem, o neuropsicopedagogo e pastor Evandro Pinheiro da Costa, integrante da Convenção Evangélica do Estado do Rio de Janeiro (CEDERJ), alertou para a diferença entre emoções – “respostas neuroquímicas automáticas a estímulos” – e sentimentos: processos mentais avaliativos e duradouros que podem ser tratados e elaborados. “Raiva, tristeza, alegria e medo fazem parte do cotidiano humano, e a própria Bíblia orienta sobre como lidar com esses impactos: Irai-vos e não pequeis (Ef 4.26)”, prega, citando o ensinamento do apóstolo Paulo em sua carta aos Efésios. Devido à complexidade do problema, Evandro aconselha a intervenção da prática terapêutica e da psicoeducação no contexto familiar, argumentando que, quando bem aplicadas, essas estratégias podem alterar condutas, reduzir a autossabotagem emocional e fortalecer a qualidade das conexões familiares. “O adoecimento emocional de um membro da família pode influenciar diretamente os demais”, pontua, acrescentando que, para romper ciclos de dor, “é necessário desejar conscientemente a mudança, reconhecendo aquilo que precisa ser aprimorado, sendo esse o primeiro passo para a transformação”. Por outro lado, Costa argumenta que buscar comunhão com Deus no lar favorece o autoconhecimento e permite o desenvolvimento das virtudes espirituais descritas em Gálatas 5.22 (NTLH): Amor, alegria, paz, paciência, delicadeza, bondade, fidelidade, humildade e domínio próprio.

Construção emocional – A psicóloga Elaine Ventura, membro do Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos (CPPC), chama a atenção para um paradoxo: em alguns casos, o acolhimento familiar tende a reduzir as pressões da autossabotagem; já em outros, é justamente no seio da família que surgem as dificuldades na área das emoções. Isso ocorre devido à existência de vínculos profundos e gatilhos emocionais. “O ambiente doméstico contribui de maneira positiva ou negativa para a construção emocional dos filhos e dos cônjuges. Quando há insegurança e instabilidade, o medo de perder o amor e o pertencimento, por exemplo, pode gerar sofrimento interno”, observa a especialista, acrescentando que o reforço à autocrítica excessiva e o perfeccionismo desgastam os vínculos familiares, transformando a casa em um espaço de cobrança, e não de descanso emocional. “O erro é malvisto, as emoções ficam reprimidas, e a comunicação se torna mais crítica do que afetuosa. Com o tempo, as relações perdem leveza, intimidade e segurança.” Ventura lembra que “lares saudáveis não são perfeitos, mas seguros”, possibilitando a seus membros errarem, dialogarem e serem aceitos. De acordo com a profissional, as fases emocionais repetitivas raramente são intencionais, e, por isso, é importante trabalhar a autoconsciência. “Permite que o indivíduo saia do modo automático e compreenda seus sentimentos, seus gatilhos e suas reações. Com a autopercepção, o ciclo começa a enfraquecer. A pessoa deixa de pensar ‘eu sou assim’ e passa a entender ‘eu estou assim neste momento’, o que cria espaço para escolhas diferentes e mais saudáveis.”

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Para o Pr. Luiz Paulo Santos, auxiliar na sede estadual da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) no Rio Grande do Sul, padrões emocionais, como culpa, medo e silêncio, costumam se repetir ao longo das gerações quando não são devidamente enfrentados e tratados. Segundo ele, a fé cristã se apresenta como instrumento fundamental para operar a cura espiritual e emocional. “A transformação ocorre quando a família passa a entender sua identidade à luz das Escrituras Sagradas”, explica Santos, acrescentando que, por meio da oração familiar, um ambiente seguro se estabelece, no qual o coração se expressa antes do orgulho. “Assim, o clima do lar é mudado: a presença de Deus suaviza palavras, rompe resistências e favorece a humildade entre todos”, assegura Santos, sublinhando que a prática da intercessão com a família reunida em casa contribui para o desenvolvimento da escuta antes da resposta, diminui conflitos, restaura a confiança e fortalece a transparência. “Além disso, coloca o Senhor no centro dos relacionamentos e constrói uma memória espiritual significativa na vida dos filhos”, pondera.

Foto: Arquivo pessoal
Esse mesmo ponto de vista é compartilhado pelo Pr. Sérgio de Freitas, da Igreja da Graça no bairro de Serra Sede, em Serra (ES). Ele assinala que a autossabotagem emocional, em muitos casos, está associada a uma identidade fragilizada em decorrência de feridas emocionais. Freitas também esclarece que as práticas espirituais no ambiente familiar favorecem o diálogo, a restauração e o fortalecimento da confiança entre os membros. “Compartilhar momentos de intercessão é presenciar a queda de máscaras. É difícil alimentar ressentimentos contra alguém que esteve contigo na presença de Deus”, opina, acrescentando que a oração permite que o Espírito Santo atue como Mediador dos conflitos, promovendo reconciliação, restaurando a confiança e colocando todos na mesma posição de dependência da graça do Altíssimo.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
ATITUDE INIMIGA
A Bíblia apresenta diversos personagens que, por escolha própria, medo ou arrogância, sabotaram o próprio sucesso, a felicidade ou a comunhão com o Senhor. O exemplo deles mostra que a autossabotagem, geralmente, surge de pecados, como a soberba e a desobediência. Entretanto, as Escrituras Sagradas também revelam que, caso exista arrependimento, há perdão e restauração. Confira:
– Sara: por impaciência, negou-se a esperar a promessa divina de ter um filho (Isaque) e propôs que seu marido, Abrão, tivesse um filho (Ismael) com sua serva Agar. Essa decisão impulsiva quebrou a paz familiar, gerando conflitos de linhagens que duram até hoje (Gn 16.3,4).
– A mulher de Ló: foi instruída a não olhar para trás ao fugir da destruição de Sodoma. No entanto, por apego exagerado ao passado, desobedeceu à ordem divina e foi transformada em estátua de sal (Gn 19.17-26).
– Davi: considerado o homem segundo o coração de Deus, ele cometeu adultério com Bate-Seba (2 Sm 11.1-5) e planejou a morte de Urias (2 Sm 11.6-17). Tais atos geraram consequências para a sua família e o seu reinado. Contudo, após arrepender-se, tornou-se pai de Salomão, rei de Israel.
– Jonas: prejudicou sua missão profética ao fugir da ordem de Deus para ir a Nínive, movido por preconceito e teimosia. Então, acabou sendo engolido por um grande peixe (Jn 1.2-17). Mas, após esse episódio, obedeceu à ordenança divina e pregou entre os ninivitas (Jn 3.1-10).
– Pedro: o discípulo sabotou sua própria lealdade ao negar Jesus três vezes por medo, logo após afirmar que morreria por Ele (Lc 22.54-71). Pedro foi dominado pelo temor, semelhante ao momento em que afundou ao andar sobre as águas. Depois, entretanto, tornou-se um dos líderes da Igreja.
(Fonte: Bíblia Sagrada)


