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Foto: Wikimedia – modificada por IA
Por Patrícia Scott*
Arqueólogo escocês e estudioso do Novo Testamento, William Mitchell Ramsay (1851-1939) foi reconhecido ainda em vida como a principal autoridade de seu tempo em Topografia, Antiguidades e História da Ásia Menor. Formado no rigor das tradições acadêmicas do século 19, conquistou prestígio a partir de extensas pesquisas de campo no mundo greco-romano. Seu ponto de partida, porém, era marcadamente cético: Ramsay, um ateu convicto, iniciou suas investigações com o objetivo de demonstrar que determinados relatos históricos da Bíblia eram tardios e imprecisos. A Arqueologia, entretanto, conduziu-o a um resultado inesperado, levando-o a revisar suas convicções e a reconhecer a notável precisão histórica dos textos que pretendia refutar.


Fotos: Reprodução / Amazon
Nascido em 15 de março de 1851, em Glasgow, na Escócia, era de uma família de tradição jurídica. Filho caçula de Thomas Ramsay e Jane Mitchell Ramsay, William perdeu o pai ainda na infância, aos seis anos. Contudo, tal ausência tão prematura não prejudicou sua formação escolar. Estudou no Aberdeen Gymnasium, posteriormente na Universidade de Aberdeen e, após concluir a graduação, prosseguiu os estudos na St. John’s College, em Oxford (Inglaterra), e na Universidade de Göttingen, na Alemanha. Desde então, Ramsay demonstrava clara inclinação para a pesquisa e a descoberta histórica, mais do que para a carreira docente tradicional.
Casou-se em 1878 com a escocesa Agnes Dick (1850-1936), com quem teve cinco filhos. Logo depois de seu casamento, recebeu uma bolsa de estudos de três anos do Exeter College, em Cambridge (Inglaterra), para realizar pesquisas in loco em terras gregas. Em 1880, o casal partiu para a Ásia Menor, onde William iniciou uma série de expedições arqueológicas que o levaram a percorrer antigas rotas romanas, identificar cidades mencionadas no Novo Testamento e analisar inscrições, moedas e estruturas administrativas.
Sob a influência da Escola de Tübingen, que questionava a confiabilidade histórica do Novo Testamento, Ramsay acreditava que o livro de Atos dos Apóstolos, assim como o evangelho de Lucas, continha erros geográficos e políticos. Seu objetivo era confirmar essa hipótese por meio da Arqueologia. No entanto, encontrou, nas escavações, consistência entre os registros materiais e os detalhes descritos por Lucas e percebeu que os títulos oficiais, as divisões administrativas e as referências regionais relatados pelo evangelista se mostravam historicamente corretos.
Professor e escritor – Paralelamente às pesquisas de campo, Ramsey se tornou o primeiro professor de Arte Clássica e Arqueologia de Oxford, em 1885. No ano seguinte, foi nomeado professor régio de Humanidades na Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, cargo que ocupou até sua aposentadoria em 1911. William passava a maior parte de seus intervalos de aula em longas viagens à Ásia Menor, onde continuava suas buscas como arqueólogo. O trabalho de campo o levou a vários locais, como Galácia, Frígia e Licaônia, regiões frequentemente mencionadas pelo apóstolo Paulo nas Sagradas Escrituras.

Foto: Josemiguelsangar / Adobe Stock
As expedições de William também resultaram na confirmação de localizações de cidades antigas que se alinhavam com as referências geográficas de Lucas (At 13.14) e inscrições que reforçavam detalhes políticos e culturais registrados em Atos, como a presença de sinagogas e estruturas governamentais. No final do século 19, ele descobriu dois dos mais importantes monumentos frígios [povo indo-europeu que habitou a região Centro-Ocidental da Anatólia (atual Turquia) entre os séculos 12 e 7 a.C]: as tumbas de pedra Aslantas (Pedra do Leão) e Yılantas (Pedra da Cobra), localizadas perto do centro da cidade de Afyon, na Turquia, e o Epitáfio de Seikilos, peça musical completa mais antiga conhecida no mundo.
As evidências arqueológicas fizeram William mudar de ideia e se tornar convicto de que a Escritura é uma fonte histórica confiável, levando-o a experimentar uma transformação pessoal profunda: a conversão ao Evangelho. Tornou-se, assim, um dos maiores defensores da Bíblia e do Novo Testamento, escrevendo mais de 22 livros, como The church in the Roman Empire before A.D. 170 (1893), Impressions of Turkey (1897), Was Christ born at Bethlehem? – A study on the credibility of St. Luke (1898), Studies in the history and art of the eastern provinces of the Roman Empire (1907) e The bearing of recent discovery on the trustworthiness of the New Testament (1914). Seus escritos servem até hoje como ponte entre o rigor acadêmico e a fé, demonstrando que a investigação histórica reforça a confiança na narrativa bíblica.
Reconhecido internacionalmente, William recebeu a Medalha Vitoriana da Royal Geographical Society (1906) por suas pioneiras explorações arqueológicas e geográficas na Ásia Menor, as quais comprovaram a autenticidade do Novo Testamento e a realidade da Igreja na época greco-romana. No mesmo ano, ganhou outra homenagem: no quarto centenário da fundação da Universidade de Aberdeen, recebeu a condecoração de cavaleiro por suas realizações e seus serviços prestados ao mundo acadêmico. William Mitchell Ramsay também foi um dos membros originais da Academia Britânica, instituição de Ciências Sociais voltada para pesquisas, fundada em 1902.
Ramsay morreu em 20 de abril de 1939, aos 88 anos, em Bournemouth, na Inglaterra, deixando um legado de fé e estudos arqueológicos e históricos do Novo Testamento. (*Com informações de Wikipédia, Bible Hub, Got Questions e The University of Chicago)


