Atenção ao cérebro
09/03/2026
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Vivência do Evangelho determina o comportamento irrepreensível do crente

Foto: Arte sobre foto de Anastasia Styagailo / Adobe Stock

Por Marcelo Santos

Pesquisadores das áreas de Sociologia e Comunicação têm identificado uma mudança expressiva no modo de falar de setores do segmento evangélico no Brasil, especialmente entre grupos pentecostais e neopentecostais. Esses estudiosos afirmam que, ao longo das últimas décadas, esse linguajar teria se tornado mais enérgico e combativo. Anteriormente, dizem os especialistas, o crente costumava ser percebido socialmente como alguém distinto, muitas vezes afastado de práticas correntes da vida contemporânea. Esse quadro, entretanto, teria se transformado de tal modo a incorporar o uso de uma “linguagem de guerra” contra crenças ou discursos que estão em desacordo com a Palavra de Deus.

O Prof. Roney Cozzer comenta: “Viver e praticar a ética do Evangelho é, de fato, ser comprometido com a leitura e o estudo do Texto Sagrado. Não há como praticar algo que não se conhece”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Para o Prof. Roney Cozzer, doutorando em Teologia Sistemático-Pastoral pela PUC-Rio, a Igreja não está imune às transformações culturais, nem permanece alheia ao contexto do mundo em que está inserida. “Ela é uma instituição social que assimila valores e comportamentos sociais”, explana ele, acrescentando que isso explica parte das mudanças comportamentais notadas entre os cristãos nos últimos anos, inclusive no modo de falar, vestir-se e responder ao outro. Para Cozzer, o ponto de partida para uma análise dessas alterações na atitude cristã deve estar condicionado à relação do crente com as Escrituras. “Viver e praticar a ética do Evangelho é, de fato, ser comprometido com a leitura e o estudo do Texto Sagrado. Não há como praticar algo que não se conhece”, comenta o professor, destacando que vivenciar as Boas-Novas não exige erudição teológica. “Para ser um praticante do ensino de Jesus Cristo, não é preciso se tornar um acadêmico, conhecedor profundo da Bíblia. Isso seria uma elitização da fé”, argumenta.

Segundo o docente, ao avaliarmos o comportamento do crente, é necessário lembrar que há valores que permanecem como coluna central da fé, conceitos atemporais e supraculturais que fazem parte da ética bíblica, a qual não está condicionada a uma época ou a uma região específica. Esses princípios, sustenta Roney, estão condensados nas palavras do Salvador. “Mais do que discutir que tipo de roupa usar ou que bebida consumir, a Igreja se aproxima dos valores cristãos quando leva em conta a prática do bem”, assevera ele, assinalando que Cristo ensinou toda a Lei em dois mandamentos, registrados em Mateus 22.37-39: E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. “Quem ama não mente, não trai, não é violento. O amor é a chave da ética bíblica, não a imposição cega de dogmas”, recorda Cozzer, destacando que a vivência cristã é demonstrada especialmente no cotidiano e exige autenticidade e coragem. “Caráter é aquilo que somos no escuro. Ou seja, eu faço o que devo não por imposição externa, e sim por ser quem sou”, define o estudioso, deixando claro que essa autenticidade não pode e não deve se transformar em moralismo. “Viver conforme a Bíblia não me dá o direito de policiar o próximo. Antes disso, capacita-me a corrigir a mim mesmo, a melhorar como pessoa e como cristão, e os outros haverão de notar.”

A Pra. Rosa Maria Dantas diz que liberdade e fé precisam caminhar juntas
Foto: Arquivo Graça / Marcelo Santos – modificada por IA

Postura remodelada – Nesse contexto de adaptações culturais, também se insere a discussão sobre o comportamento das mulheres cristãs nos últimos anos. Para a Pra. Rosa Maria Dantas, auxiliar na sede estadual da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em São Paulo, a trajetória feminina nas congregações reflete, nitidamente, as transformações sociais. “Historicamente, elas eram orientadas por padrões mais rígidos de conduta, especialmente em relação ao modo de se vestir, falar e se posicionar em ambientes públicos devido aos valores culturais e religiosos que marcaram uma época”, avalia, ressalvando que esse quadro mudou a olhos vistos, principalmente por conta da autonomia conquistada por muitas mulheres e pelo aumento da participação feminina nos diferentes espaços. Rosa frisa, entretanto, que é importante esclarecer que liberdade e fé precisam caminhar juntas. “É necessário refletir quanto ao equilíbrio entre ambas, e a modéstia continua sendo uma expressão de respeito a Deus e ao próximo.”

A dona de casa Maria de Jesus Monteiro Graças opina: “Muitos cristãos, para aparentarem ser mais liberais ou modernos, adotaram comportamentos que são desaprovados pela Bíblia, como falar palavrões ou frequentar baladas”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Preocupada com tantas alterações no meio evangélico, a dona de casa Maria de Jesus Monteiro Graças, 50 anos, membro da sede estadual da IIGD em São Paulo, lamenta que as mulheres cristãs, nos dias de hoje, têm adotado roupas mais justas e transparentes, buscando se encaixar em estilos mundanos de sensualidade. “Isso é reflexo de falta de conhecimento bíblico”, afirma ela, sugerindo que, por causa das pressões por aceitação social, diversos seguidores de Jesus decidiram flexibilizar alguns valores essenciais. “Muitos cristãos, para aparentarem ser mais liberais ou modernos, adotaram comportamentos que são desaprovados pela Bíblia, como falar palavrões ou frequentar baladas. Isso é um erro porque, ao assumirem tal postura, afastam-se do Espírito Santo”, opina.

O Pr. José Ribamar Passos argumenta: “As pessoas falam sobre Cristo, mas as atitudes delas não correspondem à vida que professam. Isso não é transformação”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Ao testemunhar sua jornada de fé marcada por uma mudança concreta de comportamento, o Pr. José Ribamar Passos, da Assembleia de Deus – Ministério Madureira em Miguel Badra, na cidade de Suzano (SP), lembra que, antes da conversão, seu linguajar era agressivo, tinha uma postura explosiva, e o consumo de bebidas alcoólicas fazia parte da sua rotina. “Quando me converti, em 1993, em Belém (PA), percebi que a transformação da minha vida não era apenas espiritual, mas também comportamental”, relata, admitindo que a primeira atitude que tomou foi procurar mudar a maneira de falar e a forma como tratava as pessoas e se relacionava com elas.

Foto: Arte sobre foto de Monkey Business / Adobe Stock

Ribamar destaca que a conversão a Cristo é, obrigatoriamente, sinônimo de mudança de direção. Por isso, ele explica que o indivíduo que se converte precisa deixar o velho homem para trás e iniciar um novo caminho, vivendo de acordo com os ensinos do Mestre. “Quem não muda de vida não pode dizer que realmente se converteu”, garante o ministro assembleiano, enfatizando a ideia de que a conversão muda o indivíduo radicalmente.

Questionado pela reportagem de Graça/Show da Fé sobre a avaliação que faz do cenário atual, ele demonstrou preocupação por constatar que há uma enorme distância entre discurso e prática. “As pessoas falam sobre Cristo, mas as atitudes delas não correspondem à vida que professam. Isso não é transformação. A verdadeira mudança vem de dentro, refletindo nas atitudes, nas palavras e nos relacionamentos”, argumenta.

O Pr. David Pereira explica: “Quando alguém nasce de novo, a mudança é inevitável porque a natureza interior é alterada”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Mudança interior – Por sua vez, o Pr. David Pereira, da Igreja Missionária Evangélica Maranata no Méier, zona norte do Rio de Janeiro (RJ), frisa que a ética cristã se revela na coerência entre fé e vida cotidiana. “Não se trata de algo superficial, de aderir a um conjunto de regras, mas de uma verdadeira remodelagem no coração. Quando alguém nasce de novo, a mudança é inevitável, porque a natureza interior é alterada”, explica. No entanto, ele lamenta que, nesses tempos em que o discurso cristão tem estado tão presente no espaço público, a conduta nem sempre manifeste os ensinamentos de Jesus. “A mudança comportamental, todavia, é uma evidência de que a pessoa passou pela verdadeira conversão, na qual o Espírito Santo transforma o coração e a mente”, observa. [Leia, no final desta reportagem, O que a Bíblia diz]

Essa correspondência entre a aceitação do Evangelho, aos 21 anos, e a mudança de rumo é a história de gente como o Pr. Paulo Henrique Nepomuceno Pontes, da Igreja da Graça em Miracatu, na região do Vale do Ribeira, no interior do estado de São Paulo. Ele conta que sua vida é marcada por uma série de libertações. “Era epilético, tinha síndrome do pânico, sofria de depressão e usava drogas esporadicamente, mas fui liberto das doenças e do vício da bebida e do cigarro”, recorda-se, testemunhando que, desde então, nunca se afastou da fé. Entretanto, o pastor reconhece que alguns (maus) hábitos foram mais difíceis de abandonar. “Quando entrei na Igreja, eu já não bebia. Larguei a bebida depois de passar por uma forte crise convulsiva. Porém, o desejo pelo álcool permaneceu cerca de um ano e, pelo cigarro, mais ou menos dois anos e meio. Quando via alguém fumando, ficava com água na boca”, admite, aproveitando a oportunidade para deixar um recado: a conversão está intimamente ligada à determinação. “Eu optei por não me aproximar daquilo que me tirava da presença do Senhor.”

O Pr. Paulo Henrique Nepomuceno Pontes conta que sua vida é marcada por uma série de libertações e reconhece: “Demorou em torno de três anos para que eu fosse totalmente liberto”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Para Paulo Henrique, o desafio seguinte foi adequar sua linguagem. Ele relata que, mesmo tendo nascido de novo e passado pelas águas batismais, continuava falando palavrão com bastante frequência. “Demorou em torno de três anos para que eu fosse totalmente liberto”, reconhece, ressaltando que precisou exercitar muita vigilância e buscar ser sensível à voz de Deus. “Chegou um momento em que entendi que o meu interior havia sido transformado. Não foi apenas parar de falar palavrões, mas também perceber que eles não faziam mais parte da minha natureza”, afirma o pregador, relembrando que, à época, o Espírito Santo sinalizava que era hora de mudar o linguajar. “Assim, fui me policiando até o dia em que palavras torpes não saíram mais da minha boca”, expõe, lembrando que o mesmo se deu com a mentira. “Eu mentia bastante, porém fui mudando, pedindo perdão ao Senhor, até o momento em que parei.”

Indagado acerca do comportamento atual dos seguidores de Cristo, o ministro se mostrou bastante preocupado, especialmente por observar a mistura entre o santo e o profano. “Há pessoas que aparentam santidade, mas, quando se olha de perto a essência, são bem diferentes”, revela Paulo, que, para exemplificar, compartilhou um episódio no qual precisou conter um homem embriagado que entrou na Igreja buscando confusão e, em seguida, teve de impedir que um pastor partisse para a agressão física. “A gente deve ser instrumento de Deus, e não alguém que age com violência”, diz o pastor, acrescentando que o testemunho de vida continua sendo o diferencial. “Se a pessoa nasceu de novo, ela precisa apresentar as mudanças a partir dos frutos. Jesus falou: O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito, conforme registra o texto de João 3.6”, pontua o ministro, concluindo que, quando há transformação da natureza interior, o próprio Espírito Santo trabalha no coração do indivíduo para que as mudanças de hábito sejam legítimas.


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