
Apoio de Israel
04/03/2026
Por Victor Rodrigues
Atualmente, o Brasil registra mais de cinco mil crianças e adolescentes disponíveis para adoção. Ao mesmo tempo, pelo menos 32 mil pretendentes aguardam na fila de espera. Os dados – divulgados pelo Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), administrado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) – mostram ainda que, desde 2019, foram concluídas mais de 31 mil adoções em todo o país. Entre os habilitados, a preferência é por crianças de até oito anos, com destaque para a faixa etária de dois a quatro anos, que concentra mais de 11 mil cadastros. Segundo o CNJ, o processo de adoção é gratuito e precisa ser iniciado na Vara de Infância e Juventude mais próxima da residência dos futuros pais. Estes devem ter, no mínimo, 18 anos para se habilitarem à adoção, independentemente do estado civil, desde que seja respeitada a diferença de 16 anos entre quem deseja adotar e a criança ou o adolescente a ser acolhido. Entretanto, especialistas alertam que o perfil desejado pelos adotantes pode impactar significativamente o tempo de espera. Adotar uma criança mais velha ou com deficiência, por exemplo, geralmente, leva menos tempo do que um recém-nascido típico.

Nas Sagradas Escrituras, a adoção é tratada como um ato de amor, e o cuidado dos órfãos, uma responsabilidade cristã (Tg 1.27). Presente em algumas das histórias mais marcantes da Bíblia, o acolhimento atravessa a trajetória de personagens, como Moisés, adotado pela filha do Faraó (Êx 2.10), e Samuel, que cresceu sob os cuidados do profeta Eli, mostrando que um gesto de amparo constrói vínculos afetivos duradouros (1 Sm 3.6). O tema reaparece quando Davi acolhe Mefibosete (2 Sm 9.1-13), filho de seu amigo Jônatas, manifestando, por meio desse ato, compromisso, proteção e amor ao próximo. No entanto, o exemplo mais expressivo é o de Jesus – filho adotivo de José, o carpinteiro (Lc 3.23) –, concebido por Maria pelo poder do Espírito Santo (Lc 1.35; Mt 1.18-20).
Autores, teólogos e pastores assinalam que o princípio da adoção ocupa lugar central na teologia cristã, uma vez que apresenta Deus como Aquele que acolhe e reconhece o ser humano como filho amado. No Novo Testamento, essa compreensão é resumida em Romanos 8.15: Porque não recebestes o espírito de escravidão, para, outra vez, estardes em temor, mas recebestes o espírito de adoção de filhos, pelo qual clamamos: Aba, Pai. O teólogo e pastor Derek Prince (1915-2003) trata do assunto em seu livro Órfãos, viúvas, pobres e oprimidos (Graça Editorial), demonstrando que o Altíssimo nutre um amor incondicional pelos órfãos, pessoas que se encontram em posição de vulnerabilidade social.

Foto: Arquivo pessoal
Prince pontua que o Criador Se revela como Pai dessas pessoas (Sl 68.5) e garante que Deus coloca a indiferença em relação a eles no mesmo patamar da idolatria e do adultério. Citando o profeta Isaías, o pastor busca reforçar a ideia de que é fundamental praticar justiça em relação aos que não têm pai nem mãe: Os teus príncipes são rebeldes e companheiros de ladrões; cada um deles ama os subornos e corre após salários; não fazem justiça ao órfão(Is 1.23). O autor escreve ainda que faltam pregações a respeito do compromisso cristão com os órfãos e lembra que a Bíblia define religião pura e sem mácula (Tg 1.27 – ARA) justamente esse cuidado com quem fica sem pai nem mãe. A chave para a felicidade não é ser amado, mas ter a quem amar. É isso que torna a vida interessante. Outro ponto levantado por Derek remete à necessidade humana de pertencer a uma família. Pode haver todos os tipos de programa social, mas não há substituto para o que o Senhor estabeleceu. O caminho de Deus é a família. Ninguém jamais inventou algo que a substitua. É um privilégio ser parte de uma família. [Leia, ao final desta reportagem, o quadro Amparo divino]

Foto: Arquivo pessoal
Laços eternos – A assistente social Nara Célia Batista, que atua há cinco anos no projeto Graça em Ação, da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD), observa que muitas famílias carregam uma visão idealizada sobre a adoção. “O ser humano não pode ser tratado como uma mercadoria passível de escolha e de devolução caso não atenda às suas expectativas”, diz ela, alertando que os pretendentes à adoção precisam receber informações claras e confiáveis sobre as exigências inerentes ao processo. Dessa maneira, explica Nara, a percepção da realidade nua e crua frequentemente entra em conflito com as concepções preconcebidas e com o idealismo difundido pelo senso comum. “Adotar exige sentimento, responsabilidade, paciência e respeito”, avisa a especialista, esclarecendo que o possível adotante precisa saber que acolher uma criança vai além do afeto. “Amar é uma decisão que envolve aprendizado, compromisso e transforma a vida tanto de quem oferece um lar quanto daquele que chega à família. O ato de adoção não se encerra em si mesmo”, pondera ela, acrescentando que há etapas e desafios a vencer e objetivos a ser alcançados com o tempo.

Para muitos casais cristãos, a adoção representa uma expressão concreta do amor de Deus manifestado pelo acolhimento familiar. Seguindo esse pensamento, estão o técnico de instrumentação Matheus Christo, 33 anos, e a dona de casa Rafaela Christo, 30, membros da Igreja Batista Memorial, no Centro de Linhares (ES). Eles, que já eram pais da pequena Maya, de sete anos, quando decidiram ampliar a família, explicam que a decisão de adotar não foi por acaso. Segundo Rafaela, atendiam a um chamado que acreditam ter recebido de Deus há muitos anos. “A expectativa foi tão intensa quanto a gestação biológica. Foi tudo maravilhoso de viver”, relata a mãe de Murilo, adotado aos quatro meses (hoje, com um ano e meio de idade). Para o casal, a fé no Senhor teve papel fundamental na superação das inseguranças. “Jesus tirou todo o temor do nosso coração e nos deu a certeza de que Ele estava no controle, mostrando que a história do nosso filho já era de sucesso”, compartilha Rafaela. Por sua vez, Matheus comenta que Murilo é mais que um filho: é a resposta de oração e o presente do Senhor que transformou toda a família. “Pela fé, aprendemos que adotar é tão legítimo quanto gerar, e que o amor não escolhe caminhos.”

Foto: Arquivo pessoal
De modo semelhante, a jornada de adoção vivenciada pelo perito em sinistro Elton Antônio Cotto de Paula, 59 anos, e pela microempreendedora Ana Bandeira Terra, 48 anos, teve a fé como alicerce fundamental. Embora conscientes de que a caminhada poderia ser longa e marcada por grandes desafios, o casal – membro da Igreja Batista Central, no bairro de Fátima, em Serra (ES) – vivenciou a chegada de Anna Eloá, atualmente com oito anos, de maneira serena e afetuosa. “Desde o primeiro dia, conseguimos enxergar o cuidado de Deus”, recorda-se Ana, admitindo que, antes da adoção, a dúvida e a falta de confiança fizeram parte daquele período de espera pela realização do sonho, mas ressalvando que a esperança de iniciar um novo ciclo transformador sempre prevaleceu. De acordo com Elton, a certeza na providência divina foi o que sustentou e tranquilizou o casal. “A cada dia, vivemos algo novo e belo. Ouvir ‘mamãe’ e ‘papai’ é indescritível”, sublinha ele, que incentiva aqueles que pensam em adotar. “Orem e coloquem esse desejo nas mãos do Senhor. Não permitam que a ansiedade ou os relatos negativos de outras pessoas determinem a sua caminhada. Vale a pena esperar e confiar”, garante.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
De acordo com o Pr. Henrique Miranda, líder estadual da IIGD na Bahia, a adoção é muito mais que um ato social ou jurídico, é a expressão direta de um princípio bíblico que mostra o Criador como Pai adotivo de todos os que nEle creem. “O Senhor não deseja que Seus filhos vivam sem referência paterna, e, por isso, Ele mesmo nos adotou por intermédio de Jesus Cristo”, afirma o ministro, citando a passagem de Efésios 1.5 (e nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade). “O Messias entregou a própria vida por amor à humanidade, mesmo ciente das falhas humanas”, acrescenta Miranda, lembrando do texto de Romanos 5.8 (Mas Deus prova o seu amor para conosco em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores). Ele enfatiza que casais interessados na adoção de uma criança ou um adolescente devem estar fundamentados no amor, aquele descrito na Bíblia como paciente e bondoso (1 Co 13.4-7), permitindo que o discernimento espiritual conduza essa decisão. “É essencial que cada pessoa busque no Todo-Poderoso o entendimento do Seu propósito, agindo com sabedoria e na direção do Senhor.”

Foto: Arquivo pessoal
Por sua vez, o Pr. Athirson Freitas, auxiliar na sede estadual da Igreja da Graça em Porto Velho (RO), reafirma que a adoção é uma evidência concreta do cuidado de Deus para com os órfãos, conforme está dito no Salmo 68.5,6: Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus no seu lugar santo. Deus faz que o solitário viva em família; liberta aqueles que estão presos em grilhões; mas os rebeldes habitam em terra seca. Para Freitas, os casais que decidem adotar precisam ter convicção de que a decisão tomada por eles está em sintonia com a vontade divina. Além disso, segundo ele, os futuros pais devem desenvolver a paciência para que consigam lidar com crianças que, muitas vezes, carregam traumas e inseguranças. “Como cristãos, precisamos andar em conformidade com a Palavra de Deus e, ao mesmo tempo, cumprir todo o processo legal diante da Justiça”, pontua o ministro, asseverando que compreender o sacrifício de Cristo na cruz e Seu infinito amor faz da adoção “a oportunidade de proporcionar uma vida permeada por amor e esperança”, permitindo a reconstrução de histórias em um ambiente de pertencimento, cuidado e proteção.
AMPARO DIVINO
Ao longo das Escrituras Sagradas, os órfãos são apresentados como alvo do cuidado especial de Deus, que Se revela como Pai, protetor e defensor dos mais vulneráveis. Sendo assim, ampará-los deve ser encarado não apenas como compaixão, mas também como um chamado à justiça e ao amor. Aqui, compilamos alguns versículos sobre o tema:
– A religião pura e imaculada para com Deus, o Pai, é esta: visitar os órfãos(Tg 1.27).
– Pai de órfãos e juiz de viúvas é Deus no seu lugar santo (Sl 68.5).
– Aprendei a fazer o bem; praticai o que é reto; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão(Is 1.17).
– Defendei o pobre e o órfão; fazei justiça ao aflito e necessitado (Sl 82.3).
– Porque eu livrava o miserável, que clamava, como também o órfão que não tinha quem o socorresse (Jó 29.12).
– A nenhuma viúva nem órfão afligireis. Se de alguma maneira os afligirdes, e eles clamarem a mim, eu certamente ouvirei o seu clamor, e a minha ira se acenderá, e vos matarei à espada; e vossas mulheres ficarão viúvas, e vossos filhos, órfãos(Êx 22.22-24).
– E, sendo o menino já grande, ela o trouxe à filha de Faraó, a qual o adotou; e chamou o seu nome Moisés e disse: Porque das águas o tenho tirado(Êx 2.10).
– Este criara a Hadassa (que é Ester, filha do seu tio), porque não tinha pai nem mãe; e era moça bela de aparência e formosa à vista; e, morrendo seu pai e sua mãe, Mardoqueu a tomara por sua filha(Et 2.7).
– E a irmã de Tafnes lhe deu seu filho Genubate, o qual Tafnes criou na casa de Faraó; e Genubate estava na casa de Faraó, entre os filhos de Faraó (1 Rs 11.20).
– E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade (Ef 1.5).
(Fonte: Bíblia Sagrada)


