
Hábitos benéficos
13/03/2026
Por Lilia Barros
Desde os primórdios da Reforma Protestante, no século 16, a música tem um lugar de destaque. O teólogo e ex-monge alemão Martinho Lutero (1483-1546), que iniciou o protestantismo com suas famosas 95 teses, revolucionou o culto ao incluir hinos nas línguas locais, permitindo, assim, que a congregação cantasse as músicas que eram entoadas. Os estudiosos afirmam que essa mudança não foi apenas musical, mas também teológica, pois visava aproximar a Palavra de Deus do povo. Bem mais tarde, a partir da fusão de hinos tradicionais dos séculos 18 e 19 com a musicalidade das igrejas protestantes negras estadunidenses, surgiria o movimento gospel, no início do século 20. Desde então, ao longo das últimas décadas, as canções cristãs ganharam novas versões. Além dos hinos tradicionais, compilados em hinários, como a Harpa cristã e o Cantor cristão, o povo de Deus passou a ouvir e cantar músicas em estilos tão diversos quanto o pop rock, o worship, o forró e o pagode, que se tornaram parte integrante da liturgia das celebrações e da difusão do Evangelho.

Foto: Giorgio Morara / Adobe Stock
Pesquisadores lembram que, nas Sagradas Escrituras, a música é fundamental na busca da comunhão com Deus, pois serve para o propósito da adoração, por meio dos louvores, e funciona como um canal de edificação e expressão de sentimentos. Ela existe desde a criação (Jó 38.4-7). A Bíblia menciona Jubal como o primeiro músico, sendo apresentado em Gênesis 4.21 como o pai de todos os que tocam harpa e órgão, e registra um hinário próprio, expresso no livro de Salmos. Especialistas destacam que a música foi utilizada por figuras como Davi para louvar e acalmar. Era entoada com acompanhamento de instrumentos de cordas, sopro e percussão a fim de glorificar a Deus e alicerçar a fé.
O Antigo Testamento registra que a profetisa Miriã, irmã de Arão e Moisés, liderou as mulheres israelitas em cânticos e danças com tamborins para celebrar a libertação do Egito e a vitória de Deus sobre os egípcios no mar Vermelho, expressando alegria pela intervenção divina (Êx 15.20,21). Além disso, o Livro Santo cita o trabalho dos levitas, pessoas consagradas para levar a arca do Senhor e que escolheram cantores, com instrumentos, para que se fizessem ouvir, levantando a voz com alegria (1 Cr 15.16). No Novo Testamento, o apóstolo Paulo instrui sobre o uso de salmos, hinos e cânticos espirituais para edificar a Igreja (Ef 5.19; Cl 3.16).

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Para o regente Adair Tadeu Alves do Nascimento, bacharel em Música Sacra, as Escrituras deixam evidente a universalidade da música, em particular, quando lemos o Salmo 96.1: Cantai ao Senhor um cântico novo, cantai ao Senhor, todos os moradores da terra. “Essa convocação não tem fronteiras, alcança todos os povos e todas as línguas”, afirma o maestro, acrescentando que as canções afetam as emoções “porque dialogam com o que o Criador semeou em cada pessoa: a capacidade de perceber o belo, buscar a verdade e responder ao sagrado”. No entanto, ele esclarece que a música encontra um limite: “a impossibilidade de salvar o homem, atribuição exclusiva de Jesus (At 4.11,12)”.
Na avaliação de Adair, quando se trata de musicalidade, o risco surge no momento em que a canção conduz o ouvinte por caminhos que distanciam o coração da presença de Jesus, algo que não tem relação com o ritmo, a melodia, os acordes ou a letra. “O problema reside na mensagem transmitida, a qual provoca impacto na alma, especialmente quando carrega distorções teológicas. Algumas reforçam a violência, a sensualidade desordenada, a arrogância ou as práticas que fragilizam a fé”, argumenta o musicista, lembrando que o ouvido é uma porta. “Discernir aquilo que se escuta é uma forma de cuidado espiritual consigo”, ensina.

Foto: Arquivo pessoal
Lembranças emocionais – Segundo o psiquiatra e psicanalista Pedro Onari, ao estimular a liberação de neurotransmissores, como dopamina e endorfina, responsáveis por reduzir o estresse e a sensação de dor e favorecer a concentração, a música pode colaborar de maneira significativa para melhorar a saúde física e mental. Ele pontua que, diferentemente da palavra, que passa inicialmente pelo campo racional, a canção atinge o indivíduo de modo mais imediato, despertando respostas corporais e emocionais antes mesmo de qualquer elaboração consciente. “Ela exerce influência direta sobre os sentimentos e, por consequência, sobre o comportamento humano”, explica o médico, complementando que, sob a perspectiva neuropsicológica e psicanalítica, o som funciona como um estímulo sensorial capaz de acessar áreas profundas do cérebro relacionadas às emoções e à memória afetiva. “Isso se dá porque as ondas sonoras geram ressonâncias físicas no corpo, influenciando o ritmo cardíaco, a respiração e o estado geral de excitação ou relaxamento.”

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De acordo com o especialista, determinadas melodias e certos ritmos ou timbres podem ativar lembranças emocionais armazenadas desde a infância, tanto positivas quanto negativas. Por isso, diz ele, a música pode proporcionar conforto, esperança e alegria, mas também angústia, ansiedade e tristeza, dependendo do histórico emocional de cada um. Esse impacto, segundo Onari, pode trazer equilíbrio ou levar a reações impulsivas, a depender de cada indivíduo. “Canções, portanto, não são neutras: têm a capacidade de facilitar estados internos que orientam atitudes, decisões e vínculos”, frisa ele, adicionando, todavia, que se trata de uma “ferramenta que pode ajudar a reduzir defesas psíquicas, facilitar o contato com sentimentos reprimidos e promover estados de maior segurança emocional, como também reduzir a tensão”.

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Indagado pela reportagem de Graça/Show da Fé sobre o efeito que a música tem dentro da igreja, Onari foi direto. Para o psiquiatra, ela tem o poder significativo de congregar, acolher e criar pertencimento. “O louvor abre portas que, muitas vezes, só a Palavra não consegue, especialmente para os que chegam feridos emocionalmente ou distantes da fé”, expõe, alertando, entretanto, que a música não pode e não deve ocupar o lugar central da fé cristã, pois este pertence aos ensinos de Jesus, da Palavra do Senhor, e à transformação interior.
Seguindo a mesma linha de pensamento, o maestro Agenor Ribeiro, pastor auxiliar na Primeira Igreja Batista da Praia da Costa, em Vila Velha (ES), argumenta que a música na congregação vai muito além de preencher o tempo do culto. Por meio dela, as pessoas são conduzidas a Cristo, achegando-se ao Senhor. “As canções ajudam a ensinar a fé, fortalecem a caminhada cristã e abrem espaço para o Espírito Santo agir com liberdade”, observa o regente, acrescentando que um hino é capaz de consolar, animar, confrontar e exercer poder espiritual. “A Palavra mostra que, quando Davi tocava harpa, o espírito maligno que atormentava Saul se retirava, e o rei sentia alívio e paz (1 Sm 16.23). A música de Davi acalmava os sintomas emocionais de Saul, demonstrando o poder terapêutico e espiritual da melodia.” De acordo com Ribeiro, esse registro bíblico revela que aquele conforto pessoal gerado pela música não era fruto do som ou de uma técnica, mas de unção e propósito. “A canção acalmava a mente, o coração e ainda trazia libertação espiritual”, avalia o estudioso, o qual cita outro impacto da música descrito na Palavra de Deus, quando Paulo e Silas estavam cantando hinos na prisão (At 16.25). “As portas se abriram, culminando na salvação do carcereiro e de sua família – o que significa que a música foi ferramenta de libertação e evangelização.”

Foto: Arquivo pessoal
O Pr. Idelvan Anunciação, líder regional da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Corumbá (MS), concorda que os ritmos musicais exercem influência sobre toda a humanidade e lembra que a origem da música está relacionada aos primórdios da existência humana. “Flautas feitas de ossos e tambores feitos de pele de animais, por exemplo, originaram os instrumentos, demonstrando as primeiras referências da influência da música na vida das pessoas”, observa o ministro. Ele sublinha que, a partir daquele tempo, a musicalidade passou a exercer papel social fundamental na comunicação e na expressão cultural das comunidades, abrangendo encontros, celebrações e ritos religiosos. Com o passar do tempo, recorda-se o pastor, sua relevância foi sendo ampliada. “Atualmente, é empregada em tratamentos médicos, auxiliando, por exemplo, em casos de ansiedade e depressão, na reabilitação de pacientes que sofreram acidente vascular cerebral (AVC) e no tratamento do mal de Alzheimer. Contribui também para o relaxamento mental e para o afastamento de pensamentos negativos e estimula a liberação de neurotransmissores, como a dopamina e a endorfina, reduzindo o estresse, a dor, e favorecendo a concentração”, enumera.
Alterações na alma – O Pr. João Antônio de Souza Filho, da Assembleia de Deus em Floresta, na cidade de Porto Alegre (RS), cita o que Aristóteles (384-322 a.C.), um dos filósofos mais influentes da Grécia Antiga, escreveu, no Livro VIII de sua obra Política, acerca da capacidade da música de influenciar o caráter e as emoções, deixando claro que a canção não serve apenas para o prazer ou o relaxamento, mas também proporciona alterações na alma, como raiva, mansidão, coragem e moderação. “Estudiosos consideram que ela é capaz de provocar mudanças até na matéria, o que remete à derrubada dos muros de Jericó realizada ao som de trombetas”, argumenta o ministro assembleiano, citando o texto bíblico de Josué 6.1-20.

Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Para ele, há outro ponto que precisa ser considerado. “Quando uma pessoa enche sua mente e seu coração com determinadas canções, estas podem prejudicar ou alterar sua fé, resultando na contaminação da sua adoração no culto ao Senhor”, alerta, esclarecendo, entretanto, que apenas dois fatores produzem a conversão: a Palavra de Deus e a ação do Espírito Santo. “A música é um canal para que essas duas ações ocorram, mas, em si mesma, não produz a conversão. Emociona, levando ao choro, provoca e anima as pessoas a irem à frente durante o culto, mas não proporciona salvação”, declara o pastor, lembrando que somente Cristo é capaz de salvar alguém do inferno.
Já o Pr. Nilton Tuller, da Igreja Molivi (Movimento para Libertação de Vidas) no Parque Residencial Aeroporto, em Maringá (PR), constatou que há uma linguagem musical universal quando esteve no chamado Jardim dos Cristãos, ao visitar Israel, onde acontecem cultos em idiomas diferentes. “Estávamos cantando o louvor Ressuscitou, em português, mas, atrás de mim, havia coreanos, ingleses e alemães, em uma unção impressionante”, relembra-se o presidente da Ordem de Pastores Evangélicos de Maringá e membro do grupo de estudo Hinologia Cristã.

Tuller conta que Dona Célia, mãe do cantor Dinho, um dos componentes do Mamonas Assassinas [que, com os demais integrantes da banda, faleceu em 1996 em virtude da queda do avião em que viajavam], deixou de frequentar a Assembleia de Deus após a ascensão dos jovens no cenário musical. “Porém, um dia, ela estava passando em frente ao templo, e eu, naquele momento, cantava um dos meus hinos, Vaso novo. Ela ouviu, entrou, converteu-se e, hoje, dá testemunho daquela bênção em muitos lugares do Brasil”, enfatiza ele, que é autor de 134 hinos.
O ministro lembra que Israel, em tempos de guerra, colocava, muitas vezes, o grupo de louvor à frente da batalha, e Deus derrubava o inimigo. No entanto, Tuller assevera que o poder de persuasão da música pode servir para fazer o bem, mas também pode ser instrumento de maldade. “O diabo usa canções para encher o cérebro de iniquidade e programar o pecado, o suicídio, por exemplo”, alerta o pastor, destacando que existem três tipos de músicas: para o espírito, para a alma e para a carne. “O primeiro enche o nosso espírito como se o Céu descesse até nós. O segundo pode ser secular: se não houver pornografia, não é pecado. Já o terceiro é mundano, nojento e diabólico”, conclui, mostrando que a música, para o crente, deve ser uma expressão de amor e de rendição ao Criador, a refletir a sua dependência do Senhor e a sua confiança nEle, na condição de um verdadeiro adorador (Jo 4.23,24).


