Palavras na infância podem definir o adulto
07/04/2026
Palavras na infância podem definir o adulto
07/04/2026

Fé digital? Especialistas afirmam que era virtual estaria moldando as vivências dos jovens com Deus

Foto: Arte de ChatGPT sobre foto de witsarut / Adobe Stock

Por Lilia Barros

As vivências com Deus e a expressão da fé cristã entre os jovens evangélicos, segundo especialistas, passaram por uma profunda trans­formação com o advento da era digital – caracterizada pela transição de um modelo exclusivamente presencial para um ambiente híbrido, chamado de figital, ou seja, do físico somado à esfera digitalizada. Para esses estudiosos, as redes sociais (TikTok, Instagram e YouTube, por exemplo), a inteligência artificial (IA) e as plataformas de streaming reconfiguraram a maneira como as novas gerações consomem conteúdo religioso, como as congregações estão sendo formadas e quais ferramentas a juventude está usando para anunciar a Palavra, impactando, assim, amizades, hábitos sociais e a vida espiritual.

O neuropsicopedagogo David Milheiros Matheus analisa: “É natural que a fé também encontre novas linguagens, o que pode ser positivo, pois amplia o alcance da mensagem”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

De acordo com o sociólogo Carlos Eduardo Souza Aguiar, autor do livro A sacralidade digital: religiões e religiosidade na época das redes (Editora Annablume), a internet marca o início de uma nova forma de conexão com o sagrado: Afinal, defende-se, fundamentalmente, que há entre o homem e o sagrado uma relação comunicativa, portanto, à medida que o suporte comunicativo dessa relação se transforma, se percebe uma mudança também no modo de experimentar o sagrado. Para o pesquisador Jorge Miklos, doutor em Comunicação e mestre em Ciências da Religião, a tecnologia e a teologia não estão separadas. Em seu artigo O sagrado nas redes virtuais: a experiência religiosa na era das conexões entre o midiático e o religioso, Miklos lembra que os novos meios de comunicação criam uma sociabilidade densa, elaborando um ambiente que pode qualificar-se de espiritual pela união que transcende o tempo e o espaço.

Na opinião do neuropsicopedagogo David Milheiros Matheus, a era digital tem impactado diretamente a maneira como os jovens evangélicos expressam o cristianismo. Segundo ele, tal mudança é esperada, uma vez que a cultura é dinâmica, e a forma de comunicação evolui com o tempo. “É natural que a fé também encontre novas linguagens, o que pode ser positivo, pois amplia o alcance da mensagem”, analisa, acrescentando que muito do que antes acontecia apenas nas igrejas agora também está presente nas redes sociais – em vídeos, lives e podcasts. “Os recursos digitais têm sido usados para fazer estudos bíblicos, devocionais e até cultos on-line, o que evidencia um grande potencial para o fortalecimento da fé e para evangelização”, assinala Matheus, que é pastor de crianças, adolescentes e jovens na Igreja Batista Itacuruçá, em Mangaratiba (RJ).

A pedagoga Cassiana Tardivo assevera: “O conteúdo consumido nas redes gera um movimento que incentiva influenciadores a soltarem a voz e chegarem a um número maior de pessoas”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

De acordo com o ministro batista, os meios digitais facilitam o trânsito da informação e criam condições para aproximar as pessoas. “Muitos jovens usam a internet como ferramenta para compartilhar mensagens, testemunhos e convidar outras pessoas a conhecer Jesus. Assim, permitem que o Evangelho alcance lugares aonde talvez não chegasse de outra forma”, observa. Entretanto, o especialista lembra que o uso dos meios digitais para comunicação do Evangelho requer bem mais do que habilidade. “Exige discernimento para evitar que a essência da Palavra não se perca em meio à velocidade e à superficialidade que, muitas vezes, marcam o contexto digital”, avalia o pastor, asseverando que o universo virtual pode gerar superficialidade na vivência espiritual e até confusão doutrinária. “É fundamental conferir se o que está sendo ensinado está em conformidade com as Escrituras Sagradas. A tecnologia deve ser um instrumento, não um substituto da fé experimentada de modo profundo”, alerta ele, reforçando que cabe à Igreja um papel imprescindível na orientação dos jovens, especialmente no desenvolvimento do senso crítico espiritual. “A fidelidade aos princípios bíblicos não acontece automaticamente: precisa ser cultivada por intermédio de uma vida devocional consistente e pelo encontro presencial da comunidade cristã.”

Foto: Divulgação / YouVersion

Propósito e estratégia – Por sua vez, a pedagoga Cassiana Tardivo, especialista em dependência tecnológica, argumenta que muitos jovens utilizam os formatos digitais para ouvir louvores e pregações da Palavra. Na opinião dela, apesar de o conteúdo cristão na web ser bastante acessível, há o risco de a juventude se deparar com estudos superficiais e sem reflexão. Para a especialista, é necessário buscar aprendizados com fontes verdadeiras e manter uma comunhão direta com Deus. “O conteúdo consumido nas redes gera um movimento que incentiva influenciadores a soltarem a voz e chegarem a um número maior de pessoas”, assevera. No entanto, ela sinaliza que é preciso evitar debates, críticas e discussões improdutivas que possam transmitir a imagem de que a Igreja é intolerante e dividida. “Além disso, há o risco de transformar a fé em exibicionismo, proclamando um ‘Evangelho estético’ que não promove transformação.” Outro cuidado, destaca Cassiana, é não se tornar apenas um consumidor virtual da fé. “Devemos manter comunhão pessoal com Deus, sem intermediários”, avisa a profissional de Educação, reforçando a ideia de que nada na internet é neutro. “Todo conteúdo carrega uma intenção. Por isso, devemos avaliar criticamente o que se consome, examinando o que está por trás da mensagem e se ela contraria a nossa fé, de maneira a guardar nosso coração, tal como aconselha Provérbios 4.23 (Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida).”

O líder estadual do JQV da Igreja da Graça em Sergipe, Allefy Romario de Moura, afirma que a juventude lança mão das redes sociais para evangelizar por meio de vídeos, músicas e mensagens bíblicas: “usam a tecnologia sem abrir mão daquilo que creem”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Fazendo coro com a pedagoga, o líder estadual do ministério Jovens que Vencem (JQV) da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Sergipe, Allefy Romario de Moura, afirma que a juventude lança mão das redes sociais para evangelizar por meio de vídeos, músicas e mensagens bíblicas. Para ele, muitos jovens aproveitam as facilidades do meio digital para compartilhar o Evangelho e, dessa forma, encorajar outras pessoas. “A fé deve ser vivenciada diariamente e não apenas publicada. A internet deve complementar, mas não substituir a vida cristã”, sublinha, lembrando que distrações e valores contrários à Bíblia são desafios constantes. Citando o conhecido texto de Romanos 12.2, Moura pontua que o cristão é chamado a não se conformar com o mundo, mas a transformar-se pela renovação da mente. “Apesar de existirem tantas influências negativas, muitos jovens seguidores de Jesus permanecem firmes nos princípios bíblicos e usam a tecnologia sem abrir mão daquilo que creem”, frisa o líder, completando que deve haver uma constante vigilância espiritual para cumprir aquilo que o apóstolo João exorta em Apocalipse 2.10: Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.

O Pr. David Wilson Barbosa Altoé argumenta que “a utilização dos dispositivos tecnológicos requer estratégia e responsabilidade, como também compromisso com a fidelidade às Escrituras”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Na opinião do Pr. David Wilson Barbosa Altoé, da Igreja Família, no bairro Ideal, em São Mateus (ES), a juventude não deve encarar sozinha o desafio de expressar a fé no espaço virtual. Ele afirma que tanto a igreja como a família exercem papel vital no discipulado e devem ensinar os jovens a filtrar os conteúdos nocivos ao crescimento espiritual. Ao mesmo tempo, Altoé ressalta que as novas gerações transformaram os ambientes digitais em um campo missionário. “Encontraram novas formas de compartilhar suas crenças alinhadas à caminhada com Deus”, atesta o ministro, complementando que, hoje, a experiência de fé não está mais restrita apenas à esfera física do templo: está presente também nos cenários virtuais, que se tornaram importantes lugares de divulgação e de expansão da vida cristã, alcançando diferentes públicos. “Por isso, a utilização dos dispositivos tecnológicos requer estratégia e responsabilidade, como também compromisso com a fidelidade às Escrituras, que deve ser apresentada a todos”, argumenta.

O líder estadual do JQV no Amapá, João Rafael Matos da Cruz, adverte: “Equilíbrio e vigilância são essenciais para lidar com conteúdos que contrariam os valores cristãos”
Foto: Divulgação

O ministro observa também que muitos jovens ainda não compreenderam plenamente o potencial evangelístico das interfaces digitais [elementos que proporcionam uma ligação física ou lógica entre dois sistemas] ou não se sentem preparados para ocupar uma posição de ampla visibilidade. “Há grande oferta de assuntos que não são saudáveis nem alinhados aos princípios bíblicos, o que torna indispensável o discernimento”, prega, referindo-se ao fato de que tais conteúdos podem estimular comparações, relativizar a verdade das Escrituras e moldar uma fé firmada em tendências, e não na Palavra. “Isso cria um padrão na vida espiritual, e, por meio dele, tudo é feito de maneira rápida e superficial, sem criar uma conexão real, profunda e duradoura”, pondera o pastor, lamentando que exista inclusive um consumo de informações, distribuídas em alta velocidade, com conteúdo raso. Além disso, o líder critica a existência de uma espécie de “pastoreio” apenas on-line, algo que, segundo ele, não substitui a comunhão, o discipulado e a vivência prática da fé, e causa prejuízos espirituais. “O problema não está na tecnologia em si, mas na forma como é consumida, especialmente quando há o risco de flexibilizar valores para se adequar à cultura digital dominante”, pontua.

O líder de jovens da sede estadual da IIGD em Minas Gerais, o Pr. Wedson Herculano Martins, enfatiza: “A fé passou também a ocupar a internet com uma linguagem mais acessível”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Para o líder estadual do Jovens que Vencem da Igreja da Graça no Amapá, João Rafael Matos da Cruz, a vida cristã se tornou mais compartilhada e dinâmica nas redes sociais, mas também mais exposta a distrações. “Equilíbrio e vigilância são essenciais para lidar com conteúdos que contrariam os valores cristãos”, adverte Cruz, o qual recomenda uma filtragem dos posts, a priorização da mensagem do Evangelho, a vida de oração e o uso da internet com propósito. “As mídias digitais influenciam a linguagem, o formato dos cultos e a expressão da fé, tanto de maneira positiva quanto negativa. Por isso, o ecossistema on-line exige maior cuidado quanto ao conteúdo consumido”, realça Cruz, ressalvando que boa parte da juventude cristã faz uso da internet para amadurecer espiritualmente, graças a um vasto campo de boas informações teológicas. 

Nesse contexto, o líder de jovens da sede estadual da IIGD em Minas Gerais, o Pr. Wedson Herculano Martins, avalia que as postagens cristãs – com diversificadas abordagens – atingem pessoas que talvez nunca visitassem uma igreja evangélica. “A fé passou também a ocupar a internet com uma linguagem mais acessível”, enfatiza. O pastor declara, porém, que nem tudo o que é popular edifica o cristão, já que o Evangelho, transformador de vidas, inclusive no digital, não se molda ao mundo. “Ao mesmo tempo, existe o risco de a fé cristã se tornar mais performática – movida pela aprovação alheia – do que praticada”, alerta Wedson, apontando que a falta de discipulado e de ensino bíblico sólido gera relativização dos princípios basilares do cristianismo para se adequarem ao discurso dominante. Contudo, em meio a tantos desafios e riscos, Martins acredita que é possível usar essas novas linguagens e plataformas digitais com segurança. “Quando a Bíblia é a base, a presença no ciberespaço não compromete a fé. Pelo contrário: os canais virtuais facilitam a busca pelos ensinamentos da Palavra de Deus e ainda alicerçam as conexões espirituais”, conclui.


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *