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Pastores e especialistas defendem a adoção de limites e regras na educação dos filhos

Foto: Shomixer / Gerada com IA / Adobe Stock

Por Leiliane Lopes

Lidar com frustrações desde a infância é uma etapa central da formação emocional do indivíduo, segundo especialistas. No campo científico, pesquisas indicam que a exposição a esse sentimento contribui para o desenvolvimento do córtex pré-frontal – área do cérebro associada ao autocontrole e à tomada de decisões. Experimentos clássicos da Psicologia também sustentam essa perspectiva. Um dos mais conhecidos é o Teste do Marshmallow, conduzido pelo psicólogo austro-americano Walter Mischel (1930-2018) entre o final da década de 1960 e o início dos anos 1970 na Universidade de Stanford, na Califórnia (EUA). O estudo demonstrou que crianças capazes de adiar recompensas imediatas tendem a apresentar, na vida adulta, melhores indicadores acadêmicos, maior equilíbrio emocional e mais habilidades para lidar com o estresse e as frustrações. Para Mischel e outros pesquisadores, o enfrentamento gradual de obstáculos funciona como “treinamento” para o cérebro, fortalecendo conexões neurais ligadas à regulação das emoções. Sem esse processo, alertam eles, há maior probabilidade de a pessoa passar por dificuldades emocionais na adolescência, apresentando quadros de ansiedade e depressão que poderão se agravar na maturidade.

Walter Mischel
Foto: Divulgação / Objetiva – modificada por IA

Para a psicopedagoga Mayara Nogueira, especialista em transtornos comportamentais, a superproteção gera dependência disfuncional na criança e dificulta a construção de uma identidade estável. De acordo com ela, como o cérebro infantil ainda não se desenvolveu plenamente, o papel dos pais é ensinar aos filhos que frustrações são inevitáveis. “Não lidar com a contrariedade na infância pode desencadear, na fase adulta, a busca por maneiras inadequadas de aliviar a insatisfação, como ingerir grandes quantidades de álcool, apostar dinheiro em jogos e comer desenfreadamente”, observa a profissional, membro da Igreja Batista do Bosque, em Rio Branco (AC). Na opinião de Mayara, para evitar os comportamentos disruptivos [condutas negativas, desafiadoras ou agressivas que interrompem o ambiente social, escolar ou familiar], os responsáveis devem manter a calma e utilizar as consequências educativas, ensinando à criança a refletir sobre suas ações e a reparar danos. “Auxiliar os filhos a identificar os próprios sentimentos e estimular a comunicação são passos essenciais. Em vez de impor punições severas, desenvolver rotinas e atividades estruturadas pode reduzir episódios de atitudes inadequadas.”

A psicopedagoga Mayara Nogueira diz que a superproteção gera dependência disfuncional na criança e dificulta a construção de uma identidade estável
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

A psicopedagoga Katia Campos Braatz faz coro com Mayara Nogueira e sinaliza que há uma diferença crucial entre a negativa autoritária dos pais e o ato de educar. Ela explica que o “não” deve ser ferramenta de formação emocional, e não de rejeição. “É a oportunidade de ensinar autorregulação emocional”, esclarece Braatz, que é favorável à chamada educação por princípios – abordagem pedagógica cristã fundamentada em ensinamentos bíblicos. Segundo ela, o foco deve ser o autogoverno, ou seja, a capacidade de conduzir as reações diante do que não se pode controlar. Para Katia, esse aprendizado deve começar cedo, por volta dos dois anos, fase em que se inicia a compreensão de limites. “Na hora da birra, o recomendável é manter a firmeza sem perder o acolhimento, validando o sentimento, mas não o comportamento inadequado”, aconselha, deixando claro que “frustração não é trauma, mas um treino emocional”. De acordo com a especialista, o maior risco não está na negativa, mas em poupar os filhos de qualquer dificuldade. “Infância sem limites gera adultos com baixa tolerância e dificuldade de adaptação. Educar não é evitar o sofrimento: é preparar o caráter para que ele o enfrente com estrutura emocional”, pondera Braatz, membro da Igreja Família no bairro Iporanga, em Sorocaba (SP).

A psicopedagoga Katia Campos Braatz aconselha: “Na hora da birra, o recomendável é manter a firmeza sem perder o acolhimento, validando o sentimento, mas não o comportamento inadequado”
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

Experiências familiares – Mãe de Noah, de oito anos, e Olívia, de quatro, a bancária Bianca de Medeiros, 42 anos, admite que precisou aprender a falar “não” de maneira leve, mas, ao mesmo tempo, respeitosa e firme diante das explosões emocionais dos pequenos, pois ambos são neurotípicos [pessoas que têm desenvolvimento e funcionamento neurológico dentro da média populacional considerada “comum”]. “Quando acontece uma crise de raiva, penso: ‘Preciso ficar próxima, garantir que eles se sintam seguros’. Entendo que, nesse momento, o mais importante é acolher para, depois, com calma, conversarmos”, relata Bianca, lembrando ainda que, para desenvolver resiliência e paciência nas crianças, estabelece acordos claros, estratégia que contribui para reduzir frustrações. “Quando eles sabem o que esperar, sentem-se mais seguros”, garante a bancária, acrescentando que, aos poucos, seus filhos estão entendendo que se frustrar faz parte da vida. Membro da Igreja Por Amor, em Oswaldo Cruz, na cidade de São Caetano do Sul (SP), Bianca conta que insere ensinamentos bíblicos no dia a dia dos filhos, falando de temas como gratidão, justiça, contentamento, compassividade e confiança em Deus. “Acredito que esses princípios são construídos na rotina, não apenas nos momentos difíceis”, avalia.

A bancária Bianca de Medeiros admite que precisou aprender a falar “não” de maneira leve, mas, ao mesmo tempo, respeitosa e firme diante das explosões emocionais dos seus filhos
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA
Foto: Svetlana Mishchenko / Adobe Stock

A chef de cozinha Priscila Batista, 44 anos, segue essa mesma linha. Evangélica, ela relata ter estruturado a criação da filha, Milena, de 14 anos, com base no respeito e na definição de limites desde a infância, abordagem que continua adotando até hoje. “Acredito que as frustrações fazem parte do amadurecimento e são essenciais para que ela se torne uma adulta forte e resistente”, compartilha Priscila, tendo em mente que a adolescência é, de fato, uma fase desafiadora. “Eles nos testam e cobram direitos. Entretanto, também é a oportunidade para aprenderem que direitos e deveres caminham juntos”, afirma ela, acrescentando que essa postura tem dado frutos. “Milena expressa cuidado com o próximo e repassa aos amigos os conselhos recebidos. Ela está amadurecendo, mas deixo claro que Jesus deve sempre estar em primeiro lugar, já que Ele é o melhor Amigo que se pode ter”, expõe a chef, reconhecendo que ser mãe significa viver experiências positivas e negativas. “Muitas vezes, somos a vilã aos olhos dos filhos, mas amar requer cuidado e desenvolvimento da inteligência emocional para que eles possam enfrentar o futuro.”

A chef de cozinha Priscila Batista compartilha: “Acredito que as frustrações fazem parte do amadurecimento e são essenciais para que ela se torne uma adulta forte e resistente”
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA
A trancista Tatiana Aparecida Campos afirma que, ao olhar para trás e avaliar sua trajetória, não se arrepende de ter imposto limites aos filhos desde a infância, postura que mantém quando necessário
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

Por sua vez, a trancista Tatiana Aparecida Campos, 46 anos, mãe de Miguel, 19, e Rianna, 17, afirma que, ao olhar para trás e avaliar sua trajetória, não se arrepende de ter imposto limites aos filhos desde a infância, postura que mantém quando necessário. “Faço isso principalmente pela nossa realidade, de uma família negra e periférica, exposta a vários riscos”, observa a cabeleireira, especializada na criação e manutenção de tranças. Ela frisa que, além de estabelecer regras, busca explicar aos filhos os motivos de suas decisões. “Sempre trabalhei a importância de falar ‘não’ hoje para que eles entendam que o ‘sim’ chega oportunamente”, relata ela, membro da Igreja Casa de Oração Filadélfia, na Freguesia do Ó, zona norte de São Paulo (SP). Tatiana lembra também que incentivou os filhos a se dedicarem ao esporte e a enfrentarem desafios com determinação, enquanto buscavam oportunidades na área. “Cheguei a me considerar uma ‘mãe cruel’, mas avalio que minha postura firme, aliada ao diálogo, trouxe resultados positivos. Valeu a pena”, diz, orgulhosa.

Para Kênia Dias Brasil Ferreira, “lidar com a espera é uma dificuldade de toda criança, mas é possível ensiná-la a partir das Escrituras Sagradas”
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

Visão bíblica – Na opinião de Kênia Dias Brasil Ferreira, líder do ministério Crianças que Vencem (CQV) na sede estadual da Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD) em Goiás, as comunidades cristãs, na condição de apoiadoras das famílias no processo educacional dos filhos, devem ensinar às crianças como controlar as emoções e manter o comportamento social adequado a partir dos exemplos bíblicos. “Lidar com a espera é uma dificuldade de toda criança, mas é possível ensiná-la a partir das Escrituras Sagradas”, pontua ela, citando o conhecido texto de Eclesiastes 3.1: Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu. Para Kênia, além de repassar ensinos bíblicos, é importante entender que as dificuldades infantis também são vencidas com oração. “Quanto a obedecer às regras, mantemos uma rotina. Assim, elas sabem que primeiro faremos determinada tarefa e, depois, outra atividade”, observa, enfatizando que os limites devem ser ensinados aos pequeninos como fonte de proteção do mal, para que eles não sejam feridos nem desobedientes ao Senhor. “Procuramos levá-los a entender a importância de uma vida dedicada ao Todo-Poderoso, que nos abençoa, enche-nos de amor e espera nossa obediência.”

O Pr. João Florêncio de Oliveira Alves Júnior prega: “O filho que entende o propósito bíblico não se frustra: espera no Senhor”
Foto: Arquivo pessoal – modificado por IA

Para o Pr. João Florêncio de Oliveira Alves Júnior, líder da IIGD no Setor Central em Rio Verde (GO), a Bíblia é a principal ferramenta para forjar a resiliência. “O filho que entende o propósito bíblico não se frustra: espera no Senhor”, prega o ministro, citando a paciência de José do Egito – que manteve a fé, a integridade e a esperança durante anos de provações, incluindo escravidão e prisão injustas – e a firmeza de Davi, estabelecida na crença inabalável em Deus diante das adversidades vivenciadas que forjaram seu caráter. Por outro lado, Florêncio faz um alerta aos pais que insistem em evitar que seus filhos sofram frustrações. “Isso cria adultos frágeis e psicologicamente imaturos, tal qual o sumo sacerdote Eli, que, ao não repreender seus filhos, falhou em sua missão”, recorda-se, citando os capítulos 2 a 5 do primeiro livro de Samuel. O pastor lembra também que é fundamental o casal falar a mesma língua no processo de formação familiar. “É melhor serem incompreendidos hoje pelos filhos do que criarem algo incontrolável amanhã”. Referindo-se à passagem de Hebreus 12.7, ele continua: “A correção firme não é culpa, mas obediência a Deus, que corrige a quem ama”, afirma o ministro.

O Pr. Jonnathan Machado lembra que nem sempre os filhos compreenderão, no presente, as decisões tomadas pelos genitores
Foto: Arquivo pessoal – modificada por IA

O Pr. Jonnathan Machado, líder da Igreja da Graça na COHAB, em São Luís (MA), incentiva os pais a se manterem firmes, mesmo diante das demandas de uma geração cada vez mais imediatista. Ele lembra que nem sempre os filhos compreenderão, no presente, as decisões tomadas pelos genitores. Citando o texto de João 13.7 (Respondeu Jesus e disse-lhe: O que eu faço, não o sabes tu, agora, mas tu o saberás depois), o pastor afirma que a perseverança – aliada ao diálogo e aos limites – é fundamental para a formação da índole. “Tenho convicção de que essa deve ser a permanente esperança no coração dos pais: a de que, em um futuro próximo, os filhos reconhecerão todo o cuidado, serão gratos e dirão ‘obrigado’ pela educação recebida”, conclui o ministro, acrescentando que, apesar das incompreensões, educar com base na Palavra de Deus é investir na construção de adultos mais conscientes, responsáveis e preparados para a vida.


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